O Iraque está-se a marimbar para Portugal, qual é o espanto?

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O governo iraquiano não levantou a imunidade diplomática dos dois jovens suspeitos da agressão a Rúben Cavaco, na vila de Ponte de Sor e o que me espanta no meio de tudo isto é que, pelos vistos, algumas pessoas estavam à espera de um desfecho diferente para o caso. Que raios! Ainda há quem acredite em contos de fados, ou que Portugal manda alguma coisa neste mundo que muitos dizem ser uma «aldeia global», mas que continua a ter aldeias, vilas, cidades e megacidades. E, no contexto político, no mundo das relações internacionais, dos jogos de poder, do mano-a-mano, Portugal é uma aldeia de província e o Iraque, mercê do petróleo que tem no seu território, e do seu historial bélico, é uma cidade.

É certo que temos grandes estadistas, tivemos Durão Barroso à frente da Comissão Europeia, agora temos António Guterres a liderar as Nações Unidas, só para citar alguns nomes, mas Portugal brilha frequentemente em termos individuais e raras vezes enquanto nação. Veja-se o futebol, o exemplo mais flagrante dessa realidade, onde temos craques de topo mundial, com o nosso Cristiano Ronaldo à cabeça, mas só este ano ganhamos algum título coletivo nas camadas seniores, e muita gente ainda não percebeu bem como é que vencemos o Campeonato da Europa na França. Portanto, os portugueses são fantásticos, mas Portugal é «assim-assim».

Longe vão os tempos dos Descobrimentos, altura em que, de facto, mandávamos no mundo. Íamos onde queríamos, conquistávamos o que nos apetecia, poucos nos podiam fazer frente. Mas isso é passado, e um passado bem longínquo. Por isso, desde o princípio do caso de Ponte de Sor que o desfecho estava mais do que desenhado. Se os alegados agressores fossem filhos do embaixador do Burkina Faso, do Benin ou da Conchichina, Portugal podia dar um murro na mesa a exigir o levantamento da imunidade diplomática e provavelmente veria o seu desejo realizado. Como esse não é o caso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez o que tinha a fazer, pediu, pediu outra vez, pediu ainda mais uma vez e, finalmente, para acabar com as chatices, o lado iraquiano lá se dignou a responder, dizendo o que se estava mesmo a ver que iam dizer.

Isso não significa que o Iraque entenda que os seus dois jovens cidadãos estejam acima da lei, indicando que estão disponíveis para serem ouvidos pelas autoridades portugueses. E, se assim o forem, provavelmente vão dizer o mesmo que já disseram numa entrevista a um canal televisivo. Veja-se bem a que estado chegou a justiça portuguesa, em que dois suspeitos de um crime dão primeiro uma entrevista à televisão antes de prestarem declarações às autoridades, mas isso é assunto para outra conversa. Uma entrevista, aliás, em que só faltou os dois jovens pedirem uma indemnização à vítima por causa dos danos causados ao seu carro.

Assim sendo, o caso vai continuar a arrastar-se e o mais certo é a família da vítima chegar a um acordo financeiro com a família dos agressores para retirarem as queixas. Quanto ao processo-crime instaurado pelo Ministério Público, que não depende de haver ou não queixa da vítima, também vai continuar a arrastar-se e, se chegar a uma altura em que os alegados agressores se fartarem de serem chamados para depoimentos, simplesmente fazem as malas e vão estudar para algum colégio privado na Suíça, Inglaterra ou noutro país qualquer, porque os petrodólares ainda continuam a falar mais alto do que os interesses dos cidadãos comuns.

Daniel Pina

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