O cliente tem sempre razão, mas o cidadão não…

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O Algarve está ao rubro por estes dias, por ocasião das comemorações do Dia Mundial do Turismo, mas também pelo lançamento do programa «365 Algarve», que pretende dinamizar mil e uma atividades culturais entre os meses de outubro de 2016 e maio de 2017. Poderia, por isso, falar dos empreendimentos turísticos que foram inaugurados na Praia da Salema e no Autódromo Internacional do Algarve, ou nos passeios de bicicletas e nos eventos culturais com a presença de membros do governo, mas prefiro focar a atenção numa das máximas do turismo, e de qualquer negócio, de que «o cliente tem sempre razão».

Ora, o cliente até pode ter sempre razão, mesmo quando não a tem, mas o cidadão é que, pelos vistos, nunca tem razão e, mesmo quando a razão está do seu lado, isso não interessa para nada porque as decisões são tomadas de acordo com a vontade de quem está lá em cima. E, neste arranque de ano letivo, milhares de pais foram mais uma vez confrontados com esta triste realidade.

Eu sou do tempo em que as aulas do primeiro ciclo começavam bem cedinho, logo pelas oito da manhã, com o primeiro turno a decorrer até à hora do almoço, e um segundo turno a acontecer da parte da tarde, de forma ininterrupta, tirando o merecido intervalo para a miudagem andar a correr feita maluca nos recreios das escolas. Se calhar, no Inverno, era um bocadinho chato para as crianças irem para a escola ainda o sol não brilhava forte no horizonte ou para, à tarde, regressarem a casa já com o dia a dar lugar à noite, mas não via grandes queixas da parte da malta nova e de certeza que, para os pais, a vida era bem mais fácil.

Como Portugal, entretanto, tem que seguir os padrões europeus, criou-se um raio de horário que não tem a mínima consideração por aqueles pais que, não sendo ricos, têm que trabalhar e não têm motorista para levar os filhos às escolas. Assim, temos crianças a entrar para as salas de aulas praticamente à mesma hora que os pais deveriam estar a entrar ao serviço nos seus empregos, o que se traduz numa tremenda confusão e correrias desenfreadas à porta dos estabelecimentos de ensino às nove da manhã.

Depois, os filhotes têm as suas aulinhas e um intervalo, uma hora de almoço desafogada, mais umas aulinhas à tarde e, de repente, chegados às quatro da tarde, terminam a sua jornada de trabalho. O que não significa que os pais tenham a mesma felicidade, mas os governantes não se preocupam em saber quem vai buscar as crianças à escola, ou o que elas vão andar a fazer o resto da tarde enquanto os pais estão nos empregos.

Claro que há as supostas atividades extracurriculares, o que significa mais uma hora para ocupar as crianças na escola, mas essas também demoram a arrancar porque, primeiro, há que contratar professores para as dar e organizar os calendários. Enquanto isso, e no Algarve em concreto, há pais que só saem do emprego às 19h, outros entram ao serviço precisamente às 16h, e não têm maneira de ir buscar os filhos, mesmo que tivessem onde os deixar depois, nomeadamente com os avós. Mas, como se sabe, o cliente pode ter sempre razão, mas o cidadão nem por isso.

Entretanto, deparei-me com outra situação caricata que nem me tinha passado pela cabeça. Como a minha filha mais velha entrou agora para a primária, é tempo de iniciar também a catequese, e voltamos a bater na mesma tecla de que as nossas opiniões nunca interessam para nada. A Igreja é, de facto, muito eficiente a mandar a cartinha para casa a recordar os pais que têm que inscrever os filhos na catequese, colocando ao dispor dois horários para a frequência das aulas: nos sábados à tarde ou nos domingos de manhã. Como se adivinha, a maior parte dos pais não tem possibilidade de levar os filhos à catequese no sábado à tarde, nem de ficar com eles durante a missa que se segue, porque estão a trabalhar, portanto, quase todos preferiram o domingo de manhã, que sempre é mais fácil de gerir.

Mas, pelos vistos, a segunda opção era só no papel, pois, na realidade, a catequista não está disponível para dar aulas nas manhãs de domingo naquela paróquia. Ou seja, a Igreja não nos deixa esquecer que, quando batizamos os nossos filhos, assumimos o compromisso de os educar segundo os princípios na fé cristã, o que, numa primeira instância, se traduz na frequência da catequese. Mas isso tem que acontecer no dia e na hora que mais convém à igreja, e não aos pais das crianças. Neste caso em particular, os pais até se podem considerar «clientes» da igreja, mas não é por isso que têm razão.

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “O cliente tem sempre razão, mas o cidadão não…

  1. E a juntar a isso tudo, ainda há o facto de ao fecharem escolas, simplesmente “atirarem, enfiarem por conveniência, um punhado de alunos numa escola que “ainda” os pais têm a “felicidade” de continuar a trabalhar, (falo de Bensafrim), tendo dividido, uma vez mais por conveniência, os alunos dos 4 anos, por apenas 2 salas,, sendo que os do 1º estão com os do terceiro, totalizando, neste momento (continuam a aumentar), 27 alunos, 2 com necessidades especiais, vários estrangeiros e 2 deles que apenas falam holandes e para compor o ramalhete, um aluno com grandes problemas que ninguém entende porque não faz parte dos com necessidades especiais, tem altura de adulto, de largura não se fala, come por 3, isto não seria problema, se não espalhasse o terror pelos pequenonos do 1º ano, faz quase todos os dias as necessidades na sala, na roupa interior, quero dizer, o que agrava o cheiro nauseabundo que já traz habitualmente…Os outros 2 anos, 2º e 4º, totalizam 18 alunos (nº máximo permitido por lei) estão com outra professora (suposta diretora). A professora dos 1º e 3º, levou um raspanete à frente de alguns pais por não estar a aceitar a situação “para o que deveria estar preparada”, de referir que os alunos do 1º ano, apenas fazem recortes e já lá vão 3 semanas de aulas…

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