A febre dos números ou o regresso do Analista de Multidões!

analistamultidoes
Janeiro está a ser um mês pródigo em números e estatísticas. São as metas do Orçamento de Estado para um lado, as sondagens das Presidenciais para outro, o rescaldo das principais festas de réveillon para aqui, a evolução das estatísticas deste ou daquele concelho para acolá, e tudo isso me fez lembrar uma história que escrevinhei há quase quatro anos. É um dos meus pensamentos polaroid que começa numa conversa imaginária com um adjunto de presidente de uma qualquer câmara municipal:

(…)

– Ó amigo, isto é como os comunicados de imprensa que vocês enviam a dizer que estiveram tantas mil pessoas no tal concerto, desfile de moda, comício e coisas do género?
– Então? – questionou o adjunto, sem perceber onde eu queria chegar.
– Então? Se calhar vai o senhor contar as pessoas que estão no meio da praça para saber se são 500 ou cinco mil? – respondi, ao que veio a rápida contrarresposta.
– Eu não, temos o Virgulino para isso.
– Quem? – perguntei eu, sem saber se o antigo colega de profissão estava a gozar comigo ou a falar a sério.
– O Virgulino Anastácio. É um analista de multidões que trabalha connosco há uns anos. Não conhece?

Fiquei de boca-aberta, ainda sem acreditar se o homem estava a falar a sério comigo ou não, mas o certo é que me deu o contato do tal Virgulino e prontamente tratei de marcar uma conversa com o indivíduo.

No dia seguinte, à hora marcada, lá me encontrei com o senhor numa esplanada da baixa de Albufeira, um homem dos seus 40 anos, óculos armação de tartaruga, lentes grossas, cabelo domado à conta de muito gel, blazer de bombazina com cotoveleiras acinzentadas, sapatinho de vela. Resumindo, um cromo.

– Ora tem ai um nome bastante original! – disparei eu em início de conversa, para aligeirar o ambiente.
– É verdade. O meu pai era poeta e tinha uma mania esquisita com as vírgulas, tanto que disse logo à mulher que ia dar esse nome ao primeiro filho. Vá lá que nasci eu antes da minha irmã. Já imaginou a coitada, Virgulina? Não arranjava namorado com esse nome, não senhor.
– Realmente. Não ia ter vida fácil na escola. Já Virgulino é um nome mais normal – disse, talvez com uma nota de ironia demasiado acentuada. – Então como é que descobriu este seu talento?
– Pois a mim fazia-me uma confusão imensa na escola quando o professor fazia a chamada no início das aulas, se me bastava um relance para verificar que estávamos todos presentes. Depois, ao almoço, também precisava olhar apenas uma vez para o refeitório para saber quantos aluno estavam a comer – conta, um pouco tímido.
– Tinha então olho clínico para os números, é isso? Era como se contasse todas as pessoas no espaço de segundos?
– Pois isso de termos científicos não percebo nada, não sou doutor. O que sei é que, com a prática, comecei a fazer isto em espaços maiores – explicou, tirando os óculos para limpar as lentes.
– Ai foi praticando noutros sítios? Conte lá isso, por favor.
– Pois, no Verão, ia à Praia dos Pescadores com a minha avó e, como não sabia nadar, volta e meia ia para o terraço da «Ruína» para contar as pessoas que estavam no areal.
– E o dono do restaurante não refilava consigo?
– Não. Iam muitos miúdos lá para cima para ver as bifas a fazer topless. Ele achava piada à coisa e, desde que não incomodássemos os clientes, não havia problemas.
– E que mais? – incentivei eu, a ver que o Virgulino estava a ficar mais à vontade.
– Olhe, à noite, a minha avó levava-me aos bailaricos do Top 60 e eu fazia a contagem dos casais que estavam na pista de dança. Aliás, até expliquei um dia ao dono que, quando o entertainer tocava determinadas músicas, estavam tantas pessoas na pista e que, noutras, elas iam todas para as mesas e aproveitavam para beber qualquer coisa. Foi a primeira vez que ganhei alguma coisa com o meu talento – revela, cheio de orgulho.
– Explique lá isso que não estou a entender.
– Então, o patrão quer é vender bebidas, não que esteja sempre tudo a dançar. Por isso, comecei a elaborar uma lista dos temas que esvaziavam a pista, por assim dizer, e o senhor lá do órgão organizava melhor o alinhamento das músicas. No mesmo ano, desencobri um escândalo no baile de finalistas da escola, deve ter ouvido falar nisso.
– Acho que ouvi qualquer coisa, sim, recorde-me lá – pedi, sem fazer a mínima ideia do que ele estava para ali a falar.
– Foi uma barraca, acredite. A presidente da comissão de festas estava desconfiada que alguém andava a desviar fundos e pediram-me para ajudar. A meio do baile, eu apresentei o número de alunos que ali estavam, que não correspondia ao dinheiro em caixa, e veio-se a saber que um dos membros, de tantos em tantos bilhetes, metia o valor da entrada no bolso.

