Já não se vende saúde a fiado…

Pelo que parece, o stock da BCG, vacina antituberculose que deve ser ministrada aos recém-nascidos nos dois primeiros meses de vida, entrou em rutura há três meses e, como é natural, os pais dos bebés que não estão a ser vacinados estão bastante preocupados. Como também se adivinha, as autoridades de saúde vêm logo garantir que não há perigo, dada a baixa incidência de tuberculose no país. E, para animar ainda mais os portugueses, a Direção Geral de Saúde afirma que está mesmo a ponderar-se a retirada da BCG do Programa Nacional de Vacinação, ou seja, é mais uma que deixa de ser comparticipada e, se os pais quiserem precaver a saúde dos seus filhos, que paguem da sua carteira algumas dezenas de euros.

Belo país o nosso em que a saúde das novas gerações é colocada em segundo plano e refém da bonança financeira dos agregados familiares. Um país cujos índices de natalidade teimam em cair a pique, onde os governantes não se cansam de incentivar os homens e mulheres desta nação para ter mais filhos, porque Portugal está a envelhecer perigosamente, porque nascem cada vez menos crianças, porque emigram cada vez mais jovens adultos, porque até os imigrantes de leste já começam a regressar aos seus países de origem, um caminho que os brasileiros já seguiram há algum tempo.

Sigam as palavras do Senhor, juntem-se e multipliquem-se. Palavras fáceis de debitar para senhores doutores que recebem milhares de euros de ordenado por mês. Para senhores doutores que, ao fim de 15 ou 20 anos de atividade, se reformam com pensões vitalícias de de centenas de milhares de euros anuais. Para senhores doutores com motorista à porta para levar a querida esposa e os maravilhosos rebentos para um hospital particular sempre que os filhotes tossem ou lhes rebenta uma borbulha.

Conselhos menos fáceis de seguir para quem está desempregado ou recebe o ordenado mínimo. Para quem não tem dinheiro para pagar a casa ao banco, quanto mais para comprar fraldas e leite em pó. Para quem não tem direito a abono de família porque o governo cortou nos escalões. E se não tem dinheiro para pôr comida na mesa, como é que vai pagar vacinas que custam dezenas de euros? Mas o governo continua a cortar nas comparticipações porque, supostamente, como somos um país moderno e civilizado, há menos riscos de se contrair determinadas doenças, portanto, não vale a pena as vacinas permanecerem no Plano Nacional de Vacinação. Se, por algum azar, a criança até contrair uma doença e, por falta de vacina, morrer, temos pena, dá-se uma palmadinha nas costas dos pais, foi um caso lamentável, mas isolado.

Casos isolados que se podem evitar se não se seguir uma política insana de cortar a torto e a direito na Saúde, porque é uma área com eterno défice e é preciso cumprir com os requisitos dos credores internacionais. Mas há outras áreas com défices sistemáticos que os governantes não insistem tanto em combater, porque não lhes dá jeito, porque vai chocar com interesses de terceiros, das grandes empresas onde, depois de saírem do governo, têm cargos de administradores ou consultores à espera, para continuarem a ter o tal motorista à porta para levar os rebentos a correr para o hospital particular ao mínimo sinal de alarme. Para os outros há sempre duas possibilidades: ou alinham numa de serem pais inconscientes, têm filhos quando não têm dinheiro para os criar e educar, mas chutam a bola para a frente e ficam à espera que saia o euromilhões; ou são casais conscientes, fazem as contas à vida, não se fiam no tradicional desenrascanço dos portugueses e vão adiando a decisão de ter filhos até chegar uma altura em que percebem que já é tarde demais para trazer uma criança ao mundo.

Enquanto isso, os governantes continuam a incentivar os portugueses para terem filhos, porque Portugal precisa de sangue novo, mas nem sequer têm dignidade para explicar que os stocks dos medicamentos, ou das vacinas, neste caso concreto, não se esgotam por acaso. Esgotam-se porque o governo, em primeira instância, e os hospitais e os centros de saúde como resultado disso, não honram os seus compromissos com a indústria farmacêutica, com os laboratórios, que têm contas enormes à espera de serem pagas pelo Estado e que, em bom português que toda a gente entende, deixaram de vender fiado. E assim vai a Saúde neste belo Portugal.

Daniel Pina

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