Um xanax na carteira, duas aspirinas no bolso

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Ontem, depois de levar as filhotas às respetivas escolas e antes de ir trabalhar, dei um pulo ao Pingo Doce para umas compras rápidas e deparei-me com um daqueles episódios que, infelizmente, já se tornaram habituais por esta altura do ano. Duas caixas abertas, ambas com grandes filas, alguns algarvios a fazer comprar, pelos vistos, para os seus restaurantes, de bico calado, uma ou outra «tia» de Lisboa, de permanente ainda fresca, cheia de creme para esconder as rugas, saco de praia ao ombro e a barafustar que aquilo não se admitia, que deviam estar mais caixas abertas, que na terra dela nada disso acontece.

Dei por mim a pensar que agosto tinha começado uns dias mais cedo. Ao mesmo tempo, e como alfacinha de nascença que sou, lembrei-me que, na encantada metrópole dos nossos sonhos que é Lisboa, há uma caixa aberta nos supermercados para cada cliente, há uma caixa de multibanco para cada cidadão, nunca há filas nos correios, nem nos restaurantes, nem nos estabelecimentos de fast-food. Depois, acordei do sonho, ou deixei de ser hipócrita, e lembrei-me que tudo isso acontece também em Lisboa, com a diferença de que, lá, essas «tias» de rugas disfarçadas estão de bico calado.

Quando foi a minha vez de ser atendido, virei-me para a funcionária e disse, meio a brincar, meio a sério, “começou a temporada do xanax”. A rapariga olhou para mim, percebeu que era um cliente regular, da terra, o tal que compra muitos pacotes de fraldas, toalhinhas e caixas de café, e deixou escapar um sorriso, como que a dizer “nem imagina”. Só que não preciso imaginar, é uma realidade com que contato há mais de 15 anos, de tal modo que, muitas vezes, dou por mim a chamar uns valentes nomes a esses lisboetas, esquecendo que eu próprio sou dessa fornada.

É verdade que nem todos esses senhores e senhoras que fazem questão de vir azucrinar a cabeça dos algarvios durante o Verão são de Lisboa. Diz-me a experiência, porém, que os alentejanos são bem mais tranquilos e os nortenhos muito mais simpáticos e bem-dispostos nestas situações, portanto, o rótulo de «sacana do lisboeta» não deve estar muito desfasado da realidade. E como lisboeta que fui durante 23 anos, estava habituado a andar sempre a correr de um lado para o outro, aos encontrões nas ruas, apertado nos autocarros e no metro, a comer de pé nos fast-foods ou a ter que esperar pela minha vez de ser atendido nos restaurantes e nos correios como qualquer outra pessoa. Por isso, quando vim viver para o Algarve, não estranhei a maior confusão que se verifica um pouco por toda a região nos meses de julho e agosto. Talvez por saber que, depois da debandada dos turistas, em finais de agosto, ficamos com este maravilhoso Algarve todo para nós e tudo regressa à normalidade.

Não me causou espanto, por isso, que, passados alguns anos, já me começasse a considerar um «algarvio», importado, é verdade, mas «algarvio». E, como algarvio que me tornei, não consigo perceber que raio se passa na viagem de Lisboa para Sul, em que milhares de pessoas partem como cidadãos perfeitamente normais, uns com carteira recheada, outros sem um tostão para gastar, e chegam transformados em reis e rainhas, príncipes e princesas, cada um com o nariz mais empinado que o vizinho do lado, como se toda uma região tivesse que parar para atender os seus caprichos. Felizmente, ainda não cheguei à fase de ter que andar com um xanax na carteira e duas aspirinas no bolso, basta-me um «sacana do lisboeta» para me acalmar. Mas quem está a atender tais majestades não pode propriamente dizer estas coisas, portanto, não têm outro remédio senão o tal xanax e aspirina, para gáudio dos laboratórios farmacêuticos.

Daniel Pina

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6 opiniões sobre “Um xanax na carteira, duas aspirinas no bolso

    1. Tudo verdade… e extraordinário também são as filas das pastelarias com estas ditas famílias da alta a darem o ar da sua graça quando fazem o pedido ao senhor do outro lado do balcão …e vai qualquer coisa como isto : “olhe quero 3 torradas , uma delas com manteiga só de um lado , a outra dos dois lados e uma com doce do lado de cima e manteiga do lado de baixo ….depois são 3 sumos , um com uma maça das beiras, uma banana da madeira e uma fatia de beterraba , o outro……..” e os pategos à espera 1 hora por um pedido de sua excelência , que não têm noção que não estão nas suas casas senhoriais com as suas 10 empregadas mas sim num espaço comum onde têm que respeitar o tempo dos outros !!!

  1. Estou a rever-me neste texto. Só não me considero algarvia apesar dos quase 24 anos a viver cá, mas já entendo o porquê de me dizerem quando vinha de férias “vocês lá de Lisboa”… E como entendo!
    Vamos respirar fundo. Já sobrevivemos a muitos anos… Só falta um mês 😁

  2. Muito bom! Mas não só apenas os “sacanas dos lisboetas”. Hoje, na loja do cidadão, esperei pacientemente 2 horas para tratar de um assunto, porque toda a gente entrou de férias e foi tratar do cartão do cidadão (como eu), avec une “sacanne” sentada ao meu lado, a vociferar que cá em Portugal é toujours la même merde…. até se aborrecer, e partir, com o seu Manuel, porque estava de “vacanças” e tinha mais que fazer.. Bem haja… Et voilá, só faltam 29 dias!!

  3. Eu sou Alfacinha, proprietária de 2 alojamentos turísticos no Estoril e como tal, recebo hóspedes vindos de todas as partes, nacionais e estrangeiros… e sim, tb recebo Algarvios..
    Não vejo qualquer diferença entre ” os sacanas Lisboetas ” e os Algarvios que hospedo. Eu também já morei no Algarve e por lá tb encontrei muitas tias Algarvias.
    O problema não é geográfico mas sim do ser humano

    1. Maria Madeira… desculpe mas de certeza que nao viu tias Algarvias porque no Algarve não existem tias… no algarve as pessoas nao figem com um sotaque de portugues fino ser o que não são, E de certeza que nao teve algarvios hospedados nos seus hoteis a reclamar que não há sol como ja vi no Algarve e ainda mais, não vejo os algarvios a irem para o estoril se no Algarve estão muito melhor. è só dor de cotevelo.

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