Já sem travas na língua, Virgulino Anastácio contou outros «serviços» para que foi chamado, mas parece que a sua carreira disparou depois de um determinado desfile de moda realizado em Albufeira.

– Um jornalista de Lisboa queria escrever a notícia e precisava saber quantas pessoas tinham assistido ao desfile e ninguém na câmara sabia isso, porque aquilo era entrada-livre, não havia controlo nenhum. Pelos vistos, o tal jornalista irritou-se, disse que aquilo era uma falta de profissionalismo, uma falha grave, e que assim não podia fazer o seu trabalho como devia ser. O certo é que, desde então, sou sempre contratado para eventos onde estejam grandes multidões para fornecer os números oficiais.
– Eu por acaso sempre desconfiei dos números que eles mandam nas notas de imprensa. Aquilo é sempre certinho, 10 mil, 15 mil, 40 mil, é sempre à conta. Como é que isso acontece?
– Olhe que eu não lhe admito que duvide do meu trabalho! Se eu digo que estão 10 mil, é porque estão 10 mil e se alguém fizer a contagem e provar que eu estou errado, eu devolvo o dinheiro – disparou o homem, de repente super irritado, o que contrastava com a sua figura pacata.
– Então, nunca se enganou? – tentei eu apaziguar a questão.
– Nunca, jamais. Bem, houve uma ocasião em que estavam 997 pessoas e o organizador queria arredondar para os mil, mas eu não fui em cantigas. ‘Se você quiser dizer mil, diga à vontade mas, se me perguntarem, eu esclareço que estavam só 997. Está o meu brio profissional em causa’, garanti-lhe. O homem acabou por telefonar a três compadres para irem ver o concerto à borla e perguntou-me se assim eu ficava mais contente. Eu mostrei-lhe que só estava a fazer o trabalho para o qual me tinha pago, que não valia a pena ficar todo irritadiço.
– E apanhou com mais cenas dessas desde então?
– Não, esse episódio serviu-me de lição. A partir daí, passei a utilizar valores relativos. Se estiverem 1001 pessoas, por exemplo, digo «para cima de mil», sempre fica o cliente mais satisfeito, porque dá a ideia de que estiveram muitas mais pessoas do que 1001. Se for 997, falo em «perto de mil», «à volta de mil», «sensivelmente mil». É como os preços mágicos dos produtos, números redondos soam melhor – explicou, como se estivesse a revelar uma técnica secreta.
– Então e tem muito serviço?
– Oh se tenho, isto não para, porque trabalho para várias câmaras municipais. É festas e concertos, desfiles. Em ano de eleições, são comícios e jantares que nunca mais acabam, mas ai é mais complicado por causa das bandeiras. No Dia da Mulher vou sempre a Vila Real de Santo António. Tenho a agenda supercarregada. Quem é que acha que fez a contagem do maior brinde do mundo, em Albufeira, há uns anos? Mas ali não deu para arredondar porque a gentalha do Guiness é muito rigorosa. Foram 26 564 certinhos, já não podia ver mais copos à minha frente.

