Finalmente, mostra-se o Outro Algarve!

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Esta semana, o Algarve esteve de olhos postos na Bolsa de Turismo de Lisboa, ou a BTL esteve de olhos postos no Algarve, como se preferir olhar para a coisa, mas o certo é que a grande maioria dos autarcas, dirigentes associativos e empresários ligados ao turismo estiveram na capital por ocasião da mais importante feira do setor que se realiza em Portugal. Uma presença que se fez sentir em peso na 28ª edição da BTL onde o Algarve era, precisamente, o destino convidado, mas o que me salta mais à vista é que, finalmente, se começou a aproveitar o certame para dar a conhecer o «Outro» Algarve, aquele de que tantas vezes se fala em campanhas publicitárias pontuais mas que continua a viver na sombra do produto âncora «sol e praia» e do golfe.

É evidente que no stand do Algarve e dos vários concelhos estiveram presentes as tradicionais brochuras das praias algarvias, que são as melhores da Europa, bem como dos campos de golfe, que também são dos melhores da Europa e do Mundo. Imagens de beleza inigualável que chamam logo a atenção dos visitantes, exceto quando os visitantes são do trade, são profissionais do ramo, são de agências de viagens, de empresas de rent-a-car, de organizadores de congressos e seminários. Esses já conhecem sobejamente os famosos «postais» do Algarve, as praias e os campos de golfe que todos os anos ganham prémios internacionais. Mesmo o público em geral que tem acesso à BTL nos últimos dias também já conhece de cor e salteado as nossas praias, campos de golfe, as vistas deslumbrantes, os empreendimentos turísticos de cinco estrelas, mesmo que não tenham posses financeiros para os frequentar durante as férias do Verão ou da Páscoa.

Apraz-me, por isso, verificar que grande parte dos municípios algarvios aproveitaram a principal montra de turismo do país para promover – a par das suas riquezas naturais e patrimoniais – aquilo que os distinguem verdadeiramente dos outros locais do globo, designadamente a sua história, a cultura, as festas religiosas, a gastronomia, o vinho, a tranquilidade, a paz e sossego. Foi o caso de Loulé, em cujo concelho se localizam algumas das praias, campos de golfe e empreendimentos turísticos mais famosos do mundo, mas que fez questão de evidenciar algo que não se encontra em mais lado nenhum – o Festival MED. Ainda faltam alguns meses para se realizar a 13ª edição deste importante festival de músicas do mundo, o cartaz ainda não está fechado, como é natural, mas os responsáveis camarários não perderam a oportunidade de promover, já, o MED junto de quem depois influencia a escolha dos destinos de férias de milhares de turistas.

Foi o caso de São Brás de Alportel, que também aproveitou a BTL para dar a conhecer a 25ª Feira da Serra, um dos principais certames gastronómicos da região, onde se pode encontrar todas as tradições e riquezas do interior algarvio, da Serra do Caldeirão. Foi o caso de Lagoa, que enfatizou o galardão «Lagoa Cidade do Vinho 2016» e mostrou os seus vinhos, a sua nova imagem, as suas gentes e tradições. Foi o caso de Silves, que destacou a sua cultura, gastronomia, natureza, os vinhos, doçaria, frutos, até um dos maiores recifes naturais da Europa, situado ao largo de Armação de Pêra. Foi o caso de Olhão, que promoveu os seus produtos do mar e a Ria Formosa. Foi Vila do Bispo que lembrou a sua história, o papel nos Descobrimentos, o Festival de Observação de Aves. Foi Tavira que falou das suas igrejas, conventos, dos achados arqueológicos.

De um modo geral, todos os concelhos do Algarve realçaram aquilo que só eles possuem no seu território, ao invés de irem pelo caminho mais fácil de promover o mesmo de sempre e que já toda a gente conhece. E, por isso, as perspetivas para o próximo Verão são risonhas, como vários especialistas na matéria já adiantaram, embora não se possa atribuir todo o mérito dos resultados ao Algarve, nem sequer aos nossos governantes. Isto porque a instabilidade política, o clima de insegurança, os conflitos, continuam a proliferar em vários países concorrentes da bacia do Mediterrânico e de outros pontos do globo, o que afasta milhares de turistas e os empurra, suave e levemente, em direção ao sul de Portugal.

Claro que não se pode contar já com os ovos no cu da galinha, é preciso promover, divulgar, inovar, acima de tudo criar condições para que os turistas se sintam bem de Vila do Bispo a Vila Real de Santo António, e ai entramos na parte má da conversa, naquela que, infelizmente, escapa ao controlo dos autarcas algarvios. São as obras que arrancaram em peso em vários pontos da EN 125 e que geram constantes filas de trânsito, são as portagens na Via do Infante, é o IVA na Restauração, que o governo prometeu baixar no segundo semestre, é o fantasma da exploração de hidrocarbonetos ao largo da costa algarvia.

Preocupante é, igualmente, a questão da saúde e os problemas que afetam o Centro Hospitalar do Algarve, como ficou agora patente com a realização de uma prova da Taça de Portugal de Downhill em São Brás de Alportel. O concelho é reconhecido internacionalmente pelas suas condições soberbas para a prática de BTT e Downhill, a competição acolhe centenas de atletas, nacionais e estrangeiros e o autarca questionou, e muito bem, a direção do CHA sobre o funcionamento do seu Serviço de Ortopedia. A resposta é, confesso, de deixar indignada qualquer pessoa que se esforce por trazer visitantes ao seu concelho. Isto porque o Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Algarve sacudiu a poeira do seu capote, disse que os problemas existentes se devem a terceiros, não assumiu a responsabilidade de dar resposta às necessidades prementes da região e chegou mesmo a sugerir ao presidente da Câmara Municipal de São Brás de Alportel que, ou cancelasse o evento, ou contratasse serviços de ortopedia a uma entidade externa.

Ora, nesta linha de pensamento, todos os autarcas do Algarve terão que começar seriamente a pensar em construir hospitais privados nos seus concelhos para assegurar os cuidados de saúde dos milhares de turistas que os visitam ao longo do ano, porque o Serviço Nacional de Saúde não tem capacidade para o fazer. De que adianta, então, estar a gastar dinheiro a promover a região na BTL ou em feiras internacionais de turismo por esse mundo fora para captar turistas se, depois, o poder central não cumpre com as suas funções, nomeadamente as que dizem respeito aos cuidados de saúde. E não nos esqueçamos que muitos presidentes de câmara, sobretudo dos concelhos do interior, já têm que destinar parte dos seus orçamentos para a contratação de médicos para os respetivos centros de saúde, porque o SNS não o faz.

E esta história fica ainda mais irritante quando o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, vem afirmar, na BTL, que Portugal terá de subir as receitas provenientes dos turistas estrangeiros para os 12 mil milhões de euros, um valor muito acima dos 11,3 milhões de euros registados em 2015. É caso para lembrar ao digníssimo governante, e seus colegas, que sem ovos não se fazem omeletes.

Daniel Pina

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