Reféns das tampinhas…

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Esta semana conheci a Sandra e a Miriam e mais uma vez percebi a tristeza de país em que vivemos. A Miriam tem oito anos, sofre de paralisia cerebral desde os oito meses de idade, depois de ter tido contato com o vírus do herpes. A mãe era auxiliar de uma creche e teve que abandonar o trabalho para se dedicar 24 horas por dia à filha. Do Estado recebem pouco mais de 200 euros mensais, quando os tratamentos de Miriam chegam a custar 10 vezes mais do que isso por mês, entre fisioterapia, terapia da fala, hidroterapia, terapia ocupacional, acupuntura e reflexologia, tudo na esperança de que um dia venha a ter uma vida melhor. Não me vou alongar mais na história, quem quiser conhecer melhor esta dupla de guerreiras pode ler a reportagem em http://issuu.com/danielpina1975/docs/algarve_informativo__37.

Há, contudo, coisas que um jornalista não deve colocar numa peça jornalística, salvo a redundância, pelo risco de perder a objetividade e porque não está ali para dizer o que lhe vai na alma. É para isso que servem os artigos de opinião, as crónicas, os desabafos. É para isso que serve este carneiro rabugento. E rabugento fico, de facto, ao ver que esta mãe e filha são largadas à sua sorte pelo poder central, pelo mesmo governo que abre os braços para receber não sei quantos milhares de refugiados da Síria, o mesmo governo que paga rendimento social de inserção, abonos de família e mais não sei quantas ajudas a inúmeros cidadãos de etnia cigana e imigrantes de leste que se mudaram para Portugal nas últimas décadas, depois dos africanos e dos brasileiros terem feito o mesmo antes disso.

Antes de prosseguir, quero deixar bem claro que não tenho nada contra os refugiados, que não têm culpa do seu país se ter transformado num palco de guerra. Também não tenho nada contra os imigrantes que partem para outros países em busca de melhores condições de vida, assim como os portugueses o fizeram na segunda metade do século passado, para fugir da ditadura e da guerra colonial. E também não tenho nada contra os cidadãos de etnia cigana. O que me custa é ver que, para quem vem de fora, há uma série de ajudas disponíveis, todavia, para quem cá nasceu, tudo é mais complicado. Lá está, o aparelho de estado é, realmente, muito efetivo a cobrar impostos, mas já é mais avesso a dar a sua contrapartida aos mais necessitados.

E como o Portugal em que vivemos é assim, as Sandras e Miriams deste país ficam dependentes da solidariedade de terceiros, sejam cidadãos anónimos, empresas particulares, estabelecimentos comerciais ou associações de carater social. E ficam dependentes de campanhas como a recolha de tampas e caricas, que depois trocam pelo dinheiro de que tanto necessitam para pagar os tratamentos. Tratamentos que não podem ser de borla, como é óbvio, porque os profissionais que os realizam também têm as suas contas para pagar, as suas famílias para sustentar.

Ficam assim as nossas Sandras e Miriams sujeitas à boa vontade dos outros e, felizmente, até há muitos portugueses que não fecham os olhos a esta realidade, por saberem também que estas tragédias podem acontecer a qualquer um de nós. O problema passa, então, por divulgar estas histórias, dar a conhecer estas vidas, mas os jornais, revistas e canais de televisão não cumprem o tal serviço público por entenderem que o retorno financeiro não justifica os custos às vezes de simplesmente deslocar um repórter e um operador de câmara às casas destas famílias.

Contou-me a Sandra que a CMTV foi a única estação televisiva a contar a história da sua filha, mas porque o assunto se enquadra na linha editorial desse jornal, agora igualmente canal de televisão. É mais uma história para as velhinhas começarem a chorar em frente à televisão, emocionadas pelas dificuldades do dia-a-dia desta mãe e filha. Da SIC e TVI, pelo que me disse a Sandra, nunca houve grande interesse, se calhar porque a causa não tem os padrinhos e madrinhas certos. Isto porque, apesar de Dulce Félix e Dino Santiago serem excelentes pessoas e de enorme coração, ela é atleta de fundo e corta-mato e Portugal só presta atenção ao atletismo em vésperas de Jogos Olímpicos ou Campeonatos da Europa e do Mundo, e ele é cantor, mas não do pop/rock que move as grandes massas.

Não tenho dúvidas que, se as madrinhas da Sandra e da Miriam fossem uma Rita Pereira ou uma Cláudia Vieira, já a TVI e SIC tinham promovido esta causa, mas provavelmente dariam mais destaque às figuras mediáticas do que à história em si e as personalidades lá respondiam com a conversa do costume: “Sempre me senti muito acarinhada pelos portugueses e temos que retribuir esse carinho”. Não estou a dizer que as Cláudias e as Ritas deste Portugal não tenham também um coração enorme e vontade de ajudar os mais necessitados, não têm é muitas vezes conhecimento destas situações e de que podem dar um contributo imenso simplesmente por associarem o seu nome e rosto a uma causa solidária.

E assim vai a Sandra lutando todos os dias para reunir tampinhas e caricas suficientes para pagar os tratamentos da Miriam, e as contas normais da casa, como é natural. E desdobrando-se em esforços para levar a filha aos eventos solidários que os cidadãos anónimos organizam para recolher fundos para as ajudar. Cidadãos que, na hora da verdade, estão a fazer o trabalho que, num país normal, deveria ser desempenhado pelo governo, porque é para isso que todos nós pagamos impostos.

Daniel Pina

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