As habituais hipocrisias eleitoralistas…

impostosO dia de ontem foi marcado por diversos acontecimentos que terão deixado satisfeitos a grande generalidade dos portugueses, ainda que com diferentes graus de influência e impacto no nosso dia-a-dia. A notícia mais mediática foi, sem dúvida, a conquista da terceira bola de ouro por Cristiano Ronaldo, apesar das tentativas de alguns dirigentes em fazer pender a balança para o argentino Leonel Messi. Este ano a verdade desportiva foi mais forte que os lobbies e interesses de federações e clubes, mas não nos podemos esquecer que, num passado bem recente, Messi levou a melhor sobre Cristiano Ronaldo sem o merecer. Felizmente, a diferença de rendimento entre os dois foi tão grande em 2014 que outro resultado teria sido uma grande barracada.
Outro madeirense em destaque no dia de ontem foi Alberto João Jardim que, ao fim de 37 anos, lá apresentou a tão anunciada demissão da presidência do Governo Regional da Madeira, embora se mantenha no cargo até à realização de eleições antecipadas e, aos jornalistas, tenha deixado escapar, com o seu jeito característico, que pode continuar a fazer tudo o que lhe apetecer até ser definido o seu sucessor. Ora, se nos lembrarmos que ainda há bem pouco tempo defendeu que a arrepiante dívida pública da Madeira deve ser tratada de forma diferenciada, porque surgiu da necessidade de desenvolvimento da região, há motivos para franzir o sobrolho e desejar aos céus que não se venham a descobrir «buracos» inesperados e «negociatas estranhas» num futuro próximo. É que estas surpresas desagradáveis normalmente só vêm à luz do dia, ou passam de suspeitas a investigações de facto, quando os seus responsáveis se afastam dos cargos que desempenhavam, como atesta o exemplo do antigo primeiro-ministro José Sócrates.
Curiosamente, com as atenções voltadas para estes dois madeirenses, a notícia que mais diretamente afeta os portugueses quase passou despercebida e só hoje é que se começou a falar dela, designadamente a publicação em Diário da República das novas tabelas de retenção na fonte para 2015. A noção de que iriamos pagar menos impostos não é nova, não estivéssemos em ano de Eleições Legislativas e a dupla Pedro Passos Coelho/Paulo Portas tenha agora um adversário à altura na figura de António Costa. Mas, se o assunto já tinha sido amplamente debatido aquando da aprovação do Orçamento de Estado para 2015, só agora é que podemos fazer simulações a sério.
Ora, segundo os especialistas na matéria, os casais com rendimentos médios e com filhos vão, efetivamente, pagar menos impostos. Em simultâneo, a maioria das famílias, para além de conseguir beneficiar da totalidade da dedução por conta das despesas gerais familiares, pode ainda efetuar diversas deduções à coleta (saúde, educação, encargos com imóveis). Isto porque, claro, estamos em ano de eleições, até porque a intenção do governo era eliminar as deduções dos encargos com créditos à habitação e rendas, entre outras despesas. Depois, saiu-lhe na rifa um novo líder do PS, António Costa, e lá decidiu que era melhor dar alguns motivos para os portugueses não atirarem tantas pedras à coligação PSD/CDS.
A hipocrisia da situação é que os euros extra que o governo vai dar às famílias portuguesas via reembolso do IRS, vai buscá-los todos os dias às nossas carteiras através dos novos impostos verdes. Ao mesmo tempo, este ano já não há cláusula de salvaguarda no IMI, pelo que muitos agregados familiares vão ter um sobressalto quando receberem a cartinha das Finanças com o imposto que têm de pagar das suas casas. Um imposto que, por muito que puxe pela cabeça, não consigo perceber. É que, quando comprei o meu apartamento, paguei a escritura e uma série de registos às Finanças. A imobiliária também terá, supostamente, pago imposto sobre o lucro com a transação do imóvel, assim como o construtor pagou quando vendeu o prédio para a imobiliária, assim como o proprietário do terreno pagou quando o vendeu ao construtor. Ou seja, andamos todos os anos a pagar um imposto quando, aparentemente, já todos os envolvidos no negócio pagaram a exigida quota-parte aquando da sua realização mas, como não sou fiscalista, é natural que me esteja a passar alguma coisa ao lado.
centro de empregoOutra hipocrisia eleitoralista veio a público já no dia de hoje, com a intenção do governo avançar com um novo programa de estágios para desempregados com mais de 30 anos e que se encontrem nas listas dos centros de emprego há mais de um ano, cenário em que, infelizmente, me insiro. Ora, dizem os jornais que a proposta vai ser levada à reunião desta quarta-feira da concertação social e que prevê condições menos exigentes para as empresas e, em alguns casos, assegura comparticipações mais generosas. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas piscam, assim, o olho aos empresários e também aos desempregados que criticavam só haver incentivos à colocação de jovens recém-licenciados.
O programa surge, mais uma vez curiosamente, numa altura em que a taxa de desemprego volta a subir, depois de ter estado em queda alguns meses, como reflexo do trabalho sazonal. E se o governo continua a dizer que, hoje, há menos pessoas a receber subsídio de desemprego, isso não é sinónimo de haver menos desempregados. Simplesmente apertaram os critérios de atribuição do subsídio e diminuíram o tempo a que as pessoas têm direito a recebê-lo. Depois dessa data, mesmo que ainda não tenham arranjado trabalho e tenham feito os seus descontos enquanto fizeram parte da população ativa, deixam de contar para as estatísticas e passam a viver sabe-se lá como, mas o importante é não fugir muito às médias da União Europeia e fazer boa figura em ano de eleições. Isto se os portugueses ainda andarem de olhos tapados e forem em cantigas desafinadas como noutros tempos. O que não é, certamente, o meu caso, daí a minha rabugice matinal.

Daniel Pina

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s