Um xanax na carteira, duas aspirinas no bolso

No início desta semana, depois de levar a filhota ao infantário, dei um pulo ao Pingo Doce para umas compras rápidas e deparei-me com um daqueles episódios que, infelizmente, já se tornaram habituais por esta altura do ano. Duas caixas abertas, ambas com grandes filas, alguns algarvios a fazer comprar, pelos vistos, para os seus restaurantes, de bico calado, uma ou outra «tia» de Lisboa, de permanente ainda fresca, cheia de creme para esconder as rugas, saco de praia ao ombro e a barafustar que aquilo não se admitia, que deviam estar mais caixas abertas, que na terra dela nada disso acontece.

De repente acendeu-se uma luzinha na minha cabeça: ah, pois, começou ontem o Verão, nem tinha dado por isso. Ao mesmo tempo, e como alfacinha de nascença que sou, lembrei-me que, na encantada metrópole dos nossos sonhos que é Lisboa, há uma caixa aberta nos supermercados para cada cliente, há uma caixa de multibanco para cada cidadão, nunca há filas nos correios, nem nos restaurantes, nem nos estabelecimentos de fast-food. Depois, acordei do sonho, ou deixei de ser hipócrita, e lembrei-me que tudo isso acontece também em Lisboa, com a diferença de que, lá, essas «tias» de rugas disfarçadas estão de bico calado.

Quando foi a minha vez de ser atendido, virei-me para a funcionária e disse, meio a brincar, meio a sério, “começou a temporada do xanax”. A rapariga olhou para mim, percebeu que era um cliente regular, da terra, o tal que compra muitos pacotes de fraldas, toalhetes e caixas de café, e deixou escapar um sorriso, como que a dizer “nem imaginas”. Só que não preciso imaginar, é uma realidade com que contato há mais de 15 anos, de tal modo que, muitas vezes, dou por mim a chamar uns valentes nomes a esses lisboetas, esquecendo que eu próprio sou dessa fornada.

É verdade que nem todos esses senhores e senhoras que fazem questão de vir azucrinar a cabeça dos algarvios durante o Verão são de Lisboa. Diz-me a experiência, porém, que os alentejanos são bem mais tranquilos e os nortenhos muito mais simpáticos e bem-dispostos nestas situações, portanto, o rótulo de «sacana do lisboeta» não deve estar muito desfasado da realidade. E como lisboeta que fui durante 23 anos, estava habituado a andar sempre a correr de um lado para o outro, aos encontrões nas ruas, apertado nos autocarros e no metro, a comer de pé nos fast-foods ou a ter que esperar pela minha vez de ser atendido nos restaurantes e nos correios como qualquer outra pessoa. Por isso, quando vim viver para o Algarve, não estranhei a maior confusão que se verifica um pouco por toda a região nos meses de junho, julho e agosto. Talvez por saber que, depois da debandada dos turistas, em finais de agosto, ficamos com este maravilhoso Algarve todo para nós e tudo regressa à normalidade.

Não me causou espanto, por isso, que, passados alguns anos, já me começasse a considerar um «algarvio», importado, é verdade, mas «algarvio». E, como algarvio que me tornei, não consigo perceber que o raio se passa na viagem de Lisboa para Sul, em que milhares de pessoas partem como cidadãos perfeitamente normais, uns com carteira recheada, outros sem um tostão para gastar, e chegam transformados em reis e rainhas, príncipes e princesas, cada um com o nariz mais empinado que o vizinho do lado, como se toda uma região tivesse que parar para atender os seus caprichos. Felizmente, ainda não cheguei à fase de ter que andar com um xanax na carteira e duas aspirinas no bolso, basta-me um «sacana do lisboeta» para me acalmar. Mas quem está a atender tais majestades não pode propriamente dizer estas coisas, portanto, não têm outro remédio senão o tal xanax e aspirina, para gáudio dos laboratórios farmacêuticos.

Daniel Pina

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