Liberdade amordaçada

Celebram-se este sábado os 41 anos sobre a Revolução dos Cravos, momento histórico que terminou com a ditadura e colocou os portugueses no caminho da Democracia, com todas as liberdades daí advindas. E, para não variar, as comemorações voltam a estar rodeadas de polémica, porque uns querem discursar na Assembleia da República e não os deixam, outros são convidados para dizer umas palavras e não estão para aí virados, há antigos governantes que se recusam, pura e simplesmente, a ir às cerimónias oficiais porque não estão interessados em ouvir o que têm para dizer os atuais líderes da nação e, no meio disto tudo, perdemos o fio à meada e já não sabemos o que estamos a festejar.

Com os meus 40 anos, não posso falar com conhecimento de causa do que esta transição de regime trouxe de bom ou mau a Portugal. Lembro-me da minha avó estar sempre a dizer bem do Salazar e que era por causa dele que tinha uma máquina de costura Singer. Outros velhotes recordam que, naquele tempo, não havia tanta fome e miséria, que as pessoas podiam não ser ricas, mas nunca lhes faltava um naco de carne à mesa para jantar. Hoje, infelizmente, há milhares de portugueses que não têm tanta sorte.

Claro que são mais as vozes contra o antigo regime do que os defensores, porque não havia liberdade de expressão, éramos um povo dirigido com mão de ferro por um ditador e com um medo de morte da PIDE, fechado nas suas fronteiras, com poucas oportunidades de evoluirmos enquanto cidadãos e nação. O 25 de Abril mudou isso tudo e estou convicto de que estamos melhor servidos com uma Democracia do que com uma Ditadura.

O problema, como muitos reconhecem, é que fomos do 8 para o 80 num ápice. Num dia tínhamos pouco ou nada e mal podíamos abrir a boca para dizer de nossa opinião, no outro dia, tudo se podia dizer, com tudo se podia sonhar. Volvidos poucos anos, entrámos para a CEE e começaram a jorrar milhões de escudos, depois de euros e foi o desaire total. Os setores de atividade que obrigavam as pessoas a vergar as costas mas que geravam riqueza, foram desaparecendo porque agora queríamos ser um país de serviços, moderno, depois virado para o turismo, e ficámos dependentes da matéria-prima dos nossos parceiros do centro da Europa, até da nossa vizinha Espanha.

Depois, deu-se o boom das instituições bancárias e do crédito fácil e os portugueses, ao fim de décadas sem terem nada a que pudessem chamar «seu», começaram a comprar tudo, casas, carros, apetrechos para o lar, sem fazerem bem as contas porque era tudo pago a cinco, 10 ou mais anos e havia a promessa de que a fartura tinha vindo para ficar. Hoje, vemos bem o resultado dessa maneira de pensar, com famílias super endividadas e sem saberem o que fazer da vida.

E eu ponho-me a pensar para os meus botões: afinal, temos assim tanta liberdade? Quem tem emprego, metade ou mais do ordenado é para pagar impostos ao Estado e prestações aos bancos. Quem está desempregado, poucas perspetivas têm de regressar ao ativo, pelo menos a receber um ordenado que lhe dê para pagar as contas da casa. Liberdade para ir ao cinema com a família é escassa, porque o lazer estraga logo o orçamento mensal. Liberdade para ir beber um café ou uma cerveja com os amigos ainda temos, mas nem pensar em ir jantar fora ou ir a um bar ou discoteca. Se temos algum azar com o carro, o arranjo corta-nos logo a liberdade de comprar uma peça de roupa, de ir passear no fim de semana à praia, de comprar um livro ou um filme. E lá se tem que cancelar alguns meses a Sport TV e a Benfica TV, porque o dinheiro não estica.

Não há liberdade para ter filhos porque não conseguimos pagar as vacinas, o infantário, a escola, os livros, a roupa, já para não falar na comida e nos produtos de higiene. Liberdade para casar também não abunda, porque nem todos têm feitio para viver com os sogros. E nem convém desabafarmos muito alto com os amigos ou escrever uns devaneios na internet porque ainda apanhamos com um processo de alguém que se sentiu ofendido. E, de repente, até a liberdade de continuar a escrever ficou limitada pelo tamanho da página. Enfim…

Daniel Pina

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