Que fizemos nós aos nossos filhos ?

Confesso que a minha filha Madalena, de 19 meses, tem uns ligeiros traços de «terrorista» e cada vez que a irmã mais velha, a Margarida, de cinco anos, não lhe dá um brinquedo, desata logo às mordidelas e aos puxões de cabelos. A minha resposta é dar-lhe uma palmada no rabiosque fortemente almofadado pela fralda, explicar-lhe que não se bate nas pessoas e dizer-lhe para pedir desculpa à irmã. E ela pede. Claro que, no dia seguinte, já anda outra vez às turras com a irmã, segue-se mais uma palmada e sermão e, à força de tanta repetição, ela vai acabar por interiorizar que não se deve bater nas outras pessoas.

Façamos um pequeno exercício em jeito de realidade alternativa. Ao invés de repreender a Madalena, não faço nada ou, pior ainda, dou umas valentes gargalhadas porque acho toda a situação bastante «fofa». Das duas, uma: ou a Margarida se defende e aleija a irmã; ou a Margarida aceita a mini tareia de boca calada e a Madalena pensa que a melhor maneira de obter aquilo que quer é bater em quem tem o objeto desejado e tirar-lho.

Uns anos depois, as discussões começam a tornar-se mais sérias e, muito provavelmente, já não envolvem apenas a irmã mais velha, mas também alguma colega do infantário ou da escola. Novo exercício de realidades alternativas: se tento cortar o mal pela raiz aplicando um valente castigo à Madalena, ou dando-lhe uns açoites mais fortes, desta vez já sem fralda para amortecer o impacto, vou ficar com uma filha revoltada em mãos, não só para comigo, mas para com qualquer pessoa em posição de poder; se continuo a não fazer nada, por não me querer chatear, ou por nem sequer ter conhecimento do que se está a passar, a Madalena torna-se cada vez mais rebelde e adepta de resolver os assuntos por formas menos corretas. A Margarida, entretanto, se calhar até se tornou mais introvertida e acanhada por levar tantos tabefes da irmã mais nova e, com o passar dos anos, esse traço da personalidade vai transformá-la num alvo fácil na escola e por essa vida fora.

Os anos continuam a passar, eu e a minha mulher já não temos mão na Madalena, mal a vemos quando chegamos do trabalho, porque come à pressa e enfia-se no quarto, a falar com sei lá quem na internet, a ver sei lá o quê na televisão, a jogar sei lá o quê no computador. Na escola parece que também há problemas, discute com os professores porque passa as aulas a mandar mensagens de telemóvel, anda à bulha com outras alunas, tira-lhes coisas. E nem sei se arranjou um namorado rebelde como ela e que a vai levar ainda por piores caminhos, ou se arranjou um namorado manso que lhe faz todas as vontades, caso contrário, leva também uma tareia, em privado ou em frente à escola toda. O mais certo é até alguém filmar a cena toda com o telemóvel, porque acha piada a uma miúda bater num moço, mete o vídeo na internet e, depois, é a barraca total.

Nós juramos a pés juntos que não sabíamos de nada do que se passava, que isso são coisas normais entre namorados. Os pais do miúdo admitem que o filho até lhes contou o que aconteceu, mas não deram importância, são arrufos de adolescentes. Na escola ninguém quer assumir responsabilidades porque não aconteceu dentro do recinto e a culpa é dos pais que não souberam educar os filhos. E no meio da conversa há alguém que diz, em jeito de brincadeira, que em Portugal nem nos podemos queixar muito destes conflitos entre adolescentes porque, até agora, ainda nenhum miúdo levou uma pistola ou caçadeira para a escola e desatou a matar os colegas, como sucede nos Estados Unidos da América e já noutros países da Europa.

Mas, de repente, soubemos que um miúdo de 17 anos espancou até à morte, com uma barra de ferro, outro miúdo de 14 anos, supostamente porque tinha inveja dos ténis e da roupa que o mais novo usava. Então isso não acontecia só lá fora? Que raio fizemos nós aos nossos filhos? Fizemos nós, sim, porque não podemos dizer que a culpa é dos professores, dos colegas ou do sistema. É difícil e dá mais trabalho, mas não nos podemos divorciar da educação e desenvolvimento dos nossos filhos. E agora resta saber em que realidade alternativa andamos a viver e se ainda há tempo para carregar no botão «reiniciar» e tentarmos evitar os erros cometidos no passado.

Daniel Pina

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