Há 600 anos éramos os maiores!

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Comemorou-se esta semana os 600 anos do que se pode considerar o início dos Descobrimentos, quanto o Portugal de D. João I decidiu conquistar, a 21 de agosto de 1415, a cidade portuária de Ceuta, no Magrebe. Foi o pontapé de saída para um século de expansão através dos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico em que praticamente dominamos o mundo, em termos económicos, políticos e militares. Dobramos o Cabo da Boa Esperança, descobrimos o caminho marítimo para a Índia, chegamos antes que todos os outros ao Brasil. Ombreávamos lado a lado com os espanhóis e até dividimos o planeta, que na altura ainda não era redondo, mas plano, com nuestros hermanos no Tratado de Tordesilhas. E tudo a partir do Algarve, de Sagres. Depois lá vieram os ingleses, os franceses, os holandeses e alemães, com palmadinhas nas costas ou palavras traiçoeiras segredadas ao ouvido, e lá fomos caindo, caindo e caindo.

600 anos depois somos, infelizmente, uns «mija na escada», não em termos individuais, porque continuamos a ter excelentes valores nas mais diversas áreas, mas como uma nação, subordinados aos dizeres da União Europeia, do Eurogrupo, da chanceler alemã. Trocámos a nossa moeda pela dos outros e agora dependemos do dinheiro que esses outros nos vão dando, seja de forma direta através do Banco Central Europeu, ou de forma indireta através de leilões de dívida pública e empréstimos obrigacionistas.

Somos obrigados a receber refugiados de outros países quando nem sequer temos condições para garantir uma vida digna aos que cá nasceram. Não podemos plantar o que nos apetece nos nossos solos porque convém à União Europeia que continuemos a comprar produtos agrícolas aos nossos parceiros europeus. Da mesma forma que não podemos pescar o que nos apetece nos nossos mares para continuarmos a comprar peixe aos nossos amigos europeus. Com um bocadinho de boa vontade, desconfio que até éramos capazes de ser autosuficientes na maior parte das nossas necessidades alimentares, mas depois ficavam os nossos vizinhos europeus desagradados, por isso, é melhor deitar os produtos para o lixo ou para as ribeiras e deixar os barcos em terra a maior parte do ano, para não arranjar chatices com os nossos camaradas europeus.

Neste cenário de dependência de quase tudo em relação à União Europeia, não admira que estejam tanto na moda as festas, festivais e dias medievais que proliferam um pouco por todo o país, uns melhor organizados do que outros, embora me pareça a mim que os figurantes são sempre os mesmos. É o típico saudosismo lusitano levado ao extremo, ao tempo em que éramos, de facto, os maiores. E, bem vistas as coisas, a única coisa que mudou verdadeiramente foi para que lado pende a balança do poder.

Continua a haver a nobreza, os barões, condes, duques e marqueses, agora presidentes de juntas de freguesia, câmaras municipais, deputados e ministros. Continua a haver o clero, embora sem tanto poder como antigamente. Continua a haver a burguesia endinheirada a quem os nobres recorriam frequentemente para bancar as suas campanhas militares, agora os grandes grupos económicos e os tais credores internacionais, que continuam a enriquecer à custa dos outros. Outros que são, claro está, os vassalos, os camponeses, o simples povo, traduzindo, a maioria dos portugueses. Reis também continuam a haver neste ou naquele país, agora com pouco ou nenhum poder, assim como alguns Presidentes da República, porque quem manda realmente é a União Europeia, as Merkels, Putins e Obamas dos tempos modernos, os G8 ou G7 (dependendo de como estiverem as relações com a Rússia) e os Eurogrupos e afins.

Na hora da verdade, somos como os colossos do futebol que antigamente ganhavam a Taça dos Campeões Europeus ou a Taça UEFA e depois acabaram por ser despromovidos para os distritais, porque não souberam aproveitar o dinheiro que tinham, porque cometeram graves erros de gestão, porque confiaram nas boas intenções dos próprios vizinhos, que depressa jogaram mão ao que eles tinham de interesse e deixaram-nos apenas com as dívidas para pagar. Mas, como dizem os tripeiros, há 600 anos éramos os maiores, carago! Enfim… como se isso nos servisse para alguma coisa…

Daniel Pina

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