Afinal, santos de casa sempre fazem milagres…

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A minha rabugice de hoje é uma faca de dois gumes. Por um lado, a profunda irritação que me assola sempre que ouço dizer que “santos de casa não fazem milagres” ou que “o que vem de fora é melhor do que o nosso”. Por outro lado, a constatação de que estas «máximas» que se foram generalizando com o evoluir do tempo já não têm razão de ser, se é que alguma vez o tiveram. E se fosse necessária mais uma prova disso, todas as dúvidas foram dissipadas ao assistir à Gala de Natal da Academia de Dança do Algarve, no dia 11 de dezembro.

Com o Pavilhão Municipal de Loulé praticamente lotado, passaram pelo palco improvisado algumas centenas de crianças e jovens, dos cinco, seis anos até aos mais adultos, incluindo um grupo de mulheres dos 25 aos 50 anos, com as suas profissões do dia-a-dia e uma enorme paixão pela dança. E se já esperava que os bailarinos dos 16/17 anos para cima tivessem uma qualidade acima da média, fossem simples alunos ou já instrutores, o que me surpreendeu verdadeiramente foi ver crianças com meia dúzia de anos, outras de 10, 11 anos, a dançarem de sorriso nos lábios e um talento de deixar qualquer pai babado.

E nem sequer se tratavam de coreografias banais, de poucos passos, sempre com o mesmo som e batida, mas com várias mudanças de ritmo, diferentes coreografias encadeadas e com adereços e roupas a condizer com a trilha sonora. Mais, alguns desses artistas de palco e meio participavam em mais do que uma dança e de estilos distintos, do hip-hop ao afro house, da dança contemporânea ao dance hall, do freestyle ao vogue/waaking, encarnando na perfeição as personagens associadas a cada estilo.

Ora, se pensarmos que muitas destas crianças treinaram apenas duas horas por semana para este espetáculo, durante três ou quatro meses, é caso para dar os parabéns aos instrutores, pela paciência que tiveram com os seus alunos, e a Marinela Gouveia, a fundadora da Academia de Dança do Algarve. Realmente, depois de ver a gala, pensamos que valeu a pena pagar a respetiva mensalidade, mesmo que, para alguns pais, isso implica tirar dinheiro de outras atividades. O problema que se coloca, para variar, é o que fazer depois a tantos talentos, num país onde cada vez se investe menos na Cultura e, quando há verbas para gastar, se dá primazia aos artistas estrangeiros, neste caso, às companhias de dança de outros países.

Não coloco em causa que tenham valor, se andam em digressões mundiais é porque têm talento para isso, mas as nossas crianças não lhes ficam atrás, em termos relativos. Pegando em qualquer daqueles miúdos e miúdas, continuando a dar-lhes formação, continuando a fazer sacrifícios para pagar as suas aulas, não tenho dúvidas de que muitos têm condições para serem bailarinos profissionais. Alguns até já o são e fazem parte de equipas que regularmente participam em competições nacionais e internacionais e com resultados francamente positivos. Só que nem todos os pais têm condições financeiras para o fazer e bem sabemos como anda o ensino artístico em Portugal, com professores com ordenados em atraso há vários meses e escolas à beira de fecharem portas. São os professores que vão para o desemprego, são os alunos que ficam com a formação a meio, são os pais que ficam com a sensação de que andaram alguns anos a deitar dinheiro para o lixo.

Fruto deste cenário, acontece o mesmo que em qualquer forma de expressão artística. Os miúdos deixam de ser miúdos, chega a altura em que têm que decidir entre um curso superior tradicional ou entre as belas artes, seja a música, pintura, dança, teatro, ou canto, os próprios pais percebem que não há saídas profissionais em Portugal para os seus filhos e os jovens acabam por desistir. Os mais persistentes continuam a sonhar, completam os estudos, depois tentam a sorte no estrangeiro ou como freelancers a jogar a mão a todas as oportunidades que surjam. Mas simplesmente não há espaço para todos.

Claro que não passa pela cabeça de ninguém que aquelas centenas de crianças que dançaram na gala de Natal da ADA queiram todas ser bailarinos profissionais. Muitas acabam por descobrir outros interesses lúdicos ou perceber que a dança não é para elas quando se torna mais exigente, quando deixam de chegar duas horas semanais para preparar uma coreografia. Mas muitas de certeza que sonham com esta carreira, a ver pela dedicação com que pisaram o palco, os olhos a brilhar, a nota artística em cada movimento que executavam. E os pais, claro, deixam-se levar pela euforia do momento, pelo clima, e partilham dos mesmos sonhos. Até eu fiquei todo orgulhoso a ver a minha Margarida a fazer a sua parte com apenas três meses de aulas. E, por uns breves instantes, não vou deixar a minha rabugice instalar-se e vou sonhar também que é possível ser artista em Portugal.

Daniel Pina

 

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