A febre do Placard e os emigrantes do Poker

placardEnquanto anda metade do país a dar nas orelhas do presidente da república e outra metade a dar-lhe uma palmadinhas nas costas, eu ando para aqui entretido a analisar estatísticas de jogo para preencher mais um ticket do Placard com as partidas do fim-de-semana do campeonato nacional de futebol. Bem vistas as coisas, é um género de Totobola do século XXI, não apenas cingido ao futebol, mais interativo, mais atrativo, diriam uns, mais viciante. Mas já se sabe que os portugueses são fervorosos adeptos destas jogatanas, não fossemos dos que mais dinheiro gastam no Euromilhões a nível europeu, e a nova moda é, de facto, o Placard.

De notar que este placard é apenas a marca que a Santa Casa da Misericórdia arranjou para associar às apostas desportivas online que, até há bem poucos meses, eram vistas como um ofício do demónio, um vício desgraçado, um destruidor de famílias, um estratagema duvidoso para tirar muito dinheiro a uns e dar algum dinheiro a outros. Uma cruz que uma série de sítios de internet dedicados ao jogo online carrega nas costas há anos a fio e que constituem, na hora da verdade, a atividade profissional de milhares de pessoas espalhadas por esse mundo fora, muitos deles portugueses, que tiram o seu sustento das apostas que fazem, seja no futebol, ténis, basquetebol, corridas de cavalo, futebol norte-americano, opções não faltam. Aliás, há até quem faça da sua atividade profissional colocar apostas para terceiros, um tipo de corretores de bolsa que, em vez de comprarem e venderem ações e obrigações de empresas em faustosos escritórios, fazem apostas em nome dos seus clientes, depois de analisarem criteriosamente as estatísticas e probabilidades.

Em Portugal, quem não gostou muito desta realidade foram os poderes instalados, a começar pela Santa Casa da Misericórdia, que estava a perder receitas no Totobola, Totoloto e Joker – só o Euromilhões continuava em crescendo – e os governantes, que ainda não tinham encontrado uma forma legal de tirarem a sua percentagem deste dinheiro todo que andava a circular em torno das apostas desportivas online. E eles tudo fizeram para afastar o jogo online de Portugal, desde ajudar a perpetuar o tal rótulo nefasto, quase «criminoso» das apostas online, até proibir a publicidade aos sítios de internet a elas dedicadas, até mesmo proibir que fossem patrocinadores de equipas de futebol.

Entretanto, há coisa de seis meses, tudo mudou, foi permitida a atividade do jogo online em território português, mais do que isso, abriu-se as portas aos jogadores estrangeiros para poderem jogar em Portugal. Tudo através do Decreto-Lei n.º 66/2015, que regulamenta o regime jurídico dos jogos e apostas desportivas online, assente num modelo liberal e que permite a distribuição de licenças sem qualquer limite e sem concessão de exclusividade. O Estado recolhe as suas desejadas receitas através do licenciamento de operadores e num imposto especial criado sobre o jogo online, que repete o modelo dos jogos de fortuna ou azar de base territorial nos casinos.

Curiosamente, ou talvez não, o único operador que surgiu até à data foi, precisamente, a Santa Casa da Misericórdia, com o tal Placard, e agora tudo é lindo e ouro sobre azul, apostar online é fixe, é cool, é legal, está na moda, é divertido. Faz-se publicidade a torto e a direito ao Placard na televisão, na imprensa, em outdoors. Qualquer dia temos o Placard nas camisolas das equipas de futebol. Mas, na hora da verdade, está-se a apostar exatamente da mesma maneira do que no início do ano, nos mesmos jogos, nas mesmas modalidades, com as mesmas técnicas, nos mesmos moldes. A diferença é que, em vez de o fazermos em vários sites de internet internacionais, agora é tudo através da Santa Casa da Misericórdia, que até criou uma aplicação catita para os dispositivos móveis. E como a Santa Casa voltou a ter o monopólio do jogo em Portugal e o Estado retira a sua quota-parte, já está tudo porreiro.

Quem se «lixou» no meio de tudo isto foram os jogadores de poker, os profissionais e os de lazer, porque a nova lei do jogo online abarca as apostas desportivas online e também o poker. Quer-me parecer que a Santa Casa da Misericórdia andava igualmente de olho no poker mas percebeu que o sistema é bastante mais complexo do que as apostas. É que uma coisa é cada indivíduo fazer as suas apostas, pagar o que tem que pagar e receber o que tem a receber e está o assunto resolvido. No poker, nomeadamente na vertente dos torneios com custo de entrada fixo, chegam a estar milhares de jogadores a interagir uns com os outros em simultâneo, divididos por várias mesas, e o dinheiro que toca a cada um é influenciado pelo número de jogadores e pelo valor pré-definido do prémio. Ou seja, não é fácil para um operador de repente tornar-se numa Pokerstars, por exemplo.

O que é estranho é que a lei foi aprovada, era suposto qualquer operador poder concorrer e adquirir as suas licenças para atuar em território nacional e, volvidos estes meses todos, ainda está tudo parado. E não me parece que seja por falta de interesse ou de liquidez dessas salas de poker para pagar algumas dezenas de milhares de euros pelas licenças, quando faturam milhões por ano. Resultado: foram afetados uma série de portugueses, na sua maioria jovens na casa dos 20, 30 anos, licenciados, que faziam da sua atividade profissional o poker online. Uns chegavam a ganhar centenas de milhares de euros por ano, euros que depois eram gastos a comprar casa, automóvel e tudo o que um jovem deseja para o seu quotidiano.

Claro que estes jovens não decidiram mudar de vida de um dia para o outro, simplesmente seguiram o conselho, que era «mito urbano» ou não, de Pedro Passos Coelho, e emigraram. E assim temos um Miguel Silva a viver em Malta, um Tomás Paiva na Hungria, um Rui Ferreira, um Nuno Vieira, um Nuno Capucho e um Pedro Marques na República Checa, um Rui Sousa na Irlanda e outros espalhados pelo Reino Unido e um pouco por toda a Europa onde ainda se consegue jogar poker online. Países onde depois gastam o dinheiro que ganham, ao invés de o fazerem em Portugal, mas já se sabe que os governantes só se preocupam em garantir os seus impostos, independentemente do prejuízo que causam aos cidadãos, em particular, e à economia nacional, em geral.

Daniel Pina

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