Contra os dramas, marchar, que remédio…

adaptado
Estamos naquela altura do ano em que, supostamente, devemos esquecer as amarguras e tristezas e pensar só nas coisas boas que nos aconteceram nos últimos meses. Imbuídos do tal espírito natalício, é tempo de gastar dinheiro em muitas prendas e comer doces até cair para o lado, na comunhão dos familiares mais próximos. Depois, dá-se descanso ao corpo durante alguns dias e repete-se a dose no réveillon, outra vez com a família ou na noitada com os amigos, contar as 12 badaladas de passas numa mão, notas de dinheiro na outra mão, aos saltos com o pé direito, beijocas para aqui, abraços para acolá, votos de que o ano que chega seja melhor do que aquele que parte.

Para que isto resulte, contudo, é melhor dar descanso também à comunicação social, não ler jornais, não ver noticiários, não ouvir rádios, nem sequer dar um pulo ao Facebook. Caso contrário, lá apanhamos outra vez com as trafulhices de mais um banco, mas lá diz o ditado – «não há duas sem três». Resta saber se, depois do BPN, do BES e do BANIF não haverá um quarto, quinto, sexto caso, e por aí adiante. Infelizmente, desconfio que não ficamos pelos três. E se lermos as notícias, apanhamos também com o caso do David, que morreu se calhar por uma diferença de 10 ou 20 euros, provavelmente mais do que isso, admito, que os médicos queriam de aumento para trabalharem aos fins-de-semana. O David morreu, as direções demitiram-se, os médicos vão voltar a trabalhar ao fim-de-semana, mas o David continua morto.

Portanto, se quisermos passar pelo Natal e Réveillon de sorriso nos lábios e esperança no futuro, o melhor é mesmo fechar os olhos ao que acontece fora das nossas casas. Depois, no dia 4 de janeiro, convém acordar para a realidade, mas para a realidade dura e feia, aquela em que temos que resolver os problemas por nós mesmos. Não vale a pena ficar à espera duma mão amiga, muito menos dos grandes poderes, políticos ou financeiros, porque já percebemos como essa história acaba. E quanto mais cedo nos mentalizarmos que, contra os dramas e tragédias, a única solução é marchar, levantar os braços e ir à luta, mais depressa começamos a ultrapassar as dificuldades.

Nestas últimas semanas tenho-me deparado com diversos casos de pessoas que optaram pelo caminho mais difícil, o de ir à luta, o de não desistir, aquele em que não ficamos a chorar sentados nos sofás, a rogarmos pragas ao governo porque não nos ajuda, a queixarmo-nos dos patrões que não nos pagam os ordenados. Assim aconteceu há uns anos com Nuno Neto, um pai que teve a infelicidade do filho nascer com espinha bífida, numa época em que praticamente não existiam instituições no Algarve para apoiar as pessoas com deficiência. Em vez de desanimar, juntou um grupo de amigos e conhecidos e criaram eles próprios uma associação, a APEXA, candidataram-se aos fundos disponíveis, bateram às portas todas e, hoje, são uma das principais IPSS em atividade na região, a ajudar centenas de jovens e adultos com necessidades especiais de educação, com deficiências motoras, cognitivas e cerebrais.

Alguns desses utentes se calhar encontrei-os uns dias depois na Gala de Desporto do Concelho de Loulé, inseridos na natação adaptada do Louletano Desportos Clube, homens e mulheres de várias idades que se mantém ativos, a praticar desporto, a ganhar medalhas, em Portugal e além-fronteiras, verdadeiros exemplos de que, com vontade e empenho, tudo se consegue, ou quase tudo. E eles subiram ao palco, receberam as suas distinções, a plateia aplaudiu de pé, os pais deixam escorrer uma lágrima pelo rosto a ver o resultado de tantos sacrifícios, das aflições que devem passar no dia-a-dia nos seus lares, porque continuam a faltar apoios para ajudar quem nasceu diferente.

Mas não é preciso pensar só nestes casos mais extremos para arranjarmos motivação para tratarmos dos nossos problemas. Basta compreender a realidade dura e crua: quem era suposto apoiar-nos, normalmente vira-nos as costas. E quanto mais cedo arrepiarmos caminho, mais tempo temos para cair e voltar-nos a levantar e mais depressa chegamos ao destino. Não vale a pena querer ficar na zona de conforto, sentado no sofá, confiante de que alguma coisa vai aparecer. É possível que apareça, mas o mais provável é que não apareça. Não vale a pena lamuriar-se que já se é velho demais para começar de novo, porque o relógio não anda para trás. Também não vale a pena desanimar quando não se é um grande empreendedor. Nem todos nascemos para ser o Bill Gates ou o Steve Jobs e, na maior parte das vezes, o simples é melhor e mais rentável do que o complicado. Na hora da verdade é como diz o povo: «para a frente é que é caminho». Um passo de cada vez, sem pensar demasiado nos azares que se teve, nem nas inúmeras injustiças que continuam a acontecer todos os dias em Portugal. E que 2016 seja melhor, ou pelo menos tão bom, que 2015.

Daniel Pina

 

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