Por onde andas tu ó Saúde?…

saude1É com as mãos enregeladas de frio que me chego junto do computador, num dia que começou bem cedo para levar a Margarida ao pré-escolar, terminadas que estão as férias de Natal, e que continuou com uma ida da Madalena, engripada, às urgências da clínica do Fórum Algarve. Ir ao Privado, claro está, não que o dinheiro abunde por estas bandas, mas porque o Serviço Nacional de Saúde está cada vez pior e não se pode brincar com a vida de uma criança de 15 meses.
Aliás, se dúvidas existissem na minha mente, tinham sido logo dissipadas pela notícia de um homem de 57 anos que morreu à espera de ser atendido nas urgências do Hospital de Santa Maria da Feira, alegadamente sem ter recebido assistência médica. Segundo reza a história, o senhor chegou ao hospital perto das 16h30 com sintomas de diarreia e vómitos e, na triagem, ficou com pulseira amarela. Os familiares contam que ainda fez uma segunda triagem, mas continuou sem ser assistido e, perto das 21h30, acabou por falecer na sala de espera. E, na semana passada, já algo semelhante ocorrera nas urgências do  Hospital de S. José, em Lisboa, onde um homem de 70 anos foi encontrado morto, pelo filho, numa maca, depois de ter estado seis horas à espera de ser visto por um médico.
Os casos, infelizmente, sucedem-se a um ritmo alarmante, uns chegam à atenção dos noticiários, outros permanecem no anonimato, mas um praticamente igual deixou-me mais preocupado, porque diz respeito a um familiar próximo. O primo da minha esposa, com 81 anos, diabético, bi-amputado dos membros inferiores, deu entrada nas urgências do Hospital de Vila Nova de Gaia com 39,5º de febre, pela 1h30 da manhã. Apesar da pulseira amarela, só quase às 9h é que foi visto por uma médica, seguiram-se exames, muda para a pulseira laranja às 12h30 e, pelas 16h, é decidido o seu internamento. O problema é que não há vagas nas Urgências que, segundo a minha prima, mais pareciam uma zona de guerra. As horas passavam, os médicos não conseguiam dar respostas dignas aos familiares, o caos estava instalado e a esperança de todos é que a história tivesse um final feliz.
saude2Claro que o problema não está propriamente nos médicos, enfermeiros ou auxiliares, que são os alvos mais fáceis a abater nesta confusão em que está mergulhado o Serviço Nacional de Saúde, mas sim nos cortes a torto e a direito ditados pelo Ministro da Saúde com vista a reduzir o défice do Estado. Os recursos humanos estão reduzidos ao limiar mínimo do funcionamento dos estabelecimentos de saúde em condições normais, os medicamentos e outros materiais escasseiam, os hospitais estão todos endividados e não conseguem pagar a tempo e horas aos laboratórios farmacêuticos, e estes também há muito deixaram de vender fiado.
Depois, muitos médicos dividem-se entre o serviço público e o privado, o que leva a um cansaço e desgaste acrescidos e impede igualmente que possam substituir colegas em caso de faltas imprevistas ou baixas. A classe médica também está envelhecida e, como se continua a exigir médias absurdas para se entrar nas faculdades de Medicina, são mais os profissionais que se reformam do que os jovens que tiram os cursos e entram no mercado de trabalho. No que toca a enfermeiros, acontece o oposto, há mais profissionais a querer trabalhar do que aqueles que o Ministério da Saúde está disposto a contratar, e ao preço da chuva, porque é mais importante reduzir o défice público do que prestar bons cuidados de saúde.
Entretanto, no mesmo dia ficou a saber-se que o Serviço Nacional de Saúde foi lesado, durante o ano transato, em cerca de 347 milhões de euros, resultantes de fraudes cometidas por médicos, farmácias, distribuidores de medicamentos e prestadores de outros serviços. Ou seja, o dinheiro já vai sendo disponibilizado a conta-gotas para os hospitais e centros de saúde e ainda há uma trupe de malandros que inventam mil e um esquemas para ganhar dinheiro de forma ilícita, sem se preocuparem com aqueles que são verdadeiramente prejudicados por essa patifaria, os utentes finais, os nossos pais e mães, filhos e filhas, a geração que nos viu crescer e aquela que, supostamente, será o futuro do país. E não ei-de eu estar rabugento…

Daniel Pina

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