O Algarve nunca foi só sol e praia

Não sei se estava predestinado, provavelmente terá sido um feliz acaso, mas foi num daqueles raros fins de semana de chuva em pleno agosto algarvio que o Expresso publicou uma peça sobre o disparar de «experiências» ao dispor dos turistas na região, com destaque para os passeios a pé, de bicicleta ou de barco, mercê do aparecimento de empresas especializadas nesses nichos de mercado. Há que enaltecer, de facto, o empreendedorismo das novas gerações, o não terem medo de investir algumas dezenas ou centenas de milhares de euros em equipamentos mais modernos, com a plena consciência que demorarão vários anos para conseguirem recuperar esse investimento.

É o boom do turismo da natureza, depois de já ter aparecido o turismo de saúde e bem-estar há alguns anos. Ao mesmo tempo, o segmento dos congressos e eventos começa a denotar um menor fulgor porque a região vai perdendo competitividade face a novos concorrentes. O golfe, felizmente, segue de vento em popa, porque o Algarve continua todos os anos a ganhar prémios internacionais e a ler eleito melhor destino de golfe da Europa. Quanto ao sol e praia, será sempre o principal ganha-pão dos empresários algarvios, apesar da sazonalidade que não se consegue inverter, apesar dos portugueses terem cada vez menos dinheiro para gastar nas suas férias, apesar dos turistas estrangeiros chegarem em voos «low-cost» e com o orçamento reduzido ao máximo, aproveitando os pacotes de «tudo incluído» das unidades hoteleiras.

Claro que há exceções, há estrangeiros que gastam muito dinheiro no Algarve, há aqueles que, inclusive, escolhem a região para viver após se reformarem, mas a nova geração já percebeu que não pode abrir um negócio igual a centenas de outros, que já estão no mercado há vários anos, que têm a sua clientela fixa, os contratos feitos com as agências de viagens, os amigos certos nas receções dos hotéis. E, por isso, há que inovar, ou melhor, aproveitar os recursos naturais que o Algarve sempre teve e que foram poupados durante a euforia do betão dos anos 80 e 90, para oferecer algo diferente a quem nos visita, algo que, de facto, só conseguem encontrar neste nosso Algarve.

O problema é que estes «tesouros escondidos» que agora são tão badalados nunca estiverem escondidos, mas sim esquecidos ou ignorados, porque o Algarve só se preocupava em vender o «sol e praia». Os golfinhos sempre andaram pela costa algarvia, as Ilhas da Culatra e da Armona sempre estiveram na Ria Formosa, as serras do Caldeirão e de Monchique sempre tiveram bons trilhos para passeios a pé, de bicicleta ou veículos todo-o-terreno. Grutas e recantos escondidos nas praias algarvias não apareceram de repente, aliás, desconfio é que correm o perigo de desaparecerem, face a decisões de alguns autarcas que não se conseguem compreender. As aves sempre passaram por Sagres na sua migração outonal rumo às terras quentes do norte de África. O ar sempre foi mais puro a norte da EN 125. As tradições, as aldeias catitas, as iguarias da gastronomia, sempre cá estiveram, mas eram conhecidas apenas por aqueles turistas que se fartavam de estar o dia inteiro de barriga para o ar a apanhar sol nas praias e partiam, por sua iniciativa, à procura do outro Algarve.

Agora, esse outro Algarve está na berra, porque os operadores tiveram que alargar o leque dos seus serviços, porque diversas iniciativas das câmaras municipais deixaram de ser «amadoras» e de cariz local e ganharam uma maior projeção, porque a Região de Turismo do Algarve se lembrou de criar uma «Algarve Nature Week». E o algarvio, como bom português que é, domina a arte do «desenrascanço» como nenhum outro povo, pegou no que sempre esteve ao alcance da sua mão, deu-lhe uma roupagem mais vistosa, aplicou-lhes uns termos modernos de marketing, aproveitou as novas tecnologias de informação e, pronto, parece que nasceu um «novo» Algarve de um dia para o outro, para ajudar a compensar a quebra dos produtos que se vendem há décadas e nos quais enfrenta a concorrência feroz de outros destinos da costa do mediterrâneo. Mas, se tudo isto tivesse começado há uns anos, não estaríamos todos melhor, com crise ou sem crise?

Daniel Pina

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