O estranho caso do adepto de futebol

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Sou do Sporting! Não sou daqueles adeptos ferrenhos que sobe ao céu com as vitórias e desespera com as derrotas. Nem daqueles que vai todos os fins-de-semana ao estádio ver os jogos, porque não tenho dinheiro nem disponibilidade para isso. Também não sou daqueles que diz que é sportinguista desde que nasceu.

Sou do Sporting porque o hóspede da minha avó era sócio do clube e levava-me com ele para ver os jogos no antigo Estádio José Alvalade. Por isso, se ele fosse do Benfica ou do Belenenses, desconfio que hoje não seria sportinguista. Porque, quando somos miúdos, escolhemos o clube por influência dos outros, dos pais, dos avós, dos irmãos mais velhos, tudo menos por nossa opção própria, porque pouco ou nada percebemos de futebol nessa tenra idade.

Na altura também não percebia, e confesso que hoje, quarentão de barba rija e cabelos brancos, continuo sem perceber, esta rivalidade desmedida que existe entre os adeptos dos clubes, nomeadamente dos três grandes. Rivalidade entre os clubes é natural que aconteça, são adversários no mesmo campeonato, ganham em função das suas vitórias, mas também em função dos empates e das derrotas dos opositores diretos. Agora, faz-me uma tremenda confusão adeptos deste ou daquele clube vibraram com os maus resultados desportivos dos rivais nas competições europeias, como sucedeu esta semana com o afastamento do Sporting da fase de grupos da Liga dos Campeões, ainda por cima por terem sido prejudicados, de forma descarada, pelas arbitragens. E teria esta conversa se o Benfica ou o Porto estivessem na mesma situação, porque são todos clubes portugueses a representar a nossa nação além-fronteiras.

Infelizmente, a maioria dos portugueses não pensa da mesma forma e esta semana tem sido rica em piadas, risadas e gargalhadas à conta da derrota do Sporting em Moscovo, um fenómeno que não acontece na generalidade das outras modalidades. Veja-se o Campeonato do Mundo de Atletismo que está a decorrer em Pequem e a forma como os portugueses demonstram o seu orgulho pela medalha de bronze de Nélson Évora no triplo salto, até pelo quarto lugar de Ana Cabecinha nos 20 quilómetros marcha e ninguém se preocupa se são do Benfica, Porto, Sporting ou de outro clube. Aliás, sei que a Ana Cabecinha é do Clube Oriental de Pechão porque já a entrevistei, e ao seu treinador Paulo Murta, algumas vezes, mas não faço a mínima ideia de que emblema defende Nélson Évora, e nem tenho a mínima curiosidade em o saber, porque o feito dele deve ser motivo de regozijo de todos os portugueses e não apenas dos adeptos do clube que representa.

Mas o adepto de futebol é uma espécie à parte, que quase tem tanto prazer com os dissabores dos rivais que com os triunfos das suas equipas nas competições europeias. E nas provas internas esta rivalidade é ainda pior, como verificámos no fim de semana passado. No sábado, Sporting e Porto empataram em jogos que teoricamente deveriam ter ganho e de imediato foi o delírio dos benfiquistas, quase como se tivessem já garantido o tricampeonato. Depois, saiu-lhes o tiro pela culatra e foram derrotados de forma ainda mais escandalosa no domingo e, como se adivinha, foi a vez dos sportinguistas e portistas se divertirem à grande. E como os adeptos se comportam de maneira menos própria, os dirigentes seguem-lhes o exemplo, porque é preciso estar próximo dos seus associados, e viu-se a troca de insultos entre Sporting e Benfica que em nada abona o desporto-rei.

Como referi anteriormente, penso que esta rivalidade no campeonato nacional é aceitável, desde que não se ultrapassem determinados limites, porque a malta precisa entreter-se com alguma coisa para não pensar nas contas e impostos que tem para pagar e é típico do português sentir-se bem com os problemas dos vizinhos, tudo para que os seus próprios problemas não pareçam tão graves. Mas, na Liga dos Campeões e na Liga Europa, somos todos portugueses e, bem vistas as coisas, os resultados dos nossos clubes, sejam eles quais forem, acabam por influenciar o número de equipas que nos anos seguintes têm acesso direto a essas mesmas provas. Posto isto, vamos lá todos vestir a camisola das quinas também nas provas de clubes e não apenas quando a seleção nacional joga. Isto se não for muita ingenuidade minha pensar que podemos todos ficar contentes com os brilharetes dos portugueses além-fronteiras.

Daniel Pina

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