Sobreviver fora da «caixa preta»…

md_caixa-preta_webEsta semana assisti a uma conferência na Universidade do Algarve que partia da constatação de que arte não é ciência e que nos abria os olhos para os preconceitos que ainda hoje persistem contra as ditas ciências humanas, em geral, e as artes em particular. Em jeito provocador – porque só provocando se estimula o pensamento – a oradora avisou que se vivem tempos muitos obscuros, apesar de se dizerem transparentes, que as artes são cada vez mais desvalorizadas em prol da ciência, e que o mundo se tornou numa verdadeira caixa preta, numa alusão ao exercício que se coloca aos alunos de física, em que estes tentam descobrir o que está dentro de uma caixa preta antes de a abrirem.

A conferência, em jeito de conversa informal, foi recheada de uma série de imagens, comparações e teorias que, por estarem na plateia professores, mestrandos, doutorados, enfim, homens e mulheres de cultura bastante acima da média, eram transmitidas por meio de palavras caras e termos eruditos que não estão ao alcance do comum mortal. No entanto, depressa cheguei à conclusão de que tudo o que foi dito e pensado, às vezes há décadas ou séculos, se aplica quase na perfeição aos tempos atuais.

É que, de facto, parece que o destino do mundo é decidido no interior de uma «caixa preta». Sabemos mais ou menos quem lá está dentro, sejam os governantes e dirigentes eleitos diretamente pelo povo, sejam os outros que chegam por arrasto e que fazem parte do sistema, da «máquina» que controla isto tudo. Também sabemos o que é decidido, pois sai cá para fora sob a forma de leis, regulamentos, regras, impostos, taxas e licenças, seja lá o que for. No entanto, não sabemos muito bem como é que as coisas funcionam realmente dentro dessa «caixa preta», que fundamentos estão por detrás do que é despejado para o exterior, quais as reais motivações ou interesses que dão origens às decisões que são tomadas. Sabemos, apenas, que as temos que acatar, por muito que isso doa a quem vive, ou tenta sobreviver, fora da «caixa preta».

E quando nos pomos a pensar nestas coisas, mais pertinência começa a ter todo o enfoque que se dá à ciência, em prol da arte, e toda a lavagem cerebral que se vai fazendo às novas gerações. As ciências são exatas, normalmente têm uma única solução concreta para cada problema, portando, quando se controlam as variáveis ou as condições da experiência, também se consegue controlar, de certa forma, o resultado e esse resultado é assumido como certo, inquestionável. A arte, porém, não respira essa exatidão, antes pelo contrário, gosta da incerteza, do incontrolável, até do caos, pois isso espicaça a criatividade. E também nos faz pensar e, se calhar, não interessa muito a quem nos governa, a partir da tal «caixa preta», que as pessoas se ponham a pensar demasiado nas decisões que eles tomam, no rumo que definem para os países, para nós, para os nossos filhos.

Dizia Francis Bacon, considerado o fundador da ciência moderna, que “saber é poder”, contudo, hoje, dou por mim a pensar que, para os tais da «caixa preta», o poder está na ignorância e que, quanto maiores forem o conhecimento e a informação ao dispor dos cidadãos, maiores são as probabilidades, também, destes começarem a pensar que, afinal, não concordam muito com as decisões que os outros tomam e que ditam o seu futuro. Portanto, convém não estimular o saber, pelo menos não o saber criativo, o que faz pensar, o que gera pensamentos complexos, que relaciona o todo com as partes, que se interroga pelas soluções e resultados que os outros nos colocam em cima da mesa, como se fossem verdades absolutas.

De repente, não me estranha tanto o desinvestimento no ensino artístico, interessa é formar jovens que pensem todos da mesma forma e que estejam já alinhados pelo pensamento imposto pela «máquina», pelo sistema, por quem nos governa do interior da «caixa preta». Os tais que pensamos saber quem são, aliás, supostamente foram lá colocados por nós, pelo menos por aqueles que ainda se dão ao trabalho de ir votar. Mas, infelizmente, o que se passa verdadeiramente no interior da «caixa preta» é algo que continua a ultrapassar o comum mortal e só nos resta tentar sobreviver a tudo o que eles forem decidindo, mesmo que só sirva os interesses de alguns…

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “Sobreviver fora da «caixa preta»…

  1. Então e a filosofia para que serve? Daniel, a ciência só tem respostas até que novas perguntas descubram outras soluções. A ciência é “exacta” porque se rege pela matemática mas isso não quer dizer que não evolua . A toda a hora os físicos e cientistas descobrem novas verdades. Lembre-se de Galileu Galilei. Mal de nós se a comunidade científica não fosse teimosa e resiliente. Cabe ao pensamento filosófico fazer com que o homem se interrogue e descubra outras formas de viver, pensando de dentro para fora da caixa. Quanto à arte ser mal tratada ou incompreeendida, ainda há 200 anos os músicos e pintores comiam na cozinha com os criados dos senhores. Nunca houve tanta forma de expressão artística e tanta liberdade para criar como há hoje. Se calhar eu sou mais otimista que o Daniel. A formatação das mentalidades é responsabilidade dos donos do mundo, entre os quais incluo políticos, igrejas e comunicação social. Estes sim , são os donos da caixa preta…até que um dia a gente diga BASTA.

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