Há vida para além do sábado…

O comum algarvio se calhar não reparou mas este sábado, 6 de junho, foi pródigo em eventos de média/elevada qualidade que se realizaram de uma ponta à outra do Algarve, o que, à partida, é bom para os espetadores, mas terrível para os jornalistas que, por vontade própria, ou por obrigação profissional, até gostariam de fazer a cobertura de alguns desses espetáculos. Foi o Mikael Carreira no Portimão Arena. Foi a Viviane no Auditório Municipal de Olhão. Foi a Ala dos Namorados no Teatro das Figuras, em Faro. Foi o «À Espera de Godot» no Cine-Teatro Louletano. Foi um convívio motard em Olhão. Foi o «Calceteiros de Letras» no Ginásio Clube de Faro. E muitos outros que desisti de colocar em agenda.

Houve tempos em que os algarvios, se quisessem ver espetáculos culturais de qualidade, tinham que rumar a Lisboa, pois estávamos esquecidos aqui neste jardim à beira-mar plantado e que, pelos vistos, só servia para passar férias nos meses de julho e agosto. Como o governo não fazia o seu trabalho, as autarquias, aproveitando os tempos de «vaca-gorda» dos fundos comunitários, construíram teatros e auditórios municipais e, hoje, o Algarve está muito bem servido de espaços desta natureza. Temos o Teatro Lethes e o Teatro das Figuras em Faro. O TEMPO e o Portimão Arena em Portimão. O Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves. Os Auditórios Municipais de Olhão, Lagoa e Albufeira. Temos Cine-Teatro em Loulé e São Brás de Alportel, o Centro Cultural de Lagos, espaços nobres de diversas associações recreativas em Faro e noutras cidades.

Com os espaços construídos, as autarquias puderam, finalmente, dinamizar uma política cultural rica em espetáculos de diversas formas de expressão artística. Não vou aqui discutir a qualidade dos eventos produzidos ou das companhias contratadas para os levar a cabo, porque não sou especialista nessa matéria. O que não consigo compreender é que, invariavelmente, a esmagadora maioria dos espetáculos acontecia aos sábados, como se apenas nesse dia os algarvios estivessem autorizados a desfrutar de uma saída de lazer com a sua cara-metade ou com os amigos.

Quando se trata de eventos direcionados para um público mais juvenil, até se aceita que não se realizem durante a semana porque há escola no dia seguinte. Agora, não é por um adulto ir a um espetáculo num dia de semana que depois não se consegue levantar a horas para ir trabalhar como habitualmente. E quando as autarquias deixaram de ter dinheiro para financiar estes eventos e entregaram a sua organização aos próprios agentes culturais, em troca destes ficarem com as receitas de bilheteira, eles decidiram seguir pelo mesmo caminho.

O sábado é, e sempre foi, a opção mais fácil para se tentar minimizar os riscos de uma fraca adesão do público, só que os promotores esquecem-se que, ao acontecer tudo no mesmo dia, em vários pontos da região, às vezes até da mesma cidade, o risco acaba por ser ainda maior, porque não há publico suficiente para encher tantas salas. O Algarve não é Lisboa, com mais de 500 mil habitantes a viver na capital. Também não é a Grande Área Metropolitana de Lisboa, com quase três milhões de habitantes. A região algarvia no seu todo nem chega a ter o tal meio de habitantes de Lisboa. Convém, por isso, que os promotores percebam que há vida no Algarve para além do sábado. Veja-se o concerto do Diogo Piçarra, no Teatro Mascarenhas Gregório, em Silves, que acontece na próxima terça-feira, 9 de junho, e que esgotou a lotação poucos dias depois de anunciado.

Daniel Pina

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