Obrigado pela coragem de serem diferentes!

Em mais de 15 anos de jornalista já terei feito, em números redondos, e sem grandes exageros, cerca de um milhar de trabalhos. Já entrevistei craques da bola e estrelas de cinema, música e televisão. Supermodelos, pintores, escritores, escultores e bailarinos. Políticos, padres, empresários, doutores e engenheiros, cozinheiros, barmans e também alguns sem abrigo.
Na maior parte das vezes, deu-me prazer fazer essa entrevista ou reportagem, noutras, foi um verdadeiro frete, mas a vida de jornalista é assim, uns trabalhos são mais interessantes do que outros. Fosse qual fosse o caso, abordei sempre os assuntos com seriedade e profissionalismo, mas confesso que não sou daqueles que sente um «orgasmo» sempre que entrevista um Cristiano Ronaldo, Marcelo Rebelo de Sousa ou Rita Pereira. Por isso, posso dizer que, ao longo desta caminhada, houve apenas três trabalhos que me marcaram realmente, dos quais nunca me vou esquecer, que mexeram comigo como ser humano.

O primeiro apanhou-me quase em início de carreira, uma visita à NECI – Núcleo Especializado para o Cidadão Incluso, a convite da presidente de direção na época, Eduarda Santos. Foi um dia rodeado de utentes, uns jovens, outros mais adultos, com trissomia 21 e confesso que não estava preparado para o choque emocional. É certo que já quase todos nos cruzamos com pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência, motora ou cerebral, e criamos ideias pré-concebidas, rótulos, sem termos conhecimento de causa. Nunca fui desse género, mas mexeu comigo ver a forma como estes seres humanos reagem a alguns acontecimentos tão banais e que para nós, os ditos «normais», são isso mesmo, banalidades do dia-a-dia.

Passei a viagem de Lagos para Armação de Pêra a pensar na vida de sofrimento de alguém que simplesmente nasceu com um cromossoma extra no par 21, algo que, bem vistas as coisas, pode acontecer a qualquer um de nós. Sofrimento de quem padece dessa doença e de toda a família. Da experiência nasceu uma peça com o título “Fazer sorrir quem nasceu diferente”, se não me falha a memória, e qual não foi a minha surpresa quando, anos depois, a Eduarda Santos me telefonou a perguntar se podia usar esse título como um género de slogan da instituição. Confesso que já nem me lembrava do título, mas senti um orgulho tremendo porque percebi que aquele texto tinha causado algum impacto.

O segundo momento marcante surgiu também através de um telefonema, desta vez do amigo Eliezer Duarte, empresário da zona da Praia da Rocha e Portimão e que conhecia das reportagens fotográficas que fazia à noite na antiga discoteca Horagá. O Eliezer tinha tido um AVC fruto do excesso de trabalho e andava a fazer tratamento no Centro de Medicina de Reabilitação do Sul, em São Brás de Alportel. Aceitei o desafio de fazer uma reportagem e, apesar da experiência ser maior, voltei a ser dominado pelas emoções ao conversar com alguns utentes. O Eliezer Duarte, como referido, tinha sofrido um AVC. Laurindo Francisco, na época com 47 anos, tinha sido diagnosticado com uma Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença neurodegenerativa progressiva e fatal, caracterizada pela degeneração dos neurónios motores. Remetido a uma cadeira de rodas, já praticamente só conseguia mexer a cabeça. Volvidos estes anos, não sei se o senhor Laurindo ainda é vivo, mas nunca vou esquecer o que lhe custou conversar comigo apenas alguns minutos, mas insistiu em contar a sua história.

Também lá estava o senhor Hélder Baptista, de 51 anos, que padecia de dermatomiosite, uma doença crónica que inflama todos os músculos, causando lesões na pele e dificultando movimentos tão simples com levantar os braços, subir escadas ou mexer a cabeça. A carreira de chefe de bar ficou para trás mas, pior do que isso, já nem conseguia brincar com o filho de sete anos e a filha de 12. E trágica era a história também do Virgílio Ferreira, de 25, tetraplégico. Um acidente de carro em que ia como passageiro alterou-lhe por completo a vida mas, mesmo assim, manteve um sorriso nos lábios durante toda a conversa e exibia uma vontade tremenda de melhorar, de voltar a ter alguma autonomia. E assim lá fiz eu outra viagem de carro com os pensamentos num turbilhão, a pensar como um evento pode deitar por terra todos os sonhos que temos. E a pensar na coragem destes quatro homens, que se recusavam a baixar os braços, apesar de, para alguns deles, não existir cura ou possibilidade de melhoria e ser só uma questão de viver um dia de cada vez.

E o terceiro momento que tenho a certeza que nunca irei esquecer aconteceu esta tarde, ao assistir ao espetáculo solidário da Associação Cultural e de Apoio Social de Olhão e no qual algumas dezenas de utentes, com diferentes tipos e graus de deficiência cerebral e motora, pisaram o palco do Auditório Municipal de Olhão. Não sou propriamente um piegas, mas houve alturas em que fiquei contente por ter uma máquina fotográfica colada ao nariz e pelas luzes do auditório estarem apagadas durante o espetáculo.

Os olhos embargados não eram sinónimo de pena por estar a ver uns «coitadinhos» numa peça de teatro, porque de «coitadinhos» não tinham nada. Era um sentimento quase de orgulho, de regozijo, por vê-los a interagir com o público, a desempenhar os seus papéis, simples, claro, mas tinham as suas falas, os seus momentos de entrada e saída de palco, havia um roteiro para seguir. E as imagens que foram apresentadas comprovaram que chegam a ter dias mais preenchidos que muitos de nós, em visitas no exterior, em iniciativas nos espaços da ACASO, em jogos lúdicos, atividades físicas e uma série de outras tarefas.

E enquanto assistia ao espetáculo, lembrei-me de casos reais em que pessoas portadoras de alguma deficiência ficam trancadas em casa enquanto os pais vão trabalhar, deitadas na cama ou sentadas no sofá a olhar para a televisão por anos a fio, até que os pais, já velhotes, morrem e, de repente, os vizinhos descobrem que tinha estado uma pessoa «presa», no apartamento ao lado, sem que nunca tivessem tido sequer conhecimento da sua existência. Simplesmente porque, antigamente, algumas pessoas tinham vergonha quando um filho não nascia perfeito e preferiam escondê-lo do mundo do que assumir e conviver com a diferença de quem era carne da sua carne. Pessoas que, colocadas ao cuidado de uma instituição competente, como a ACASO e outras tantas, podem levar uma vida digna, dentro das suas limitações e incapacidades.

Tudo é preferível a estar trancado em casa uma vida inteira e os sorrisos daquelas dezenas de utentes, dos 20 aos 70 anos, demonstram isso mesmo. Uma vontade de fazer algo, de estarem ocupadas, de conviver com outras pessoas, de serem acarinhadas, de sentirem o toque humano. Mas é preciso ter uma grande coragem, hoje, e sempre, para ser diferente. E para quem tem que lidar de perto com a diferença.

Daniel Pina

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