O Marcelo das medalhas

marcelo rebelo de sousa
Marcelo Rebelo de Sousa esteve esta quinta-feira em Loulé para presidir à cerimónia de entrega da Medalha de Honra do Município de Loulé à escritora Lídia Jorge e, de facto, se ainda vivêssemos nos tempos da monarquia, em que era habitual cada rei ter um cognome, o do atual Presidente da República seria bem fácil de escolher: Marcelo das Medalhas. Não sei se estou certo ou errado, mas arrisco-me a dizer que, no espaço de um mês, Marcelo Rebelo de Sousa já entregou mais medalhas do que os seus antecessores fizeram ao longo de todos os seus respetivos mandatos.

Não estou com isto a tecer qualquer crítica, pois não foram daquelas distinções que ninguém percebe muito bem a razão de ser. Foram medalhas resultantes de conquistas desportivas e para o volume exorbitante que foi atribuído até à data – e ainda não começaram os Jogos Olímpicos – muito concorreu o sucesso de Portugal em termos coletivos. É que, se Portugal já estava acostumado a ganhar medalhas de ouro, prata e bronze nas principais competições internacionais em termos individuais, nomeadamente no atletismo, mais raro é consegui-lo em termos coletivos e, em 2016, estamos a matar o borrego e de forma categórica.

Claro que o grande destaque vai para a conquista do Campeonato da Europa de Futebol, logo aí são 23 medalhas só para jogadores, feito único na nossa história desportiva. A malta do hóquei em patins não quis ficar atrás e sagrou-se também Campeã da Europa, algo que não sucedia há 16 anos. Junte-se a isso as condecorações aos atletas medalhados nos Campeonatos da Europa de Atletismo, de Judo, de Canoagem, enfim, já perdemos a conta às medalhas que os atletas tugas têm trazido para Portugal. Se fossemos tão bons a gerir as contas do país, das autarquias e das empresas, provavelmente estaríamos todos bem melhores, mas isso é conversa para outro dia.

A fartura de conquistas originou, todavia, as polémicas do costume quando Portugal está envolvido, porque, pelos vistos, os craques da bola teriam direito a honrarias mais elevadas do que os seus colegas do atletismo, canoagem, judo e de outras modalidades. Houve até quem dissesse, em jeito de brincadeira, ou talvez não, que também gostaria de ser comendador. E Marcelo Rebelo de Sousa, habituado que está a trabalhar em tempo real e sem rede, fruto da experiência como comentador televisivo, logo garantiu que não há atletas de primeira e atletas de segunda categoria.

Palavras bonitas, sem dúvida, mas longe da verdade, como a esmagadora maioria dos atletas portugueses sentem na pele, sejam profissionais, amadores ou semiprofissionais. E basta-me dar dois exemplos concretos dos quais tenho conhecimento simplesmente por ser um algarvio atento, mas que de certeza se repetirão noutras zonas do país.

– Fatoumata Diallo, atleta do Clube Oriental de Pechão, conquistou uma medalha de ouro nos 400 metros e outra de ouro, por equipas, em estafeta, nos Jogos Desportivos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que tiveram lugar na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Alguém do Governo ou da Presidência da República estará a par dos feitos desta jovem rapariga? Duvido muito e o ouro das suas medalhas é igual ao de todos os que foram homenageados por Marcelo Rebelo de Sousa.

– José Vieira, atleta de natação adaptada do Louletano Desportos Clube, conquistou a medalha de prata nos 100 metros bruços no Mundial DSISO que se realiza em Florença, na Itália. Mais uma vez, tirando os amigos e colegas praticantes, alguém ficou a saber deste feito? Em Belém e São Bento de certeza que não.

Como disse, são apenas dois de muitos casos que nunca chegam ao grande público, porque a comunicação social continua a dar apenas destaque ao futebol e, por causa disso, os governantes tendem a esquecer-se que o futebol é o desporto-rei, mas não é o único desporto que existe. E quando não há reconhecimento público, não há apoios financeiros, não há patrocínios, não há condições ótimas para se treinar. Contudo, diga-se em abono da verdade, até é mais frequente esses desportistas anónimas terem mais sucesso do que os craques da bola, apesar de uns estagiarem no ginásio das suas ruas e outros em complexos desportivos cinco estrelas com todas as regalias incluídas.

Daniel Pina

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