O copo continua meio vazio…

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Por estes dias centenas de turistas estiveram em Sagres e um pouco por todo o concelho de Vila do Bispo, não daqueles de toalha de praia ao ombro ou de prancha de surf debaixo do braço, mas homens e mulheres de todas as idades e de múltiplas nacionalidades praticantes de birdwatching. Estrangeiros com bastantes euros para gastar que ajudaram a animar a economia local durante a realização de mais um Festival de Observação de Aves e que já não se limita apenas a observar aves nas suas rotas migratórias em direção ao norte de África com a chegada do Outono, oferecendo igualmente mergulho, observação de golfinhos, passeio a cavalo na Costa Vicentina, passeio em Stand Up Paddle, yoga na praia e muitos mais atividades.

Um evento de tremenda qualidade e de renome internacional que lhe garante exposição mediática por esse mundo fora. Contudo, fiel ao princípio, errado na minha maneira de ver, de que os portugueses preferem más notícias do que ler sobre coisas positivas, alguma comunicação social nacional opta por continuar a dar tempo de antena a um caso em que o Município de Vila do Bispo terá feito obras numa área protegida sem autorizações ou estudos de impacto ambiental. Como normalmente acontece nestas situações, aparece um alegado especialista irremediavelmente entristecido porque terá sido arrancada vegetação única no mundo e sido acelerado o processo de erosão no perímetro junto ao «Geomonumento da praia do Telheiro», com centenas de milhões de anos, e o qual atrai estudiosos de todo o mundo.

Não vou comentar a veracidade ou pertinência de tais acusações, não tenho acompanhado de perto o caso nem sou especialista em direito ou meio-ambiente. Mas, como jornalista que sou, posso confirmar que o Festival de Observação de Aves, Sagres, Vila do Bispo são sobejamente conhecidos nos quatro cantos do mundo e, confesso, nunca tinha ouvido falar desse tal Geomonumento da Praia do Telheiro nem dos tais estudiosos que atrai de todo o mundo. Nem eu e, muito provavelmente, ninguém dos jornais que tanto destaque dão a essa notícia. Mas, como se continua a pensar que o mau, o crime, a violência, o sexo e a corrupção vendem mais que o bom, o sucesso, a solidariedade, o empreendedorismo, o que é, na sua essência, positivo, mantém-se o foco das notícias do costume.

O mesmo fenómeno verificou-se recentemente com a Universidade do Algarve, que teve alguns minutos de fama por ter registado, pelo segundo ano consecutivo, mais alunos inscritos e a um crescimento superior à média nacional, e depois essa boa notícia, e todos os excelentes trabalhos que desenvolve no âmbito da investigação em múltiplas áreas de conhecimento, foram completamente abafados pelo caso da jovem caloira que foi para o hospital em coma alcoólico, na sequência de uma praxe na Praia de Faro. Não estou com isto a retirar a gravidade da situação ocorrida, que deve ser investigada de modo a que os responsáveis sejam devidamente punidos, mas daí a passar-se uma borracha pelo que de bom esta instituição de ensino tem feito pelo Algarve e pelas novas gerações de portugueses e olhar-se apenas para mais uma praxe que ultrapassou os limites do bom sucesso, e que acontecem praticamente em todas as universidades de Portugal, não me parece correto e justo.

Se recuarmos uns anos, diria que, de facto, era esse o público que havia em Portugal, que as pessoas queriam era saber o que de mau acontece na casa do vizinho e do outro lado da rua, e a comunicação social, se queria ter boas audiências ou vendas, tinha que lhes oferecer o que elas pretendiam. Infelizmente, alguns jornais e canais de televisão especializaram-se nesse tipo de produto – e nem vale a pena falar em nomes, todos nós sabemos quais são – e continuam a concentrar atenções nesses conteúdos informativos, ignorando o que acontece de bom, conduzindo as entrevistas para o lado que lhes mais convém, editando as peças de maneira a ser publicado ou transmitido o lado da história que mais lhes interessa, por vezes até deturpando por completo o que aconteceu, para mostrar o seu lado da verdade aos portugueses. Portugueses esses que, felizmente, já começam a olhar mais para o lado bom da vida, para os casos de sucesso que lhes sirvam de inspiração, que os ajudem a ultrapassar os maus momentos, as dificuldades do dia-a-dia. Mas enquanto a maioria ainda se pautar pelo negativismo, vamos continuar a ler e ver notícias cuja verdade apresentada nem sempre corresponde à verdade real e a pensar que o copo está meio vazio, em vez de meio cheio…

Daniel Pina

 

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