Eu nem queria acreditar. Mas o homem falava a sério ou tinha um parafuso a menos? Mas, como já estava metido na conversa até aos joelhos, decidi continuar, a ver onde isto ia parar.

– E essa foi a sua maior contagem até à data?
– A maior foi no Réveillon de 2011, por causa dos Ídolos. Foram mais de 100 mil pessoas. Repare, lá está a expressão «mais de», dá logo outra grandeza. Mas não sei se vou continuar a fazer esse serviço – desabafou, meio a contragosto. – É que, como está escuro, eu faço a contagem durante o fogo-de-artifício e este ano eles encurtaram aquilo, quase não tive tempo para a recontagem.
– Ai o senhor conta duas vezes aquele maranhal todo de gente? – perguntei, incrédulo, a ver que a pancada, afinal, ainda era maior do que pensava.
– Claro, eu sou um profissional, não posso correr o risco de dar um número errado. Porque é que acha que uso óculos com lentes tão grossas? É que isto dá cabo da vista, é uma profissão de alto risco.
– E já experimentou usar lentes de contato? – aconselhei, para logo me arrepender da sugestão.
– É o que dá falar com leigos. E se a lente se parte, se salta do olho com o vento, se entra poeira para os olhos? As pessoas não estão ali propriamente paradas à espera que eu faça o meu serviço. Tenha juízo, homem.
– Calma, calma, não se irrite. Então e este trabalho dá para viver? Recebe à cabeça contada, como é que funciona?
– Cruz, credo, quem o ouvir falar pensa que sou algum mercenário. Eu funciono como as fotocópias e as fotografias, é por intervalos. Agora, não me pergunte os valores concretos que isso não lhe posso dizer. Anda por ai muito abutre que, por menos uns euros, tenta logo roubar-nos os clientes.
– Claro, claro, compreendo. Então, pode-se dizer que está realizado. Que é isto que vai fazer o resto da vida?
– Está parvo? Claro que não. Eu sou um homem de ambições, de vistas largas. O meu sonho é ir para as manifestações.
– Manifestações? Não percebo.
– Pois já vi que o senhor não percebe muitas coisas. Parece que tenho estado a falar para o boneco. Até agora sempre lidei com multidões estáticas, paradas num espaço único. O objetivo é as multidões em movimento, como as manifestações, mas isso exige meios técnicos que ainda não possuo – confessou, um pouco cabisbaixo. – Já fui a algumas manifestações aqui no Algarve praticar, naquilo dos Inconformados ou Indignados, e naquelas contra as portagens, e vi que ainda não estou preparado para dar o salto.
– Então porquê? Qual é a diferença? – testei eu a paciência do homem com mais uma pergunta que devia ser parva, mas enfim.
– Ora, acompanhar a marcha e fazer a contagem ao mesmo tempo não resulta, porque estou sempre a tropeçar em alguém ou a chocar com carros parados e perco o fio à meada. Noutra, tentei ficar num sítio a meio do percurso, mas há pessoas que podem sair da marcha antes desse ponto e outras que se podem juntar depois desse local e, assim, não consigo dar uma contagem certa. Eu desconfio que quem faz a contagem nas manifestações grandes de Lisboa é alguma firma especializada. É impossível uma pessoa sozinha conseguir chegar aos 300 mil manifestantes sem equipamento especial.
– Então esse é o passo que se segue Virgulino? E depois?
– Depois, tem que ser o mercado internacional, porque não há tantas manifestações em Portugal para um analista de multidões conseguir rentabilizar o negócio – afirmou, em final de conversa.

Daniel Pina

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