Poupar pouco não é o mesmo que gastar muito…

NOTAS-EURO
Primeiro que tudo, não sou economista. Estudei micro e macroeconomia durante vários anos no ensino secundário e na universidade, mas não sou economista. Aliás, cedo percebi que, embora tivesse jeito para os números, faltava-me a paciência para lidar com eles durante todas as horas de todos os dias para o resto da vida, pelo que decidi seguir a via de marketing e comunicação do curso de Organização e Gestão de Empresas tirado no ISCTE, em Lisboa. E da vertente da comunicação até descobrir a paixão pelo jornalismo foi um pequeno passo e tem sido essa a minha atividade profissional há mais de 15 anos.

Serve esta pequena introdução para explicar que, quando li uma notícia num prestigiado jornal nacional a dizer que as famílias poupam pouco e que gastam quase tudo em consumo, fiquei logo com dois pensamentos na retina: em primeiro lugar, não é preciso ser um especialista na matéria para saber que poupar pouco não significa necessariamente que se gasta muito ou que se está a consumir mais; em segundo lugar, é fácil verificar como um título menos conseguido pode transmitir logo uma ideia errada às pessoas antes mesmo delas lerem o artigo.

Quem teve tempo para ler mais que as «gordas» do título, ficou a saber que, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas referentes ao primeiro semestre deste ano, as famílias portuguesas estão a cortar na poupança, que atingiu um dos níveis mais baixos de sempre, ao mesmo tempo que canalizam a esmagadora maioria do rendimento disponível para consumo (95,8 por cento). Dizem que os valores são semelhantes aos de 2008, ano em que rebentou a famigerada crise financeira internacional. Até aqui tudo bem, é a simples constatação de dados estatísticos e não vou colocar em causa a sua veracidade. Já não concordo quando os supostos responsáveis pelo estudo dizem que as famílias portuguesas voltaram ao seu modo de vida tradicional, gastando quase todo o rendimento em consumo e dedicando cada vez menos valores à poupança.

Ora vamos lá a pôr alguns pontos nos «i’s». Se calhar, antes de afirmarem que os portugueses voltaram a gastar o seu dinheiro de forma descontrolada e que não colocam nada de lado para dias piores, era melhor tentar perceber se a queda da poupança não se deve, essencialmente, à queda dos rendimentos dos próprios agregados familiares e ao aumento da esmagadora maioria das despesas fixas mensais. E não estou a falar em despesas ligadas ao típico consumismo, a luxos e bens supérfluos, mas sim de bens e serviços de primeira necessidade. Sejamos honestos e esqueçamos o discurso politicamente correto que tanto agrada aos senhores importantes da União Europeia. Os salários caíram na generalidade das profissões, fosse por cortes diretos nos vencimentos, porque os aumentos não acompanharam a taxa de inflação ou por causa do aumento da carga fiscal sobre as famílias através do IRS e da tal sobretaxa que era para ser temporária e parece que se tornou permanente. E depois há as tais prestações sociais a que muitos portugueses tinham merecido direito, por exemplo os abonos de família, e que de repente desapareceram porque os governantes tinham que cortar na despesa pública e mexeram nos escalões de rendimentos.

Portanto, se nos esquecermos dos políticos, nomeadamente dos governantes e dos deputados da Assembleia da República, e dos administradores das grandes empresas, públicas ou privadas, a quase totalidade dos portugueses passou a levar menos dinheiro para casa ao fim do mês de trabalho. Ou, pior do que isso, passaram a não levar nada porque perderam os empregos ou viram as suas empresas ir à falência, umas vezes por sua causa, outras por causa de decisões tomadas por terceiros, normalmente pelos tais senhores de fato e gravata que não contam para estas estatísticas tenebrosas.

Percebido, senhores das estatísticas? A maior parte de nós, simples cidadãos, começou pura e simplesmente a ganhar menos. Agora, a outra parte desagradável, aquela que sentimos na pele todos os dias. Os preços aumentaram em tudo e mais alguma coisa, desde as contas da eletricidade, água, gás e telefone, às compras do supermercado, às idas aos restaurantes, às consultas dos hospitais, aos medicamentos nas farmácias, aos bilhetes dos transportes públicos, às mensalidades dos filhos dos infantários, seja por causa da subida da taxa do IVA, seja porque o aumento do custo das matérias-primas implicou a subida dos preços dos bens, seja porque o Estado privatizou vários serviços e os novos donos das empresas quiseram ganhar mais dinheiro e as tarifas dispararam.

E por falar nos infantários, não nos esqueçamos que os cortes desmedidos do Governo na Educação gerou menos vagas no ensino público e muitos pais foram obrigados a colocar os filhos em infantários privados, que não são nada baratos. E também não nos esqueçamos das vacinas que deixaram de ser comparticipadas, e por aí adiante. Mas depois os nossos governantes mostram-se preocupados com a queda das taxas de natalidade e dizem-nos para ter mais filhos. E depois com que dinheiro é que os criamos e educamos?

Percebido, outra vez, senhores das estatísticas? A maior parte de nós, simples cidadãos, começou, pura e simplesmente, a pagar mais por aquilo que já comprávamos antigamente, pelos bens e serviços de primeira necessidade. Não nos metemos, feitos loucos, a gastar rios de dinheiro em automóveis topo de gama, em vivendas luxuosas, em geringonças de última geração. Se calhar até gostávamos de fazer isso, mas o pouco dinheiro que ganhamos mal chega para pagar aquilo que é imprescindível. Portanto, por favor, lá porque a poupança caiu para mínimos históricos, segundo os vossos registos estatísticos, não digam logo que o tuga voltou a ser malandro e que quer viver acima das suas possibilidades sem pensar no futuro nem medir as consequências dos seus atos. Se calhar, a justificação é bem mais fácil: se ganhamos menos dinheiro e pagamos mais euros por aquilo que precisamos para viver, então é natural que se consiga poupar menos. Percebido, senhores das estatísticas? E se cometi para aqui alguma gaffe nesta análise rabugenta, desculpem lá qualquer coisinha, é que não sou economista profissional.
Daniel Pina

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