Venderam-se maravilhas a granel… e para nada

ria formosa

Esta semana tem sido pródiga em incidentes merecedoras da minha rabugice, desde os famosos «Panama Papers» ao pedido de demissão do Ministro da Cultura, temas sobejamente debatidos e opinados por pessoas bem mais avalizadas para esse efeito do que eu. Por isso, opto por recordar uma croniqueta escrita precisamente há quatro anos, isto porque, depois de ter passado uma manhã a percorrer a Ria Formosa, uma das Sete Maravilhas Naturais de Portugal, constatei que, depois de tanto alarido que se fez na época, e de tanto dinheiro gasto, poucos ou nenhuns benefícios se tiraram de tal galardão.

(…)

Já me irrita esta treta das Sete Maravilhas disto e daquilo que se começou a organizar em Portugal desde 2007. Como sempre gostei dos livros, filmes e programas de aventura à laia do Indiana Jones e da Lara Croft, acompanhava com algum interesse este tema quando era miúdo e já na altura havia várias listas das ditas maravilhas, dependendo do organismo internacional que a elaborava. Assim, tínhamos as Sete Maravilhas do Mundo Antigo (Jardins Suspensos da Babilónia, Pirâmides de Gizé, Estátua de Zeus, Templo de Artémis, Mausoléu de Halicarnasso, Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria), as Sete Maravilhas da Era Medieval (Stonehenge, Coliseu de Roma, Catacumbas de Kom el Shoqafa, Torre de Porcelana de Nanquim, Muralha da China, Torre de Pisa e a Basílica de Santa Sofia) e as Sete Maravilhas dos Tempos Modernos (Grande Muralha da China, Taj Mahal, Cristo Redentor, Migração do Serengueti, Ilhas Galápagos, Grand Canyon e Machu Picchu)

Entretanto, mudou o milénio, entramos no século XXI e as cabecinhas pensadoras constataram que as «velhinhas» sete maravilhas já não atraiam tantos turistas como antigamente e que era preciso uma lufada de ar fresco. O mundo também já não era o mesmo e havia novas potências que gostavam de figurar na preciosa lista, e assim se decidiu eleger as novas Sete Maravilhas, no dia 7 de Julho de 2007, designadamente a Muralha da China, a cidade de Petra (Jordânia), o Cristo Redentor (Brasil), as ruinas de Machu Picchu (Perú) e de Chichén Itzá (México), o Coliseu de Roma (Itália) e o Taj Mahal (India).

Não sei bem como a gala de eleição veio parar a Lisboa, mas de certeza que não deve ter sido à «borlix» e pela simpática conversa de José Sócrates, o nosso Primeiro-Ministro na altura. O certo é que a RTP aproveitou a embalagem para se escolherem igualmente as Sete Maravilhas de Portugal e, concorde-se ou não, os vencedores foram o Castelo de Guimarães, Castelo de Óbidos, Mosteiro de Alcobaça, Mosteiro da Batalha, Mosteiro dos Jerónimos, Palácio Nacional da Pena e Torre de Belém.

O problema é que os portugueses não saber parar e, como na época não havia austeridade, começou a organizar-se um concurso todo os anos. Primeiro foram as Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo – Fortaleza de Diu (Índia), Basílica do Bom Jesus (Goa, Índia), Convento de S. Francisco de Assis da Penitência em Ouro Preto e o Convento de S. Francisco da Ordem Terceira em Salvador da Baía, Fortaleza de Mazagão (Marrocos), Cidade Velha de Santiago (Cabo Verde), Igreja de São Paulo (Macau). Depois, as Sete Maravilhas Naturais – Floresta Laurissilva, Parque Nacional da Peneda-Gerês, Grutas de Mira de Aire, Lagoa das Sete Cidades, Portinho da Arrábida, Ria Formosa, Paisagem Vulcânica do Pico. De seguida, as Sete Maravilhas da Gastronomia – Alheira de Mirandela, Queijo da Serra da Estrela, Caldo Verde, Arroz de Marisco, Sardinha Assada, Leitão da Bairrada e Pastel de Belém.

Agora, chegou a vez de eleger as sete melhores praias do país, as 21 finalistas já foram escolhidas por um colégio de personalidades e as votações começam precisamente daqui a uma semana, no dia 7 de Maio. Curiosamente, algumas praias algarvias que todos os anos figuram entre as melhores da Europa e do Mundo, não fazem parte do lote final, se calhar porque as câmaras municipais já não têm dinheiro para gastar em candidaturas.

Chegando ao cerne da questão, foram mais umas largas dezenas de milhares de euros que se gastaram na preparação e apresentação das candidaturas e, agora, mais uns milhares saem do bolso para fora para se promover no sprint final. E depois toca a pedir aos portugueses para gastarem também a sua quota em chamadas de valor acrescentado, como se já não bastassem os telefonemas para a «Casa dos Segredos», «Ídolos», «A tua cara não me é estranha» e programas semelhantes.

E do outro lado da balança, já alguém contabilizou o retorno efetivo e real? É que não estou a ver os portugueses a viajarem por esse país fora para visitar uma maravilha natural ou um monumento ou para comer uma alheira de Mirandela. Aliás, a esmagadora maioria dos portugueses que ainda têm orçamento para férias vêm todos direitinhos para o Algarve nos meses de Julho e Agosto e o resto dos passeios fica para quando estiverem reformados, para aproveitarem as excursões do INATEL. Quanto aos turistas estrangeiros, não vejo que estes concursos tenham grande impacto ou promoção além-fronteiras e esses visitantes só percebem que estão perante uma maravilha nacional quando se encontram no próprio local e lá veem uma placa toda bonita a aludir a esse prémio.

Por isso, a moda das «7 Maravilhas» só serve para encher os bolsos da empresa que detém a marca e organiza anualmente o concurso e para que a RTP tenha mais uma gala para transmitir em direto, e mesmo assim com pouca audiência, porque a malta só quer saber do futebol, das novelas e dos «reality shows». Os portugueses também já perceberam que essa coisa da imagem e das aparências não enche a barriga nem cala os choros dos filhos e não devem estar muito inclinados para esgotar o saldo dos telemóveis a votar nas maravilhas lá da terra. Mas isso não impede que o concurso vá para a frente e, em 2013, lá teremos mais umas «7 Maravilhas» seja lá do que for que eles inventem a seguir. (…)

Daniel Pina

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