Sirenes – a banda sonora dos nossos dias

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Vivo no Algarve há 18 anos e não tenho memória de um Verão como este. Não falo da região estar cheia de turistas, dos hotéis estarem a abarrotar de estrangeiros, das praias estarem repletas de pessoas e chapéus-de-sol. Falo, sim, de um som que já me habituei a ouvir todos os dias, de manhã à noite, umas vezes quando ando na rua a trabalhar, outras vezes quando estou em casa. Um som que nos entra pelas janelas, estridente, e que nos faz pensar imediatamente no pior. O som das sirenes, de carros de bombeiros ou de ambulâncias, qual banda sonora de um filme de tragédia que tem apoquentado os portugueses nas últimas semanas.

Portugal tem estado a arder um pouco de norte a sul, um flagelo a que o Algarve não escapou, com o arrepiante incêndio que assolou a Perna Seca, concelho de Silves. Um incêndio que começou ao início da tarde, colunas de fumo a rumar ao céu, perfeitamente visíveis para quem circulava pela Via do Infante e por quem chegava à região pela autoestrada. Uma nuvem de fumo que, passadas poucas horas, tapava o sol em Lagos, onde me encontrava em serviço nessa tarde. Sol que perdeu a sua cor habitual, transformando-se num círculo vermelho, qual filme de ficção científica.

O filme era bem real mas, felizmente, chegou ao fim sem perda de vidas humanas. Contudo, perderam-se mais não sei quantos hectares de uma das principais riquezas do Algarve, o seu meio ambiente. Apesar disso, comparado com o que tem acontecido no resto do país, com particular destaque para a tragédia da Madeira, temos tido sorte. Mas as sirenes continuam a soar, de manhã à noite. São outros pequenos incêndios florestais, alguns incêndios urbanos, acidentes na estrada, problemas com banhistas nas praias, e os nossos bombeiros e socorristas numa roda-viva, sem tempo para descansarem, quase sem tempo para respirarem.

A conversa é sempre a mesma: faltam meios para combater os incêndios, faltam homens no terreno, viaturas, equipamentos. Os meios aéreos que ajudam os soldados da paz são de empresas privadas e pagos a peso de ouro, porque algum governante entendeu que a Força Aérea não tinha nada que andar a combater fogos e se deixaram envelhecer nos hangares os aviões que havia para lidar especificamente com estas situações. Mas houve dinheiro para se comprar submarinos que nem sequer servem para jogar à batalha naval.

A justiça continua, como sempre, a ser cega, não por tratar todos de igual forma, mas por não fazer o seu serviço. Os incendiários andam à solta e alguns até são conhecidos das forças de autoridade, são reincidentes, têm cadastro nesta matéria. Mas quem provocou os incêndios, por exemplo, na Madeira, não deveria ser julgado por fogo-posto, mas sim por homicídio, nem que seja homicídio involuntário. Não se sabe se causaram os incêndios por dinheiro, ou por terem menos um parafuso na cabeça, mas a verdade é que pessoas morreram em consequência dos seus atos.  Portanto, não podem ser condenados e ficarem com pena suspensa, ou simplesmente realizarem serviço comunitário, porque é mais que sabido que, no ano seguinte, ou daqui a dois ou três anos, vão voltar a fazer o mesmo.

As soluções são mais que evidentes. Não podemos pensar em limpar as florestas apenas quando se aproxima o Verão. Temos que obrigar os proprietários a tratarem dos seus terrenos, da mesma maneira que os donos de prédios urbanos, em bom ou mau estado, têm que assegurar que eles não constituem um perigo para a via pública. Há que dar condições dignas aos bombeiros para desempenharem as suas funções. E garantir a sustentabilidade financeira às corporações de bombeiros, porque estas não podem continuar a contar os tostões para encher os depósitos das suas viaturas, nem podem ficar sem meios de combate aos incêndios por não terem dinheiro para reparar os veículos que ficam danificados.

Todos sabemos o que se deve fazer, mas a história repete-se todos os anos. Os governantes não fazem nada, praticamente não passam cartão aos bombeiros durante 9 ou 10 meses e, de repente, no pico do Verão, desdobram-se em palavras de incentivo, em abraços de conforto, enquanto vão inaugurando este ou aquele festival gastronómico no Algarve, ou vão gozando férias num qualquer destino paradisíaco. E nós, cidadãos anónimos, continuamos a ouvir as sirenes a tocar, de manhã à noite.

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “Sirenes – a banda sonora dos nossos dias

  1. Então já está esquecida do inferno que se viveu há aproximadamente 12 anos no Algarve que era fogo por todo o lado a o céu de Lagos, em plena tarde, era negro dos fogos nas redondezas, as ruas e as praias estavam cheias de roupa suja ou sejam os restos das fagulhas apagadas

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