Liberdade sim, mas com cabecinha…

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O Facebook é uma maravilha, não haja dúvidas disso, uma verdadeira janela aberta para o mundo, com todas as vantagens e desvantagens que dai advêm. E se muito se fala do impacto que a mais famosa rede social do mundo teve na vida dos artistas, dos políticos, dos desportistas, enfim, das figuras ditas conhecidas, ela também veio mexer com a vida dos próprios jornalistas e de quem vive do jornalismo.

Ainda me lembro quando me iniciei nestas andanças, em 1998. Ninguém falava de Facebook, Twitter, Google Plus ou Instagram, nem sequer tinha aparecido ainda o Hi5. O mais parecido que existia era o velhinho Mirc, mas para conversar entre amigos, pouco ou nada utilizado para fins profissionais. Por isso, o jornalista de imprensa fazia o seu trabalho, a sua notícia, entrevista ou reportagem era publicada num jornal ou revista, fosse diário, semanal ou mensal, e a história normalmente acabava por ali.

Palavras a elogiar o trabalho, como é normal em Portugal, poucas ou nenhumas. Se tivéssemos cometido um pequeno erro, podíamos receber um telefonema a alertar para o facto. Se o erro fosse maior, o telefonema era mais vigoroso, ou tínhamos direito a uma carta a reclamar, ou até mesmo a uma visita pessoal do ofendido. Mas, na grande esmagadora dos casos, e acredito que os meus colegas jornalistas partilhem da mesma opinião, não fazíamos a mínima ideia de como o nosso trabalho estava a ser recebido pelo público final. Depois, se calhar, volvidas umas semanas, ou meses, encontrávamos alguém conhecido que lá dizia “Olha, gostei muito daquele teu texto!”.

Assim era o Jornalismo Antes-Facebook. Depois, o Mark Zuckerberg lembrou-se de inventar o Facebook e entrámos na era do Jornalismo Depois-Facebook. Como é sabido, a generalidade dos órgãos de comunicação social têm as suas próprias páginas nesta rede social, na qual inserem os links das notícias que remetem os facebookianos para os respetivos sítios de internet desses jornais e revistas, e num ápice somos bombardeados com as reações dos leitores àquilo que escrevemos, às vezes antes mesmo dos textos serem publicados nas versões em papel. São os gostos ou desgostos, as caras sorridentes ou irritadas, as partilhas, os comentários positivos ou negativos, as opiniões e desabafos. Por vezes, os tais telefonemas a avisarem que está para ali alguma coisa errada no texto.

No meio disto tudo, o que me faz espécie é que todos os facebookianos de repente se transformaram em cronistas e pseudojornalistas, despejando na rede social as suas opiniões, desabafos, críticas ao poder local, a este ou aquele governante ou empresário. Umas vezes com textos que são um verdadeiro atentado à língua portuguesa, com acordo ou sem acordo ortográfico. Outras vezes com opiniões que ultrapassam o bom-senso, ao ponto de se tornarem ofensivas, porque sabem que é a maneira mais rápida de transmitirem a sua mensagem aos visados, desde presidentes de câmara municipal ou junta de freguesia, a secretários de estados e ministros, até ao senhor administrador deste banco ou daquela empresa.

É a tal liberdade de expressão, como rapidamente disparam quando alguém lhes sugere alguma moderação, algum tento na língua, neste caso, nas palavras que escrevem. Esquecem-se, porém, que a liberdade de expressão não serve de desculpa para tudo, aliás, a liberdade de uma pessoa supostamente termina onde a liberdade da outra começa, porque há que respeitar o vizinho. Mas como é que se mete isso na cabeça de uma pessoa que, de repente, descobriu a ferramenta perfeita para desabafar ou discutir sobre tudo e mais alguma coisa, doa a quem doer?

Mas o que mais me chateia é quando se aproveitam das notícias publicadas no Facebook por órgãos de comunicação social para dizerem de sua sentença e, quando são aconselhadas a moderarem a linguagem, lá vêm com a conversa da liberdade de expressão ou, pior ainda, com acusações de censura, de que os jornalistas são uns vendidos, que apagam comentários que possam comprometer contratos de publicidade. Essa nunca foi, nem será, a postura do «Algarve Informativo» e basta acompanhar com atenção as notícias que são publicadas no Facebook para perceber que alguns presidentes de câmara devem andar regularmente com as orelhas quentes com esta ou aquela crítica.

O jornalismo deve ser isento de questões comerciais e é por esse valor que sempre me pautei. Agora, quando começam em ataques pessoais, com palavras ofensivas, com desabafos que, por vezes, são mais extensos que a própria notícia, porque aproveitam o tempo de antena para atacar tudo e todos, para lavar roupa suja na praça pública, aí, sim, há que moderar, que tentar colocar algum bom-senso nas pessoas. Não é, nem nunca será, por estar preocupado em perder ou ganhar algum contrato de publicidade. É, sim, por saber que a liberdade de uma pessoa termina onde a liberdade da outra começa…

Daniel Pina

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