O mundo na palma da mão

Vi na televisão que ia arrancar mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa e a notícia provocou-me um inesperado saudosismo. De repente, era um miúdo a caminhar pelo Parque Eduardo VII pela mão da minha avó, de olhos arregalados face à enorme quantidade de livros de banda desenhada e de aventuras ali à disposição. Raramente comprava alguma coisa, porque o dinheiro era pouco, mas o simples folhear dos livros enchia-me de uma tremenda satisfação.

O gosto manteve-se à medida que fui crescendo, aliás, aumentou e muito. No Liceu Camões, os resumos da matéria que fazia para estudar para os testes eram muito cobiçados e comecei a trocá-los por livros dos super-heróis da Marvel e da DC Comics. Mais tarde apareceram os livros de adulto, as aventuras de fantasia à laia de «Senhor dos Anéis», os policiais, as histórias de espionagem.

Quando me mudei de Lisboa para o Algarve, deixei muita coisa para trás, mas os livros acompanharam-me religiosamente, todos arrumadinhos em caixas e prontos para um lugar merecido na minha humilde biblioteca. Mas o raio da crise, sempre a crise, não me permitiu continuar a gastar cerca de 100 euros por mês em livros. O dinheiro destinado para o meu grande hobby teve que ir para outros gastos do dia-a-dia, porque os livros são caros, apesar de custarem bem menos dinheiro às editoras para os imprimir. Mas a história é a do costume: as editoras, seja de literatura, música, filmes ou jogos, querem ganhar rios de dinheiro num ápice, exageram na margem de lucro e o resultado é que as pessoas deixam de conseguir comprar.

Aguentei o máximo que consegui mas tive que me render às evidências e, infelizmente, troquei os livros de papel, o prazer de virar as páginas, o simples toque na capa dura, a sensação de peso do tomo de 500 ou 600 páginas, pelo frio ficheiro digital para ler no telemóvel ou tablet. É verdade que deixei de andar sempre com uma mala enorme para transportar livros que ainda pesavam alguns quilos. É verdade que agora tenho na palma da mão cerca de 500 títulos e que é bem mais cómodo e rápido ler um livro no telemóvel do que o livro propriamente dito. É verdade que poupei largas centenas de euros com a mudança. Mas não é a mesma coisa, por muito que já me tenha habituado a isso.

Mas este é o mundo em que vivemos e temos que nos adaptar a ele e às transformações que as novas tecnologias causaram no nosso quotidiano. Mesmo o simples ato de ler notícias se alterou por completo. É certo que as pessoas ainda compram o jornal diário para ler o que se passa enquanto bebem o café, e um ou outro semanário de referência para ocupar o fim de semana, mas cada vez mais sabemos o que se passa no mundo através da internet e dos sites desses mesmos jornais. E as revistas foram as primeiras a sofrer na pele os efeitos da crise, porque os custos de impressão são muito maiores e, com a queda abrupta das receitas de publicidade, deixaram de ser rentáveis.

Da mesma forma que aconteceu com os livros, hoje, tornou-se um hábito, inclusive para mim, ler revistas, generalistas ou de alguma área específica, nacionais ou internacionais, no computador e, principalmente, nos telemóveis e tablets. Os grandes colossos depressa perceberam isso e apostaram forte nas edições digitais. Aliás, até mesmo um projeto como o ALGARVE INFORMATIVO, há cinco anos, era impensável, quanto mais possível de ir para as bancas virtuais todas as semanas. Mas a verdade, para felicidade minha, e sem falsas modéstias, é que as pessoas já a leem além-fronteiras, porque há algarvios espalhados pelos quatro cantos do mundo e que gostam de estar informados do que se passa na sua região, de ver entrevistas e reportagens pela positiva, às vezes até de pessoas que conhecem, de amigos de infância, de familiares. O mundo está, definitivamente, na palma das nossas mãos e, ou nos adaptamos à nova realidade, ou ficamos para trás, presos num eterno saudosismo que não nos leva a lado nenhum.

Daniel Pina

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