As suspeitas do costume ou o «caso» do furo…

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A Serra do Caldeirão esteve ao rubro no fim-de-semana de 7 e 8 de novembro com a disputa do Rallye Casinos do Algarve, uma prova já de si espetacular mas que tinha aliciantes extra, pois era a derradeira etapa do Campeonato Nacional de Ralis e a penúltima do Campeonato FPAK Ralis do Sul. E assim lá fui eu no sábado para o Pero de Amigos, no concelho de São Brás de Alportel, a subir, subir, subir, parecia que nunca mais chegava à zona de espetáculo destinada para o público ver os bólides passar. Dizer que aquilo era um caminho de cabras seria ser lisonjeiro, estrada acidentada e irregular como nunca tinha visto na vida, com a agravante do piso estar um pouco enlameado e de termos um precipício a piscar-nos o olho do lado direito.

Portanto, posso dizer, sem qualquer exagero, que fiz o meu próprio rali até chegar ao Pero dos Amigos. Também não tenho vergonha de confessar que apanhei alguns valentes cagaços durante o percurso, mas quem vai para a serra com um carro urbano não se pode queixar e, nos momentos em que não estava a suar que nem bicas, ainda tive tempo para apreciar as fantásticas paisagens. Quanto ao rali em si, excelente, mesmo com aquela poeira toda e uma ou outra pedra que sai disparada da estrada a testar os nossos reflexos. Depois lá tive que repetir a aventura do tal «caminho de cabras», desta vez ainda pior, de noite e sempre a descer.

No domingo à tarde, cerimónia do pódio em frente à Câmara Municipal de Loulé, tudo perfeitamente normal para mim, que não acompanho avidamente a modalidade, mas comecei a ouvir uns zunzuns, falava-se em ânimos exaltados no final do rali. Umas horas depois, a pesquisar alguma imprensa da especialidade, leio sobre clima de alta tensão e um alegado «caso» a envolver um furo de pneu. Ora, Ricardo Moura ganhou justamente o Rallye Casinos do Algarve e venceu quatro dos oito troços da prova, contudo, para ser campeão nacional sem depender dos resultados de ninguém, tinha que ganhar seis dos oito troços. O perigo vinha de José Pedro Fontes, que seguia em terceiro posto a meio do segundo dia, o que permitia que Ricardo Moura fosse campeão nacional. Contudo, Pedro Meireles, Campeão Nacional de Ralis em 2014, teve um furo na manhã de domingo quando ia precisamente em segundo lugar, perdeu tempo e foi ultrapassado na classificação por José Pedro Fontes, que assim se sagrou Campeão Nacional de Ralis em 2015.

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Resumindo, o furo de Pedro Meireles, que pode acontecer a qualquer piloto, e aconteceu, de facto, a outros durante o Rallye Casinos do Algarve, foi logo apelidado por alguns de «caso» e o português, como é adepto das teorias da conspiração, começa logo a achar a situação estranha, a dizer que algo não bate certo, que um piloto ia ser campeão e, por causa dum imprevisto, foi outro que ganhou o título nacional. Eu, apesar de gostar muito de filmes de espiões, de enredos de conspirações governamentais, de histórias com final inesperado, não acredito muito que um piloto tenha um furo num pneu de propósito, colocando assim em risco a sua integridade física, e do seu navegador, supostamente para fazer o jeitinho a outro piloto.

Pensava eu que estes «casos» eram exclusivos do futebol ou que os portugueses só inventavam «teorias» quando estava o desporto-rei metido ao barulho. Como acontece agora com o Sporting, que está a ser levado «ao colinho» rumo ao título, porque é a equipa que tem mais penaltis assinalados a seu favor e porque os árbitros fecham os olhos às faltas cometidas pelos jogadores de verde e branco. Então o Sporting tem culpa se os adversários cometem faltas descaradas dentro da grande área? E os árbitros só se podem enganar quando é contra o Sporting? Quando o Sporting foi roubado o ano passado, de forma descarada, pelos árbitros nas competições europeias, ninguém fez este alarido. E quando era a equipa que mais penaltis tinha mal assinalados contra si, ninguém estranhava. E quando foi o Benfica e o Porto a serem levados «ao colinho», não havia tanta discussão.

Mas o português é assim. Quando algo não acontece segundo a ordem perfeita das coisas, ou pela ordem supostamente natural das coisas, é porque algo de estranho se passa, há para ali forças ocultas a intervir, há terceiros a influenciar. E, verdade seja dita, os portugueses até têm razões para desconfiar de tudo e de todos, porque vivemos num tempo do salve-se quem puder, do enganar o próximo seja de que maneira for, de engordar a conta bancária por todos os meios possíveis. E nem sequer vou falar dos políticos corruptos, dos empresários mal-intencionados, dos bancários que gozam com a vida das pessoas. Basta-me olhar para dois exemplos do dia-a-dia e que só contribuem para o clima generalizada de desconfiança em que vivem os portugueses.

Precisamente no domingo, quando ia para Loulé para a entrega de prémios do rali, deparo-me com uma situação que é familiar a praticamente todos os algarvios: uma carrada de homens de coletes vermelhos a mandar parar o trânsito à entrada de uma rotunda e a fazer sinal para os carros encostarem à direita. As pessoas, pensando que se trata de algum acidente, seguem as instruções e são logo metralhadas com pedidos para comprar uma rifa para um sorteio, que os indivíduos estão a angariar fundos para comprar uma ambulância para uma associação qualquer, que é para uma causa solidária, que é só um euro.

Confesso que já cai na conversa duas vezes. Da primeira nem sequer me lembrei mais da situação, na segunda, até fiz questão de comprar o Correio da Manhã na semana em que era suposto acontecer o tal sorteio e nicles. Este domingo, quando questionei o indivíduo sobre o assunto e se tinham licença para fazer peditórios no meio da estrada, perguntou-me logo se eu era polícia e, antes que eu pudesse responder, já estava quase a chorar, a pedir desculpa pelo sucedido, a implorar que o deixasse explicar a situação. Quando lhe disse que não era polícia, até porque é um crime fazer-nos passar por agentes de autoridade, limpou logo as lágrimas, mandou-me sair dali para fora, que estava a fazer-lhe perder o tempo, que não tinha nada a ver com o que eles faziam com o dinheiro.

E hoje, quando fui cortar o cabelo, fui bombardeado o tempo todo com publicidade na rádio a um medicamento qualquer que era maravilhoso, com pessoas a relatar as suas experiências, um senhor que tinha um tumor na bexiga e que ficou curado, uma senhora cuja mãe era 100 por cento doente e que agora está 100 por cento bem e por aí adiante. Depois, compramos três garrafas, temos direito a mais uma e aos portes de correio gratuitos. E eu ponho-me a pensar para os meus botões como é que ainda há gente que acredita nestes líquidos milagrosos?

Como é óbvio, a apanharmos com esquemas malandros sempre que saímos à rua, ou a vermos e ouvirmos todos os dias alguém vender «banha de cobra» nas rádios e televisões, é normal que fiquemos desconfiados quando algo não acontece como era suposto acontecer. Ou seja, deixou de haver espaço para o imprevisto, para a coincidência, para a sorte e azar, para alguém ter um dia menos bom, nada disso, anda logo ali tramoia da grossa, esquema, jogo sujo, corrupção. E, assim sendo, até ter um furo num pneu se transforma num «caso». Enfim, não digo mais nada…

Daniel Pina

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