Quanto mais consegues aguentar tu, liberdade de expressão?

je suis charlieHoje estou para lá de rabugento, bem mais. Estou transtornado pelo ataque cobarde levado a cabo, ontem, por extremistas à sede do semanário satírico «Charlie Hebdo», na cidade de Paris, e que culminou na morte de 10 jornalistas e dois polícias. Por muito que não se concorde com a linha editorial de um meio de comunicação social, por muito que não se goste do que escrevem alguns jornalistas, ou do que desenhem alguns cartoonistas, nada justifica um atentado com intuito de assassinar, a sangue frio, seres humanos.
Nós sabemos que a profissão de jornalista não é isenta de riscos, sobretudo quando se anda no terreno, e prova disso são os muitos colegas que já foram feridos ou perderam a vida quando estavam a cobrir algum acontecimento. Mas isso são situações pontuais num palco de guerra, numa zona de calamidade natural, numa manifestação popular ou algo semelhante e quem é destacado para fazer a cobertura está ciente de que há a possibilidade de que algo possa correr mal. Agora, um ataque com armamento pesado e precisão militar à sede de um jornal para se matar quem lá estava a trabalhar, é um caso inédito e pode abrir um precedente bastante perigoso, para além de ser mais uma machadada na liberdade de expressão.
Num momento em que, do descontentamento à ação vai um pequeno passo, é importante que se demonstre de forma clara e inequívoca que tal não pode acontecer. Se alguém se sente injustiçado ou prejudicado por aquilo que é publicado ou dito num meio de comunicação social, seja jornal, revista, rádio, televisão ou outro formato, exerce os mecanismos legais ao seu dispor e coloca um processo de difamação, calúnia, danos morais ou materiais, nos tribunais competentes. E o que não faltam, infelizmente, são jornalistas que não se preocupam em pisar o risco, ultrapassar os limites ou contornar as regras para ter uma peça nas capas dos jornais e revistas ou a abrir os noticiários no horário nobre da televisão.
Eu próprio já fui a tribunal em duas ocasiões, por algo que os entrevistados disseram nas peças que foram publicadas e, apesar de não ter cometido nenhuma ilegalidade e de ter sido absolvido em ambos os casos, a experiência serviu de lição. Desde então, e contrariando o princípio básico da liberdade de expressão, fui eu próprio a censurar o que escrevia porque sabia que, a ser publicado o que tal pessoa tido dito, corria o risco de regressar à barra dos tribunais e nada me garantia que, dessa vez, o juiz não dava razão ao queixoso. Por isso, antes de colocar no papel o que estava gravado, perguntava-me se valia a pena estragar a minha vida, e da minha família, por causa de meia dúzia de palavras ou linhas publicadas numa revista.
O problema é que os condicionalismos à liberdade de expressão são cada vez mais comuns e não é preciso puxar muito pela cabeça para nos lembrarmos de jornalistas que escreveram algo que não agradou a este ou aquele político, dirigente ou empresário, e que foram colocados na prateleira ou despedidos. Isto sem falar nas tais idas ao tribunal, cujo desfecho é sempre incerto. E se olharmos para a imprensa regional, para os jornais e revistas de menor dimensão, ou que não façam parte de nenhum grupo poderoso, percebemos facilmente o peso que as questões comerciais exercem sobre a vertente jornalística.
Nem me lembro das vezes em que propus alguma entrevista ou reportagem à direção da revista onde trabalhava e a resposta que recebia é que tinha que arranjar duas ou três empresas para fazer publicidade, de modo a cobrir o custo do papel que ia ser gasto na dita peça. Ou seja, a matéria podia ter muito interesse jornalístico, mas só via a luz do dia se houvesse alguém que pagasse para isso. Pior do que isso, tinha que ser o jornalista a vestir a camisola de vendedor de publicidade, apesar de não o poder fazer por incompatibilidade de funções.
Outra situação recorrente é que, se tivéssemos a «ousadia» de escrever algo negativo sobre algum presidente de câmara municipal ou administrador de empresa, nem valia a pena no futuro pedir publicidade a essas entidades, pois estávamos na lista negra por tempo indeterminado. Lá se vai por água abaixo a isenção e imparcialidade do meio de comunicação social, mesmo que tal esteja consagrado no seu estatuto editorial. E lá vai perdendo, a pouco e pouco, o interesse dos leitores, que se apercebem que só são publicados assuntos cor-de-rosa, reportagens da casa de férias do senhor X ou dos caniches da senhora Y, entrevistas de promoção descarada de indivíduos só com temas que os fazem parecer bem melhor do que são na realidade.
É óbvio que, se um editor opta por essa linha, sempre se arranja alguém disponível para pagar umas dezenas ou centenas de euros por algumas páginas numa revista ou jornal, e muito dificilmente se vai parar aos tribunais ou se é alvo de outras represálias. Mas será isso jornalismo? Para mim não, e o mesmo pensam os responsáveis dos projetos de imprensa que apostam essencialmente no formato online, provavelmente porque estão menos dependentes das receitas de publicidade e, assim, não precisam dar graxa a políticos e empresários. No entanto, neste mundo louco em que vivemos, já nada funciona dentro da normalidade e se, antigamente, encontrávamos o carro de serviço todo riscado ou levávamos com uma pedra na janela da redação, a tragédia do «Charlie Hebdo» mostra-nos que os perigos de ser jornalista, daqueles sem papas na língua, são cada vez maiores.

Daniel Pina

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