Gurus do turismo descobriram a pólvora …

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A semana passada fui à apresentação dos resultados de um estudo encomendado pela ANA – Aeroportos de Portugal a uma consultora internacional sobre as potencialidades de um produto a que pomposamente chamaram «Walking & Cicling» e ficamos todos a saber que o Algarve é uma região por excelência para a realização de caminhadas e passeios de bicicleta, com inúmeros pontos fortes a seu favor e algumas arestas que ainda há por limar. Quer dizer, tirando a imodéstia, eu já sabia isso há muito tempo, assim como todos os operadores turísticos, todos os autarcas algarvios e todos os dirigentes que têm passado pela liderança do Turismo do Algarve o sabem há imenso tempo.

Apesar disso, a ANA sentiu necessidade de gastar uma pipa de massa para pagar a uns senhores, penso eu que vindos da Irlanda, para andarem a passear pelo litoral algarvio e pelos trilhos e caminhos do interior de modo a ficarem a saber aquilo que todos nós já sabíamos. Aliás, os próprios consultores afirmaram, logo no início da sua apresentação, que muitos dos pontos fortes e fracos que tinham identificado, e muitos dos conselhos que tinham para dar, já eram do conhecimento dos operadores turísticos, dos empresários hoteleiros e da restauração, dos presidentes de câmara e por ai adiante. Ou seja, por outras palavras, admitiram que lhes tinham pago para descobrirem o que já toda a gente sabia e para sugerirem o que já toda a gente sabe que é preciso fazer.

Curiosamente, no início do ano, tinha estado no mesmo local, praticamente com os mesmos responsáveis na assistência, a ouvir os resultados de outro estudo, desta feita conduzido pela Federação Portuguesa de Ciclismo, que tinha chegado às mesmas conclusões e dado as mesmas dicas, embora apenas direcionado para o segmento das bicicletas, dos passeios de cicloturismo, dos eventos desportivos de duas rodas. Mas o que serve para as bicicletas serve igualmente para as caminhadas a pé, como já todos nós sabíamos e que ficamos agora a saber outra vez, mas da boca dos especialistas internacionais.

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Em ambas as situações, dei por mim a olhar para o rosto dos autarcas e empresários sentados na plateia e quase que podia adivinhar os seus pensamentos. É que, na hora da verdade, antes dos governantes terem contratado consultores internacionais para estudar o que não era preciso estudar, já a maioria das câmaras municipais do Algarve organizava marchas a pé e passeios de bicicleta nos seus territórios, aproveitando para tal a Ecovia do Litoral, a Via Algarviana, a Rota Vicentina, a Rota do Guadiana e outros percursos pedestres e cicláveis que elas próprias foram criando, mantendo e promovendo ao longo dos anos. E o Algarve também já é um palco privilegiado de provas de bicicleta nas suas vertentes mais radicais, designadamente de BTT e Downhill, há largos anos. E os próprios craques internacionais destas modalidades elegem os concelhos de São Brás de Alportel, Loulé e Monchique, entre outros, para realizarem os seus estágios fora do calendário oficial.

Resumindo, mais uma vez se comprova que o poder local muitas vezes sabe melhor o que é preciso para dinamizar o seu concelho do que o poder central. E ninguém sabe melhor do que os empresários o que lhes custa, na pele, a sazonalidade do turismo algarvio e quais os produtos em que se deve apostar para combater a excessiva dependência do produto «sol e mar». E os próprios responsáveis do turismo algarvio conhecem os pontos fortes e fracos da sua região, o que é preciso requalificar, o que mais convém promover nas feiras internacionais de turismo, nas revistas da especialidade e nos canais televisivos do Reino Unido, da Alemanha, da França, dos Estados Unidos da América e de outros potenciais mercados.

Não nos esqueçamos que, antes do governo decidir que o golfe era um produto importante para o turismo algarvio, já os campos de golfe da região ganhavam prémios por esse mundo fora. Antes do governo olhar, com olhos de ver, para o turismo de natureza, de saúde, de bem-estar, já os hoteleiros e empresários da região promoviam as fantásticas potencialidades do Algarve nesses segmentos. E, antes do governo ou outras entidades encomendarem estudos sobre as caminhadas e os passeios de bicicleta, já as câmaras municipais dinamizavam esses eventos há muitos anos.

Infelizmente, as regiões de turismo mal sobrevivem com os parcos orçamentos que o poder central lhes destina, e que todos os anos sofrem cortes, a tal ponto que quase não chegam para pagar os ordenados aos funcionários e para manter os postos de turismo de portas abertas. E os empresários, por muita vontade que tenham de dinamizar este ou aquele produto, não conseguem ultrapassar determinadas barreiras burocráticas e legais que são criadas pelo poder central. E as câmaras municipais não têm meios financeiros para levar a cabo algumas obras que todos sabem que são fundamentais para requalificar o que já existe na Natureza. Por isso, temos que estar todos à espera que algum governante ou entidade estatal descubram a pólvora e lancem um pacote de apoios e incentivos para se dinamizar e promover além-fronteiras o que os empresários, autarcas e dirigentes associativos já fazem há imenso tempo, dentro das suas possibilidades.

Daniel Pina

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