Quando o desemprego nos muda a vida… para melhor!

algarveinformativoEste texto é daqueles da praxe de qualquer diretor quando uma publicação atinge uma marca simbólica, seja do número de edições ou dos anos de antiguidade. Contudo, não é daqueles textos do costume a dizer que a minha revista é a melhor do mundo, que é isto ou aquilo, que é suprassumo, topo de gama, a nata da elite e por aí adiante. Faz-se o que se pode, dentro das limitações que são sobejamente conhecidas de todo o mundo, nomeadamente ao nível dos apoios e da publicidade, mas de consciência tranquila por se estar a tentar promover o Algarve pela positiva, contando histórias motivadoras, casos de sucesso.

Resumindo, a Algarve Informativo dá a conhecer coisas boas e o seu nascimento pode servir, ele próprio, de motivação para algumas pessoas. Por isso, tinha guardado estes pensamentos para o tal número simbólico «50», mas decidi deitá-los cá para fora um mês mais cedo por dois motivos bastante simples: em primeiro lugar, um entrevistado esta semana disse-me que o desemprego, às vezes, tem o condão de nos fazer descobrir coisas dentro de nós que desconhecíamos, ou a que não atribuíamos o devido valor; em segundo lugar, a minha filhota mais velha fez seis anos, lá está, mais um dos tais momentos simbólicos, e, apesar do trabalho que dá editar mais de 70 páginas por semana, o dia de aniversário foi praticamente todo dedicado a ela, como bem merece.

Agora, vamos lá misturar os dois episódios para me fazer explicar sem roubar muito tempo às pessoas. Durante mais de 15 anos fui como a maior parte dos portugueses, trabalhei para outrem. Fui jornalista, fotógrafo, relações públicas, angariador de publicidade, cobrador de faturas. Fiz centenas de entrevistas e reportagens, tirei dezenas, se calhar centenas de milhares de fotografias, e não estou a exagerar. Arranjei muitos clientes para a entidade patronal, gerei muitas receitas. Para isso, muitos foram os anos que não tive férias, nem sequer fins-de-semana. Era o típico jornalismo durante o dia, o fotojornalismo em bares e discotecas à noite, eventos culturas e sociais para cobrir de segunda a domingo, sábados e domingos preenchidos por torneios de golfe, provas de ralis e outras competições desportivas.

Não me estou a queixar, fazia o que gostava, pelo menos na maior parte das vezes. Claro que o esforço e dedicação saberiam melhor se recebesse algumas palavras de elogio ou agradecimento da entidade patronal, mas nem a umas palmadinhas nas costas tinha direito. A mulher queixava-se que quase não me via, nunca ia com ela aos jantares disto ou daquilo, não podia ir às festas da minha própria filha, fossem em casa ou na escola. Tenho uma ligeira recordação que me cruzava com a minha mulher todas as noites porque dormíamos na mesma cama.

A recompensa de tudo isto lá acabou por chegar, finalmente, quando a crise se instalou em Portugal. Pontapé no traseiro, desemprego, contas para pagar e pouco dinheiro para isso. Os conhecidos, os tais supostos «amigos», fecharam as portas a sete chaves, a crise e tal não permitia a contratação de ninguém. As propostas de trabalho que chegavam de outros meios de comunicação social eram ridículas. Estágios remunerados só há para quem tem menos de 30 anos, os mais velhos que se desenrasquem, ou vão lá fora. Uma pessoa tentava esticar o parco subsídio de desemprego para pagar as contas todas, ao mesmo tempo que ouvia as críticas do costume de que a malta está mal habituada, que ninguém quer trabalhar, que preferem ficar em casa a ver televisão do que ir à procura de emprego.

Enfim, esta parte da história toda a gente sabe de cor e salteado, é comum a milhares de portugueses. A parte que pode servir de motivação, ou pode não interessar nada a ninguém, foi o nascimento do Algarve Informativo, primeiro no formato de blogue noticioso, a maneira mais rápida e simples de manter a escrita em dia e de não cair no esquecimento dos potenciais empregadores. A coisa funcionou melhor do que esperado, de tal modo que me apressei a registar o «Algarve Informativo» no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Era o primeiro passo de uma série de burocracias que consumiam tempo e dinheiro, mas depressa percebi que esse seria o meu futuro profissional.

Claro que é um passo difícil de dar, sair da zona de conforto de trabalhar para alguém, um alguém que lhe paga o ordenado todos os meses, que trata de todas as burocracias, que lhe diz tudo o que se tem que fazer. O pior é quando esse alguém deixa de pagar, ou deixa de existir, e mudamos para a zona do desconforto. Sem muito tempo para indecisões, arrisquei, nasceu a revista semanal do Algarve Informativo, com muitas burocracias pelo meio, para não variar. Abrir atividade nas finanças, registar o título na Entidade Reguladora para a Comunicação Social, arranjar publicidade, cronistas, aprender a paginar, inventar assuntos, andar de um lado para o outro a entrevistar pessoas com histórias positivas para partilhar, tirar fotografias, até chegar às tais 70 e tal páginas por semana.

Bem vistas as coisas, o desemprego acabou por mudar a minha vida para melhor, porque me obrigou a arriscar, a escolher o meu próprio caminho, a tomar as minhas próprias decisões, a não fazer apenas o que alguém lá em cima me manda fazer. Como disse a alguém há uns dias, eu gosto de trabalhar, quando gosto do trabalho que estou a fazer. Um trabalho que, felizmente, há milhares de pessoas que também gostam de acompanhar, os tais milhares que leem a revista todas as semanas, os tais que fazem publicidade e que garantem a sustentabilidade financeira do projeto, os tais que colaboram com os seus pensamentos e opiniões todas as semanas.

E, por incrível que pareça, agora não falto às festas das minhas filhas, nem aos jantares de aniversário da minha mulher. Vou todos os dias levar e buscar as filhas à escola e nem imaginam as conversas filosóficas que se consegue ter com duas crianças, uma com seis anos, outra com dois, em curtas viagens de carro. Até tenho tempo para ver com elas a Heidi, o Miles do Futuro, o Gomby, os Descendentes e o Monster High. Tudo isto porque, um dia, me vi no desemprego e tive que me fazer à vida… mas agora, confesso, sinto-me bastante mais feliz e realizado.

Daniel Pina

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