Aproveitar todos os momentos da vida, antes que a vida nos roube esses momentos

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Isto de começar o dia com lágrimas nos olhos não parece digno de um quarentão rabugento, mas também tenho desses momentos, não me envergonho de o admitir. É uma reação automática que julgo que deve acontecer a todos aqueles que já tiveram uma perda trágica nas suas vidas, que tiveram um pedaço de si arrancado, de forma inesperada, sem qualquer anestesia, sem qualquer hipótese de preencher totalmente esse vazio. O melhor que podemos fazer é, com o tempo, semana após semana, mês após mês, ano após ano, tentar que esse vazio vá ficando mais pequeno, rodeando essa tristeza imensa e sufocante com os momentos de felicidade que vamos tendo no nosso dia-a-dia.

Contudo, como esse vazio nunca vai desaparecer por completo, estamos sempre sujeitos a estes momentos ligeiramente embaraçosos para um homem de barba rija e cabelos brancos. É automático. Vemos, ouvimos, lemos qualquer coisa que nos bate fundo no coração, que traz todas essas memórias à tona e as lágrimas escorrem desalmadamente pelo rosto abaixo. Já me aconteceu isso uma vez em público, quando estava a assistir a um espetáculo solidário da ACASO em Olhão, com utentes portadores de deficiências cerebrais, cognitivas e motoras, outras vezes acontece quando estou sozinho.

E hoje, a perambular pela imprensa diária, voltou-me a acontecer, ao ler a história de Jake Bailey, um jovem neozelandês de 18 anos a quem foi diagnosticado um cancro terminal precisamente uma semana antes da entrega de prémios na cerimónia de final de ano na Escola Secundária Christchurch, uma escola católica só para rapazes na Nova Zelândia. De um momento para o outro o jovem, que se preparava para iniciar uma nova fase da sua vida, provavelmente com milhares de planos na cabeça, descobre que tem poucas semanas de vida, mas isso não o impediu de sair da cama do hospital, vestir a farda da escola e proferir o discurso que tinha escrito quando ainda tinha uma vida inteira pela frente.

Se a história em si já é trágica, mais marcante foram as palavras que deixou aos rapazes que foram seus colegas nos últimos cinco anos, um verdadeiro toque para acordar, para mudar as prioridades, para olhar para tudo de maneira diferente. “Nenhum de nós vai sair desta vida com vida, por isso, sejam cavalheiros, sejam grandes, sejam graciosos e sejam gratos pelas oportunidades que têm. Esqueçam ter sonhos de longo prazo. Sejamos apaixonadamente dedicados à busca de objetivos de curto prazo. Micro-ambiciosos. Trabalhem com orgulho sobre o que está à nossa frente, porque não sabemos onde podemos acabar, ou quando podemos acabar”, frisou Jake Bailey.

Com apenas 18 anos, o jovem mostrou uma clarividência, um pensamento sublime que devemos todos ter em mente, sobretudo numa época em que andamos sempre a correr feitos doidos dum lado para o outro. Acordamos sem sequer termos dormido, despachamos os filhos à pressa, toma lá a lancheira, dá cá um beijo e upa para a escola. Vamos a correr para o trabalho, muitas vezes nem gostamos do que estamos a fazer, muitas vezes nem ganhamos o que seria justo ganharmos, muitas vezes o dinheiro não chega para pagar as contas da casa, temos que fazer uns biscates por fora ou viver à conta do cartão-de-crédito. Almoçamos a correr, umas vezes sentados à mesa, outras de pé encostados à parede, outras ainda a conduzir o carro, uma simples baguete chega para enganar o estômago.

Depois é trabalhar a tarde toda, ir buscar os filhos à pressa à escola, chegar a casa a correr, toca a vestir o pijama aos miúdos, toma lá qualquer coisa para comer, vai ver televisão para o quarto ou para a sala que o pai tem trabalho para fazer no computador, dá cá um beijinho e vai dormir que amanhã é dia de escola. Os miúdos vão dormir, nós não, vamos para a cama pensar no trabalho que há para fazer no dia seguinte, pior ainda, nas contas que temos que pagar no dia seguinte.

Dia após dia, sempre a correr, já nem sequer fazemos planos a médio e longo prazo, não há tempo nem dinheiro para planear férias com a família, nem sequer para pensar muito onde iremos jantar no aniversário dos miúdos ou do casamento. Não compramos nada para nós, não vamos ao cinema, ao teatro, a um concerto de música, não nos divertimos, não descansamos a cabeça. Quando sobra algum dinheiro, compra-se qualquer coisa para os miúdos, eles não têm culpa do mundo ser assim sempre a correr, de estarem pouco tempo com os pais.

Depois, neste corre-corre, temos um acidente de carro, um AVC, um enfarte, descobrimos que temos os diabetes ou o colesterol altos demais, o stress não perdoa e, afinal de contas, para que serviu toda a correria? Quase não estamos com a família, são mais as vezes que estamos a dizer aos filhos para não fazerem isto ou aquilo do que estamos a rir com eles a ver o Disney Channel ou o Canal Panda. E, um dia, a vida troca-nos as voltas e é tarde demais para recuperar o tempo perdido.

Claro que a maior parte do tempo não andamos com estes pensamentos filosóficos, é preciso o tal toque para acordar, o tal acontecimento trágico para nos fazer abrandar o ritmo e olhar de maneira diferente para as coisas. Às vezes, porém, temos uma oportunidade para simplesmente relaxar e olhar para a paisagem. Quase parece de propósito, mas ontem tive um desses raros momentos. Estava a caminho de São Brás de Alportel para uma conversa com o Diogo Gago quando ele me telefona a dizer que estava uma ou duas horas atrasado por causa dum imprevisto. Podia ter voltado para trás e escrevinhar mais qualquer coisita no computador. Em vez disso, estacionei o carro em frente ao edifício da Câmara Municipal, sentei-me no largo da igreja, com uma vista fantástica para a Serra do Caldeirão e limitei-me a olhar, a apreciar a tranquilidade, a tirar umas fotografias, a ouvir os passarinhos. Sei lá eu quando terei outra oportunidade para desligar o cérebro por uma hora ou duas sem pensar no trabalho que há para fazer e nas contas que há para pagar…

Daniel Pina

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