O lucro fácil com o comércio da vida humana

O fim de semana ficou marcado por mais um naufrágio no Mar Mediterrâneo, quando um barco com perto de um milhar de imigrantes virou ao sul da ilha italiana de Lampedusa, tendo sido resgatadas menos de 30 pessoas. Poucos dias antes outro barco teve semelhante destino, junto à costa da Líbia, com um balanço de 400 imigrantes mortos, comprovando que, infelizmente, o tráfico de vidas humanas continua a ser um negócio bastante rentável para seres que, de humanos, pouco têm, preocupados apenas em colocar o máximo de homens, mulheres e crianças dentro de embarcações pequenas e apertadas cuja probabilidade de chegarem a porto seguro é ínfima.

Contudo, a tragédia humana parece estar a tornar-se rapidamente, pela sua dimensão e mediatização, numa luta de egos e capelinhas entre vários países europeus e organizações como a ONU, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia. O primeiro a reagir foi o Primeiro-Ministro italiano, apelando à solidariedade dos parceiros europeus para que a Itália não tenha que lidar sozinha com a situação. Líderes mais radicais pedem um bloqueio naval e, inclusive, retaliações contra a Líbia, de onde se estima que 90 por cento destas «viagens da morte» tenham origem. Do Parlamento Europeu e da ONU também já vieram alertas de que a União Europeia tem que deixar de fazer «vista grossa» ao fenómeno e intervir, ao que se seguiu a contrarresposta de Durão Barroso, afirmando que a Comissão Europeia não possui meios próprios, seja humanos ou materiais, para combater o tráfico de vidas humanas no Mediterrâneo. Curiosamente, não me lembro que tenha dito o mesmo nos 10 anos em que foi Presidente da Comissão Europeia, mas agora já se sente à vontade para dizer tais coisas.

Claro que, enquanto uns líderes europeus reclamam ajuda e ação e outros sacodem a água do seu capote, os traficantes continuam a encher os seus barcos de seres humanos que querem fugir à guerra, fome e doença dos países do Centro e Norte de África e arriscam tudo na miragem de que, no Velho Continente, vão encontrar uma vida mais digna, para si e para os seus. E as notícias de naufrágios vão continuar a repetir-se, porque é um negócio em ebulição e só uma resposta concertada o pode combater.

A verdade é que sempre houve quem tentasse lucrar com o sofrimento e a esperança das pessoas numa vida melhor daquela que têm nos seus países. É famosa a tentativa constante dos mexicanos em atravessarem ilegalmente a fronteira com os Estados Unidos, colocando-se à mercê de gangues especializados nessa operação. Também em direção à Terra do Tio Sam partem inúmeros cargueiros com milhares de asiáticos, normalmente chineses, empacotados em contentores. Aqui há menos naufrágios, mas muitos são aqueles que morrem durante a viagem por falta de alimentos e de condições de higiene. Quanto aos que chegam vivos aos Estados Unidos, ficam à mercê das máfias, sem quaisquer documentos legais, e forçados a trabalhar anos a fio para pagar o custo da viagem.

Em Portugal, no tempo da Guerra Colonial, muitos eram os portugueses em idade de cumprir serviço militar que também recorreram a especialistas para «darem o pulo» e fugir para outros países do centro da Europa. Ainda hoje, volta e meia conhecem-se casos de portugueses que vão para a vizinha Espanha ou para outros destinos europeus, com a promessa de bons empregos e ordenados, para depois trabalharem quase como escravos, sem receberem um tostão e sem terem meios para regressar a casa.

Famosos são igualmente os casos de jovens mulheres que saem da Europa de Leste em busca de carreiras na moda ou no cinema, porque alguém lhes disse que eram lindas de morrer e que tinham sucesso garantido à sua espera, para depois entrarem no circuito da prostituição. E não nos esqueçamos dos jovens africanos que são recrutados supostamente para serem craques de futebol em clubes de topo da Europa, para depois irem trabalhar, mais uma vez quase como escravos, na construção civil ou outras atividades onde é necessária mão-de-obra barata.

Alguns destes fenómenos já tiveram mais força no passado, outros estão mais na «moda» nos tempos que correm, uns são descobertos com maior facilidade, outros permanecem longe dos focos das autoridades e da comunicação social, mas ninguém se engane que o comércio da vida humana está longe de perder o seu fulgor. Assim como os abutres são atraídos pelo cheiro da morte para se banquetearem dos corpos, também estes traficantes modernos sabem aparecer nos locais e nos momentos em que as crises financeiras e económicas empurram cidadãos perfeitamente normais para o limiar da sobrevivência e do desespero, transformando-se em presas fáceis na ilusão de que, se tudo correr bem, se tudo acontecer como lhes foi prometido, têm um final feliz à sua espera. Mas isso raramente é verdade…

Daniel Pina

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