Vira o disco e toca o mesmo!

giradiscos
Os anos vão passando e, para não variar, apercebemo-nos que, nos meandros da política e da alta finança, continua tudo na mesma. Mudam os partidos que estão à frente do país, mudam os figurões que estão à frente das principais instituições financeiras do país, mas as práticas, essas, não mudam. O pior é que, ontem, como hoje, vão subsistindo as más práticas, enquanto as boas se vão desvanecendo no tempo, subjugados que estamos às decisões e interesses da União Europeia e do Banco Central Europeu.

Serve a breve introdução para dizer que, em vez dos portugueses estarem a fazer contas à vida face ao Orçamento de Estado para 2017, andam mais entretidos a acompanhar os desenvolvimento em torno das falsas licenciaturas que foram descobertas lá para os lados do Ministério da Educação, e das declarações de rendimentos dos administradores da Caixa Geral de Depósitos. A mim surpreende-me que as pessoas ainda percam tempo com coisas que acontecem há não sei quantos anos e que vão continuar a acontecer, porque não temos poder nenhum para influenciar os maus hábitos das nossas elites.

Eu sou do tempo em que tínhamos que dar ao litro para conseguir entrar na universidade, e ainda mais se queríamos ir para o curso que pretendíamos. Era a média do Secundário, a Prova Geral de Acesso, as provas de aferição e se, no fim disso tudo, não tivesse uma média superior aos 16 valores, nem valia a pena pensar em inscrever-me em Organização e Gestão de Empresas no ISCTE.

Depois de alcançado o primeiro objetivo, vários familiares e amigos afiançaram-me que bastava tirar uma média final de curso igual ou superior aos 14 valores para conseguir ir às entrevistas de emprego e que essas, sim, eram decisivas para arranjarmos trabalho nas áreas do marketing e consultadoria. Ou seja, não valia a pena sermos uns crânios exagerados, nem abdicar da vida social e do convívio com os colegas para se acabar a licenciatura com 18 ou 19 valores.

Assim fiz, terminei com média ligeiramente superior aos tais 14 valores e, verdade seja dita, consegui ir a várias entrevistas de emprego e até me meteram um contrato na mão para rumar à Andersen Consulting. Quis o destino, porém, que viajasse para o Algarve e que fosse parar ao jornalismo, opção da qual nada me arrependo. Contudo, o que vislumbro nos últimos anos é jovens entrarem para a universidade com médias cada vez mais baixas, às vezes até negativas, e muitas vezes sem sequer saberem que futuro querem dar à vida.

Sobre as falsas licenciaturas nos currículos, acredito que isso sempre tenha acontecido, porque os portugueses gostam imenso de exagerar nas suas aptidões académicas e nas suas experiências profissionais. A diferença é que, desde o célebre caso do antigo Ministro Adjunto Miguel Relvas, a comunicação social anda sempre à caça de mais escândalos e, pasme-se, eles até são abundantes e bem fáceis de desmascarar, tal a «lata» de alguns dos nossos políticos.

Quanto à polémica em torno dos rendimentos dos administradores da Caixa Geral de Depósitos, é mais do mesmo, até porque o seu negócio é, de facto, trabalhar, às vezes jogar, com os números. Uns não querem apresentar os seus rendimentos, outros apresentam-nos de forma descontraída porque só mostram o que lhes interessa. O que não interessa está em nome de familiares, diretos ou indiretos, ou na conta bancária de amigos de confiança de longa data.

Enquanto isso, o Orçamento de Estado para 2017 é aprovado e ninguém percebe muito bem como é que ficam, afinal, as coisas. Uns dizem que aumentam os impostos, outros dizem que não. Uns dizem que vamos ter mais dinheiro na carteira, outros garantem que vamos ficar ainda mais tesos. Uns dizem que, com estes números, se beneficiam os mais carenciados e que Portugal vai entrar na senda do crescimento, outros torcem o nariz e não acreditam muito nessa conversa. Enfim, algo a que já estamos acostumados, porque o disco vira, mas a música é sempre a mesma.

Daniel Pina

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