Eu é que mando! Mas nem sempre …

À hora que escrevo esta crónica ainda os gregos votam no referendo que pode alterar por completo o destino do seu país e, quiçá, da própria União Europeia. Não sou propriamente um analista político nem especialista em macroeconomia ou direito internacional, mas já deu para ver que a saída ou não da Grécia do Euro, e o cumprimento ou não das responsabilidades que assumiu para com os seus credores, tem muito pano para manga e podemos concordar ou discordar com quase tudo o que tem acontecido, dependendo da maneira com que se olhe para o assunto.

Assim sendo, prefiro olhar para o assunto numa escala mais próxima do nosso dia-a-dia, da nossa própria realidade. Ora, se eu tiver dinheiro para comprar uma casa a pronto pagamento e se pagar todas as despesas correntes com o meu próprio dinheiro, se calhar sinto que posso fazer o que bem me apetecer dentro daquelas quatro paredes, sem com isso prejudicar os vizinhos ou atentar contra as leias da comunidade onde me insiro. Se, por outro lado, viver numa casa oferecida pelos meus pais e se as despesas correntes forem custeadas por uma mesada que receba deles, lá se vai o meu poder absoluto, pois arrisco-me a que me sejam cortadas tais benesses se sair da linha, se não corresponder às expetativas colocadas em mim pelos meus pais ou se não cumprir com condições pré-estabelecidas para usufruir de tais regalias.

Como nem todos os portugueses têm pais ricos, eu incluído, não temos outro remédio senão pedir dinheiro emprestado para comprar a tal casa, normalmente a uma entidade bancária, sujeitando-nos às condições por ela impostas. É um género de casamento até que a morte nos separe, ou até que paguemos a totalidade do empréstimo e, a partir do momento em que colocamos a nossa assinatura naquele documento, não vale a pena reclamar ou chorar que não temos dinheiro para pagar. Apanhei com as taxas altas e pouco dinheiro sobrava ao fim do mês para comer, agora as coisas estão mais controladas porque os juros estão baixos mas, se voltarem a subir, não posso decidir, de um momento para o outro, que já não me apetece pagar. Quer dizer, decidir posso, fico é sem a casa e vou para tribunal. Portanto, esta questão de soberania é muito bonita e legítima quando não devemos dinheiro a ninguém, e a nossa vontade deve ser respeitada, desde que, claro, também respeitemos as nossas responsabilidades e não lesemos os interesses dos nossos vizinhos.

Fala-se também muito de promessas feitas e não cumpridas, de se estar a enganar o povo para ganhar o voto, de fazer o que se prometeu que nunca se iria fazer. Eu volto a olhar para a realidade do Zé e do Manel. Se andarmos de olho numa moça gira e vistosa e, para a conquistarmos, a convidarmos para ir jantar a restaurantes de luxo, levá-la às melhores festas, oferecer-lhe prendas caras, sempre ao volante dum Mercedes ou dum BMW, se a moçoila for dessas materialistas, provavelmente está o casamento garantido. Se, depois, já não tivermos dinheiro para mantermos a fachada e levarmos com um divórcio em cima, não nos podemos lamentar muito, porque prometemos, durante a fase do engate, o que não tínhamos modo de cumprir depois do anel posto no dedo. E ela também não pode reclamar muito e dizer que foi enganada, porque devia ter estranhado tamanha fartura em tempo de crise.

Por essas e por outras, é sempre preferível falar a verdade, prometer apenas o que se tem para dar, dar o que se tem dinheiro para pagar, pagar o que se tem crédito para pedir e pedir apenas o que for estritamente necessário. Caso contrário, não há soberania nem casamento que aguente. Se os gregos têm razão nas suas queixas e lamentos e se o Tsipras está a ter uma postura séria e justificada, isso deixo para os analistas políticos e para os especialistas na matéria. Eu cá estou mais preocupado em pagar as contas ao fim do mês e manter um casamento saudável.

Daniel Pina

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