Há desempregados e desempregados…

Esta semana assisti no Facebook a mais uma discussão que, infelizmente, se vai tornando cada vez mais habitual e nas quais assisto, para minha revolta, muita gente deitar umas alarvidades da boca para fora que só demonstram a sua falta de conhecimento do assunto em questão e das suas várias facetas. Mas, como é típico do português, muitas vezes opinamos sem estarmos capacitados para isso e, depois, nem sequer somos recetivos a ouvir aqueles que discordem de nós, mesmo quando os seus argumentos parecem ser, efetivamente, os mais corretos.

A determinada altura um empresário queixava-se que não conseguia arranjar empregados para o seu restaurante, ao que outro rapidamente acrescenta que as montras das lojas também estão cheias de papéis a pedir funcionários, ao que outro ainda responde que os portugueses não querem trabalhos, mas sim empregos, e que preferem estar de barriga para o ar sem fazer nada enquanto durar o subsídio de desemprego. E eu fico parvo a ouvir tamanha sucessão de parvoíces.

Se me disserem que há por aí muitos «meninos» e «meninas» acabadinhos de sair da faculdade, que não conseguem arranjar o tal trabalho de doutor, engenheiro ou diretor de empresa que os seus canudos prometiam e que, por isso, preferem ficar em casa dos pais sem fazer nada, concordo perfeitamente. Se me disserem que, nos tempos das vacas gordas, muitos algarvios se habituaram a trabalhar os seis meses que durava a época alta na hotelaria, restauração e outros serviços associados ao turismo, passando os restantes seis meses a viver à custa do subsídio de desemprego e a fazer uns biscates por fora aos fins de semana e à noite, também concordo 100 por cento e conheci muitos casos desses. Agora, por favor, não metam no mesmo saco homens e mulheres de 30, 40 e 50 anos, que trabalharam 10, 15, 20 ou mais anos numa empresa, empresa essa que foi à falência, por contingências do mercado ou por incompetência dos seus gestores, e que agora se veem, de repente, sem um meio de sustento.

Estamos a falar de homens e mulheres na sua maioria casados, com filhos para criar, prestações da casa e do carro para pagar e que, de certeza, não gostam de depender de um subsídio que não dá para cobrir as suas despesas mensais. Esses homens e mulheres não andam à procura de um emprego onde não precisem fazer nada, porque já estão habituados a trabalhar, simplesmente querem receber um ordenado condizente com a sua experiência profissional, com as tarefas que vão desempenhar, com as suas responsabilidades. Por isso, é natural que não estejam inclinados para aceitar qualquer tipo de emprego, onde vão trabalhar quase como escravos, muito para além do limite legal de horas de trabalho semanais e a troco do salário mínimo.

Em muitos casos, realmente acabam por receber mais de subsídio de desemprego, mas não entremos em ataques parvos e fáceis. Primeiro, se têm direito a subsídio de desemprego é porque pagaram as contribuições para a Segurança Social ao longo dos anos em que trabalharam. Segundo, se o subsídio é mais alto do que o ordenado mínimo, não quer dizer que o subsídio seja elevado, o ordenado mínimo em Portugal é que é vergonhoso e não chega para um adulto fazer um vida normal, a não ser que viva em casa dos pais e que estes lhe tenham oferecido um carro de mão beijada quando tiraram a carta de condução.

E quem contribui para o perpetuar desta situação? Em primeira instância o Governo, ao criar incentivos para a contratação dos jovens licenciados à procura do primeiro emprego e em que assegura a principal fatia dos ordenados a quem oferecer os famosos estágios profissionais. Depois, como é óbvio, muitos empresários aproveitam-se das benesses advindas da famigerada crise, pois é mais rentável ter empregados em estágios profissionais em que pagam meia dúzia de tostões e que, ao fim de seis meses, são substituídos por outros nas mesmas condições, do que contratar funcionários efetivos, mais adultos e experientes, mas que exigem salários mais dignos. Por isso, por favor, não metam tudo no mesmo saco, porque há desempregados e há desempregados…

Daniel Pina

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s