Os filhos de abril, desiludidos, mas conformados

Portugal bandeiraEm pleno fim de semana de 25 de abril, parecia mal não falar da Revolução dos Cravos, embora seja sempre relativo falar de algo que não se vivenciou, nem o momento concreto, nem o que o antecedeu. Sou, por assim dizer, mais um dos «filhos de abril», parte de uma geração que nasceu já com Portugal a viver uma democracia. Curiosamente, os meus pais tinham casamento marcado para o dia 24 de abril de 1974, teve a cerimónia que ser adiada um dia ou dois, já não tenho a certeza. Lembro-me apenas das histórias de que a minha avó andava em pânico com o sucedido, não a pensar nas consequências de tão importante momento para a história moderna do nosso país, mas porque se ia estragar toda a comida e bolos preparados para a boda. E como nasci em março de 75, fui concebido ainda o país não sabia bem o que esperar da revolução do 25 de abril.

À medida que ia crescendo, tenho memória da minha avó estar sempre a dizer que no tempo do Salazar não havia tanta gente a passar fome, ou sem emprego e casa para viver. Aliás, repetia vezes sem conta que o antigo ditador lhe tinha dado, não ele pessoalmente, claro, mas o seu regime, uma máquina de costura Singer. Não sei se é verdadeira a história ou não, mas o que não faltavam eram idosos a lembrar-se, com saudades, dos tempos da velha senhora. Não queriam saber da PIDE para nada, nem do isolamento a que Portugal estava votado, sabiam apenas que havia sempre algo para comer em cima da mesa, que não havia tanta miséria, pelo menos não à vista desarmada, com pessoas a pedirem dinheiro ao virar de cada esquina, a dormirem nos passeios na rua, nos bancos do jardim.

Como disse, quem nasceu no pós-25 de abril só pode falar do que leu nos livros de história, do que ouviu os pais e avós contarem, não vivemos nada nisso. Mas já vivemos com os excessos que a Democracia nos trouxe, com os proveitos do dinheiro que parecia jorrar sem fim da CEE, depois União Europeia, com os pequenos luxos pagos com o dinheiro que os bancos nos enfiavam pelos bolsos adentro, a troco de prestações «perfeitamente ao nosso alcance», afirmavam eles de sorriso nos lábios.

Tinham-se acabado os sacrifícios, não precisávamos passar pelas dificuldades dos nossos pais, muito menos trabalhar no campo, no mar, nas oficinas, nas minas, nas fábricas. Agora, podíamos ser todos doutores e engenheiros, arquitetos e advogados, raios, até mesmo políticos. Tudo era possível, era o tempo de sonhar sem fronteiras, de não pensar em limites, não se cansavam de profetizar os governantes que se foram sucedendo em catadupa.

Perdemos terreno na agricultura, pesca, pecuária, indústria, começamos a comprar tudo aos outros países europeus, porque havia dinheiro para isso e não ficávamos com dores nas costas, nem com calos nas mãos. Formamos licenciados a granel, muito mais do que precisávamos, tudo à caça do ambicionado canudo para esfregar na cara do vizinho. Compramos casas de férias, mudávamos de carro todos os anos, gastávamos pipas de massa em televisões de maior ecrã, em telemóveis mais sofisticados, em roupa de marca.

Os governantes sucediam-se, a conversa era sempre a mesma, está tudo bem, não há crise que nos afete, o dinheiro vai continuar sempre a vir dos nossos parceiros europeus, desde que nos portássemos todos bem. Depois, acabou-se o tempo da ilusão, era tempo de encarar a realidade, estávamos todos com a corda na garganta, sem dinheiro para pagar o que devíamos, a comer à conta dos cartões de crédito, todos no desemprego, sem perspetivas de vida. Os governantes mudavam, umas vezes de esquerda, outras de direita, outras não se sabe muito bem de que lado eram, já ninguém percebe bem o que é esquerda ou direita. Percebemos apenas que não mandamos em nós, que temos que continuar a portar-nos bem, caso contrário, fica o país penhorado, pelo menos aquele que ainda não foi vendido a angolanos, chineses e americanos.

Não vivi na Ditadura, nasci e cresci na Democracia, mas sei que, daí a vivermos numa terra de total liberdade, seja ela de que tipo for, vai um grande passo, um passo que não sei se conseguiremos algum dia dar. E os governantes continuam a suceder-se e agora dizem que, afinal, não está tudo bem, mas também já não está tão mal como há poucos anos. E discutem piropos e o sexo do cartão de cidadão, mas não discutem a exploração de petróleo no Algarve, ou os acidentes nas estradas, a falta de médicos nas periferias, de lares para os velhotes, de jardins-de-infância para os miúdos, enfim, coisas que realmente era importante discutir.

Daniel Pina

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