De herói a bobo da corte em 90 minutos…

Despachado de dar o jantar às pequenotas, fui dar uma espreitadela à internet e vejo que o Porto já estava a levar três do Bayern de Munique e ainda nem tinha terminado a primeira-parte. “Cheira a goleada” lia-se em letras gordas nalguns sítios da internet. No facebook, a chacota já ia bastante animada e começavam a aparecer as primeiras montagens humorísticas, pois era mais que óbvio que a participação do Porto na Liga dos Campeões tinha terminado. E logo às mãos do mesmo clube que, há uns anos, também deu duas valentes tareias ao meu Sporting.

Andar meio mundo a gozar com o desaire dos «tripeiros» não me espanta, pois sabemos bem que praticamente todos os portugueses que não são do F.C.P. têm um ódio de estimação, disfarçado ou à descarada, pelo emblema da Cidade Invicta. Junte-se a isso um presidente mal-amado pelas «bocas» que atira, com conta, peso e medida, aos seus rivais de Lisboa, um craque cigano que passou ao lado de uma grande carreira e um treinador que gosta de mandar uns bitaites em latim, e é meio caminho andado para a paródia geral. E, diga-se em abono da verdade, o comum português é fantástico na arte de gozar com o infortúnio do vizinho ou do rival ou com as declarações menos conseguidas dos nossos governantes ou personalidades. Que o digam Cavaco Silva, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, por exemplo, que tanto furor fizeram no passado recente nessa mediática rede social.

O português, neste aspeto, não perdoa. Aliás, até parece que tem uma mão-cheia de piadas pré-preparadas à espera do evento certo para serem libertadas para a atmosfera, nesta noite a derrota clamorosa do Porto na Alemanha. E eu que pensava que toda a gente detestava também os alemães, esse povo amoroso que já desencadeou duas guerras mundiais e foi responsável pela morte de milhões de pessoas no último século e que agora, como os conflitos evoluíram com o passar dos anos, quer conseguir pela força do dinheiro o que não conseguiram antes pelo poder das armas.

Curiosamente, e aposto que não me engano, muitos dos que hoje gozaram com a derrota humilhante do Porto, há uma semana só lhes faltou cantar o hino nacional depois da vitória «tuga» no Estádio do Dragão. E, mesmo a propósito, vêm-me à cabeça as palavras de um senhor que esteve esta tarde num programa da SIC Notícias ou da TVI 24 Horas, que dizia que os portugueses são muito bons a esquecer o seu passado mais recente. Como andava numa escapadela fugaz dos canais dos mais novos – porque as filhotas é que mandam na televisão – não cheguei a perceber se o homem era escritor, psicólogo ou coisa parecida, mas que tinha razão, lá isso tinha. Somos muito adeptos de recordar os nossos feitos durante a época dos Descobrimentos, raios, eramos nós que descobríamos quase tudo naquela altura e tivemos meio mundo nas nossas mãos. E digo isto literalmente, porque o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, dividia, a grosso modo, o mundo entre Portugal e Espanha, exceção feita, claro, ao Velho Continente. Mas como depois conseguimos a proeza de perder todas essas riquezas, as últimas das quais nas ex-colónias africanas, começamos a apagar da memória tudo o que acontece de menos positivo no dia-a-dia.

Acho, porém, que o nosso problema não é esquecer o passado recente, mas sim esquecermo-nos que somos portugueses. Só assim se justifica que, quando se fala de futebol, haja tanta gente a manifestar alegria com a derrota de um clube nacional nas competições europeias. E se, por vezes, nos esquecemos que somos portugueses, é porque cada vez são menos os motivos para termos orgulho de o sermos. Já não há mais continentes para descobrir, não temos meios financeiros para andarmos à conquista do espaço como os americanos, nem sequer para descobrirmos a cura para uma doença grave ou para almejarmos um grande avanço tecnológico.

Vamos fazendo uns pequenos brilharetes, normalmente só enaltecidos numa esfera reduzida de pessoas, mas depois salta para a opinião pública um mega escândalo envolvendo um político, empresário, banqueiro ou dirigente da alta-roda e lá desincha outra vez o ego lusitano. E como as punições maiores estão reservadas para o crime do «pé descalço» e não do «colarinho branco», volta a instalar-se a crença de que este país está irremediavelmente perdido, que não há volta a dar e que o melhor é vender mesmo tudo aos angolano e chineses. E, por isso, não me surpreende mesmo nada que o Porto tenha sido um herói nacional na semana passada e que, esta noite, tenha sido despromovido para bobo da corte…

Daniel Pina

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