A mesquinhez dos anti-heróis

Anti-Heróis

Comecei a semana numa tertúlia com Lídia Jorge e houve uma consideração da conceituada escritora algarvia que caiu que nem ginja na semana que vivemos. Disse a autora que Portugal continua a ter uma estrutura cultural básica bastante arcaica, o que a torna vulnerável a ser colonizada, e assim se entende a famosa máxima «santos de casa não fazem milagres» e a famigerada noção de que aquilo que vem de fora é melhor do que aquilo que temos, de que os outros são melhores do que nós.

Ainda durante o serão literário, Lídia Jorge considerou que esta falta de crença nas nossas capacidades, no nosso valor intrínseco, foi fruto das décadas de ditadura em que Portugal viveu mergulhado durante o Estado Novo, que esmagou a vontade dos portugueses, a sua autoconfiança. E, por isso, não acreditamos em nós. Pior ainda, sou obrigado a admitir que por vezes somos mesquinhos, rancorosos, invejosos.

Como nos julgamos inferior aos outros, temos inveja dos feitos dos nossos vizinhos, seja daqueles que vivem do outro lado da rua, seja do outro lado da fronteira. Levamos a mal que eles tenham sucesso onde nós não conseguimos, umas vezes porque falhamos, outras vezes porque, simplesmente, nem sequer tentamos. E somos mesquinhos, rápidos a criticar, a usar da má-língua, a apontar defeitos aos outros, quando eles existem, mas também quando não existem. E esta semana tivemos um episódio que atesta na perfeição esse traço que se infiltrou na nossa personalidade no século XX e que teima em não desaparecer.

De um lado a nossa figura desportiva principal, um atleta cujo valor é reconhecido em todo o planeta, com uns a considerá-lo o melhor do mundo naquilo que faz, outros a entender que é apenas o segundo melhor. Como se ser o segundo melhor do mundo já não fosse igualmente positivo para um cidadão dum pequeno país como Portugal. Do outro lado, um órgão de comunicação social que personifica e fomenta o pior que temos de nós, essa tal mesquinhez, inveja, rancor, um jornal, agora também canal de televisão, que se preocupa apenas em atirar pedras a figuras públicas, sem se preocupar se está a atingir a pessoa certa ou se há sequer motivo para atirar essa pedra. O que interessa é haver sangue, na primeira página do jornal ou a abrir o noticiário do horário nobre.

Infelizmente, Portugal tem a sua quota-parte de heróis, mas também de anti-heróis. Aqueles que continuarão sempre a defender que Cristiano Ronaldo não chega aos calcanhares de Leonel Messi. Aqueles que, por exemplo, diriam que Luís de Matos é uma cópia barata de David Copperfield. Aqueles que considerariam que Herman José é uma imitação rasca de Jerry Seinfeld. Raios, esses mesmos provavelmente diriam que Amália Rodrigues cantava mais ou menos, mas que a Adele é a Adele. Pessoas que, por muito bons que sejam os portugueses, encontram sempre algum estrangeiro que seja mil vezes melhor.

Apesar de tudo, Portugal continua a produzir heróis todos os dias, uns mais mediáticos do que outros, mas excelentes nos seus ramos de atividade. Temos uma Sandra Correia, que já foi considerada a melhor empresária da Europa e que todos os anos ganha prémios com a sua PELCOR e a cortiça de São Brás de Alportel. Temos uma start-up criada por Ricardo Vice Santos, um jovem que desenvolveu o ROGER, uma aplicação já presente em milhões de smartphones e com um brilhante futuro pela frente nas novas tecnologias. Temos um milagre da ciência made in Hospital de São José, um bebé que nasceu saudável depois de ter estado em gestação com a mãe em morte cerebral durante 15 semanas. Uma história que parece um filme de Hollywood, alguma vez nos passaria pela cabeça que uma nova vida pudesse ser criada nestas condições? Mas aconteceu, e em Portugal.

Estes casos, como não são tão mediáticos ou não suscitam as tais invejas e rancores, não geraram os seus anti-heróis, mas os nossos artistas de maior projeção estão sempre sujeitos a comparações sem sentido, motivadas apenas pela mesquinhez que ainda perdura em muitos portugueses. Uma postura que em nada motiva as novas gerações para se excederem, para serem os melhores naquilo que fazem, quando todos os dias têm que lutar contra a falta de investimento na Cultura, Educação e Ciência. Depois, admiram-se quando os melhores preferem emigrar, estes não por falta de oportunidades de trabalho em Portugal, mas por não verem o seu mérito reconhecido pelos seus conterrâneos.

Daniel Pina

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