Desatinos num País de Faz de Conta

fazdeconta3As maravilhas da pontualidade britânica. Sete da manhã e a Madalena levanta-se no berço e dá o toque de despertar. Com a traquinas já deitada entre os dois, eu e a esposa ainda conseguimos adiar a saída da cama por mais meia hora mas não há volta a dar e os alarmes dos telemóveis também já deram de si.
Começa a rotina diária. Preparar o leite da Madalena, de 15 meses, enquanto a mulher se vai arranjar para o trabalho e vai tratar da Margarida, quase cinco anos, que tem que picar o ponto na escola às 9h. Higiene pessoal, vestir a roupa, a nossa e das miúdas, fazer as camas, abrir as janelas para arejar os quartos, tratar da merenda e do pequeno-almoço da Margarida, beber um café e comer um bucha de pão.
A esposa vai trabalhar, a Madalena fica com a avó e eu vou levar a Margarida à escola. Afinal hoje não pica o ponto às 9h. Às duas auxiliares que partiram o pé no espaço de uma semana, e à outra que está de baixa não sei bem porquê, soma-se uma quarta ausência, uma auxiliar que veio através do Centro de Emprego e que, pelos vistos, hoje apeteceu-lhe fazer gazeta. A professora, que anda mal das costas, foi fazer um tratamento e também está um pouco atrasada. Ora, como o Ministério da Educação continua empenhado na Cruzada de cortar o número de funcionários das escolas, seja docentes ou pessoal auxiliar, os efetivos estão esticados ao máximo e, sempre que há um imprevisto, está a barraca armada.
Infelizmente, nem é preciso acontecer algo inesperado para soar o sinal de alerta, como verifiquei no final do ano transato. Primeiro, foram duas greves marcadas pelos sindicatos quase para o dia seguinte, o que não dá qualquer margem de manobra aos pais, porque só no próprio dia é que sabem se há pessoal suficiente para a escolar abrir as portas. Depois, chegou o Natal, andavam os miúdos encantados da vida porque iam participar no desfile dos mini Pais Natal do concelho de Loulé e há duas turmas que não puderam participar na festança.
Não. Não eram os mal comportados da zona que ficavam de castigo na escola. Como há duas crianças que necessitam de cuidados especiais de educação e, contrariamente ao que diz a lei, não há educadores habilitados para tal em número suficiente naquela escola, não se podiam correr riscos com uma saída ao exterior. Lá está, o Ministério da Educação corta nos funcionários, mas não corta nos motoristas, nem nos carros topo de gama dos chefões e, como tal, ficaram mais de 50 crianças encostadas ao corredor a ver os restantes colegas, trajados a rigor e de sorriso nos lábios, seguir para os autocarros com destino a Loulé.
De volta ao presente, e enquanto se tentava descobrir o que fazer a quase 30 miúdos, os pais olhavam para os relógios e desesperavam, já a antever uma bronca dos patrões por chegarem atrasados ao trabalho. Eu, como estou desempregado e tenho a sorte da sogra ter ficado com a Madalena, não trepei pelas paredes e aproveitei os minutos extra para ler as notícias do dia no telemóvel.
Parecia de propósito. O secretário de Estado Adjunto da Saúde rejeita que haja um caos nas Urgências dos hospitais e diz que foi feito um excelente planeamento para precaver o surto de gripe neste Inverno. Por entre a aposta na vacinação, o reforço dos horários dos centros de saúde e a contratação de mais profissionais, diz que foram reabertas 569 camas nas últimas semanas para responder à procura. Calma lá. Reabrir não é o mesmo que criar algo novo e também não explicou por que razão esse tal meio milhar de camas tinha deixado de estar ao serviço dos utentes. Provavelmente para reduzir as despesas do Ministério da Saúde, mesmo que isso implique mandar os doentes para casa sem tratamento ou deixá-los morrer nos corredores à espera de serem atendidos.
fazdeconta2Ano de eleições. Está explicada então a intenção do governo português em proceder ao pagamento antecipado do empréstimo contraído ao Fundo Monetário Internacional durante o resgate financeiro do país. Segundo a Ministra das Finanças, “o Estado acumulou um montante de reservas de liquidez muito significativo que permite enfrentar com muita tranquilidade eventuais dificuldades futuras”. Assim, para Maria Luís Albuquerque, “Portugal está em condições e vai iniciar os procedimentos necessários para o reembolso antecipado ao FMI”. Pudera. A despedir funcionários das escolas, a não contratar mais médicos e enfermeiros, a «fechar» camas nos hospitais, realmente, conseguem-se poupar muitos milhões de euros neste Portugal do Faz de Conta. As pessoas continuam a morrer à espera de serem atendidas nos hospitais, os miúdos ficam amontoados nos refeitórios das escolas porque não há professores e auxiliares suficientes para terem aulas, mas o governo sopra para o ar, mete mais uma moedinha no carrossel e siga para outra volta neste país de faz de conta. Enfim, venha daí a rabugice…

Daniel Pina

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