Protagonismo, Egos Inchados e Cegueira Estratégica Vs Serviço Público

irenerolo

A semana passada fui com a família ao norte e, quando se tem crianças pequenas e propensas a enjoar e vomitar o carro todo, somos «obrigados» a escolher o percurso mais fácil e rápido para chegarmos ao nosso destino, ou seja, ir sempre pela autoestrada para enriquecer mais os bolsos dos concessionários e do Estado. E assim lá fomos nós pela A2, depois um atalho pela A13, seguida da confusão da A1, sempre rodeados de camiões e de condutores de prego a fundo no acelerador.

A origem deste relato é, contudo, o tal atalho, a A13 que permite a quem viaja de sul para norte, e vice-versa, claro está, escapar à desordem de Lisboa, às filas de trânsito, aos loucos cosmopolitas que stressam ao volante. Dizem-me que se poupa uma hora de viagem. Não duvido disso, e agradeço imenso a existência desta autoestrada, mas agradeço na meia dúzia de dias em que a percorro ao longo do ano. E, a julgar pela pasmaceira a que assisti, em que percorria quilómetros a fio sem vislumbrar mais nenhum veículo no horizonte, a grande maioria dos condutores também deve sentir esta gratidão apenas em meia dúzia de dias por ano.

Se calhar tive uma tremenda sorte e escolhi precisamente dois dias de movimento bastante abaixo do normal, mas acho que não estarei muito errado na minha perceção. Contudo, gastaram-se ali dezenas, quiçá centenas, de milhões de euros para construir uma autoestrada que dá, realmente, muito jeito a quem prefere passar ao lado de Lisboa nas suas viagens, mas será que não havia destino melhor para esse dinheiro todo? Que não existiriam outras prioridades na altura em que se avançou para esse projeto? E quem diz essa autoestrada, diz outras do norte do país, como todos bem sabemos.

Eu lembro-me logo que, com esse dinheiro todo, se podia ter uma Via do Infante isenta de portagens para todo o sempre. Ou requalificar-se de uma vez por todas a EN 125, mas com cabecinha, não é andar-se com obras mal planeadas no tempo e espaço e que têm causado tantas dores de cabeça aos algarvios que a percorrem no dia-a-dia, não apenas em meia dúzia de dias por ano. E nem quero imaginar como será isto daqui a um mês ou dois.

Contudo, como sei que essa luta está perdida à partida, que as portagens na Via do Infante nunca vão desaparecer, nem sequer ser reduzidas, prefiro pensar no melhor destino que os tais milhões da A13 teriam se fossem aplicados para apoiar as Instituições Particulares de Solidariedade Social que existem de norte a sul de Portugal, e ajudar ao aparecimento de muitas mais. Isto porque esta semana fui conhecer de perto o trabalho desenvolvido pela Fundação Irene Rolo, em Tavira, uma IPSS de média dimensão, com um orçamento anual de dois milhões de euros, mas que só consegue dar resposta diariamente a cerca de 300 utentes, divididos pelas suas várias valências. Digo «só», mas 300 já é um número bastante elevado neste género de entidades, há muitas que não conseguem ajudar nem sequer metade dessas pessoas.

Tenho feito ao longo dos anos vários trabalhos com IPSS que lidam diretamente com pessoas com incapacidades ou deficiências cognitivas ou intelectuais, com dificuldades de aprendizagem, de socialização, com doenças mentais. Todos os responsáveis me dizem o mesmo: não se sabe muito bem o número real de portugueses portadores de doença mental, ou de deficiência psicomotora, cognitiva ou intelectual, mas esse número é, sem qualquer dúvida, bastante superior ao que todas as IPSS juntas têm capacidade de dar resposta. Isso significa que há muitos portugueses a necessitar destes cuidados específicos e que não recebem qualquer ajuda, para desespero dos seus familiares diretos, que vão envelhecendo, que vão vendo os seus filhos crescer e tornarem-se adultos, sem saberem o que será deles quando já não tiverem forças para cuidar deles, ou quando morrerem.

Claro que é muito mais prestigiante para qualquer ministro ou secretário de estado aparecer numa fotografia no jornal ou ser filmado para a televisão a inaugurar uma autoestrada, um estádio de futebol ou outro gigantesco equipamento cuja utilidade para o cidadão comum é duvidosa, ou pelo menos não é prioritária. Claro que fica melhor junto dos parceiros europeus dizer-se que o país tem uma estratégia megalómana, e irrealista, de crescimento, porque nenhum governante quer parecer inferior ao seu vizinho. Claro que incha mais o ego dos governantes dizer que investiram mais milhões em obras faustosas, de encher o olho, do que os seus antecessores.

Se isso é prestar melhor serviço público, não sei. Se isso é contribuir mais para o bem-estar dos cidadãos, não sei. Sei que, por exemplo, não me preocupava de ficar com mais uns cabelos brancos na viagem rumo ao norte por ter que atravessar a Ponte Vasco da Gama, se soubesse que o dinheiro da A13 tinha sido gasto na ajuda aos mais carentes, neste caso concreto, aos utentes da Fundação Irene Rolo e das outras IPSS semelhantes.

Daniel Pina

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