Calma que está tudo resolvido !

O aproximar de eleições tem destas coisas, desperta o animal que todo o político tem de si e, de repente, governantes que até eram conhecidos por alguma discrição, para não dizer que eram algo mansos, soltam a fera, parece que ganham uns centímetros de altura, ficam com a voz mais forte e confiante e nada lhes parece estar fora do alcance. É verdade que o nosso primeiríssimo não era propriamente um governante low-profile, até por inerência do cargo que desempenha, mas parece que foi a algum especialista afiar as unhas para os combates que se avizinham.

Veja-se o discurso no encerramento das comemorações dos 40 anos de PSD, em que o homem era meio primeiro-ministro, meio líder partidário, mas todo ele candidato de olhos postos nas Legislativas. A ouvi-lo dizer que termina o mandato com a situação do país resolvida, mais parecia o Cristiano Ronaldo quando marca um golo e, virado para as bancadas, aponta o dedo para si a dizer: “Calma, eu estou cá para resolver tudo!”.

Volvidos poucos minutos, quando analisava as promessas eleitorais do PS de António Costa, Passos Coelho vestiu a pele de um autêntico Nilton ou Ricardo Araújo Pereira e falou, em tom de brincadeira, de assuntos muito sérios, levando ao delírio uma plateia onde pontificavam, na primeira fila, figuras como Francisco Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso, para além dos seus companheiros de governo e de partido. E os homens riam-se a bem rir das graças do senhor do púlpito, como se não estivesse o futuro da nação em debate.

Eu, como bom carneiro rabugento que sou, não achei grande piada à forma como Pedro Passos Coelho falou aos seus colegas de partido e à nação em geral. Disse: “Estamos a libertar-nos da ditadura dos números”. Dos números reais ou dos números que inventam nos seus gabinetes, das estatísticas que ninguém percebe muito bem de onde surgem, que dizem que o desemprego está a baixar, que a confiança dos consumidores está em alta, que o país está de novo na rota do crescimento e mais blablabla do género? É que só vejo empresas a viver à custa dos estágios profissionais e da inocência dos recém licenciados. Só vejo as pessoas a cortarem ao máximo nas despesas porque não sabem o dia de amanhã. Só vejo os preços de tudo a aumentar, mesmo quando as matérias-primas baixam.

Disse: “Estamos a libertar-nos da ditadura da dívida”. Já um antigo governante afirmou, de forma descarada, que a dívida soberana dos países nunca se chega a pagar. Que se contraem novos empréstimos quando os atuais estão quase a vencer. Que se pede dinheiro emprestado para pagar os juros de empréstimos. Que se continua a depender das ajudas do Banco Central Europeu para tapar os buracos internos. Que o despesismo do aparelho de estado continua a aumentar a olhos vistos, ao mesmo tempo que se corta na Saúde, Educação, Apoio Social.

Disse: “Estamos a libertar as gerações futuras dos erros do passado”. No passado, as pessoas recebiam um ordenado que lhes dava para ter uma vida mais ou menos equilibrada. Agora, vivemos na época do ordenado mínimo, dos estágios profissionais pouco e mal remunerados, do viver com os pais porque não há dinheiro para alugar uma casa, da certeza que vamos trabalhar uma vida inteira e, quando for a altura devida, não vai haver dinheiro para nos pagarem as reformas. Mandamos os jovens qualificados trabalhar para o estrangeiro porque em Portugal não se safam. Deixamos os velhotes morrer sozinhos e abandonados, em casa ou nos corredores dos hospitais. Não sei que erros se estão a evitar…

Afirmou: “Temos vindo a libertar o povo e o país de supostos donos… não nos importando com a popularidade, nem com as eleições”. Realmente, tem havido muitos poderosos acusados de crimes de colarinho branco. Condenados é que são menos e, quando o são, as penas são ridículas. Populares também não precisam ser, porque nunca vi nenhum governante, por muito bom ou mau que fosse, ficar no desemprego, pois tem logo à espera um cargo de administrador ou consultor numa multinacional ou num organismo europeu. E se perderem as eleições, ficam quatro anos com um bom ordenado de deputado, mais uns biscates por fora e, num instante, metem os papéis para uma reforma dourada. Por isso, realmente, está tudo resolvido, mas para os mesmos do costume…

Daniel Pina

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