Afinal, a dança contemporânea é boa…

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Admito que, antes de ter criado o «Algarve Informativo», não era grande consumidor de produtos culturais. Quer dizer. Literatura sempre foi um bom vício e, felizmente, continua a ser, agora não em papel, mas em formato digital. De cinema e música sempre fui também um ávido consumidor. Porém, cultura pura e dura, aquela que normalmente associamos ao teatro, dança, pintura, escultura, não fazia parte do meu quotidiano.

Consumia aquilo que todos nós consumimos no nosso dia-a-dia de forma inconsciente. A exceção era o teatro, do qual ainda fazia uma ou outra reportagem nos tempos da velha senhora, mas normalmente sobre teatro de revista e ai entramos da velha discussão entre o que é Cultura e Entretenimento. A dança sempre ficou para trás, porque não interessava, em termos jornalísticos, à minha anterior entidade patronal, a não ser que fosse algum festival de ranchos folclóricos ou espetáculo de casino. E assim se foi aprofundando o meu alheamento desta nobre arte.

Se calhar a culpa não era só minha, digo para me sentir menos mal. Naquele tempo, a dança encaixava normalmente em três gavetas da minha cabeça: a popular e tradicional dos bailaricos e ranchos folclóricos; a clássica dos grandiosos ballets russos; e a contemporânea, aquela onde meia dúzia de pessoas de roupas brancas ou pretas faziam movimentos estranhos num palco vazio, com música atmosférica e uma tela escura como pano de fundo. Como esta última não me aliciava particularmente, muito menos me cativavam o «Lago dos Cisnes» ou o «Quebra-Nozes», a dança ia ficando no esquecimento.

Com o tempo, o bicho papão da dança contemporânea foi ganhando força na minha mente, que até é relativamente bem informada, mas todos sabemos como é difícil desconstruir as opiniões menos positivas que formamos sobre alguma coisa. Mas isso tem acontecido nos últimos tempos, para minha agradável satisfação. Não porque a minha mente ficou mais aberta a novas experiências, ou porque a minha sensibilidade artística tenha ficado mais refinada, mas porque, julgo eu que não sou especialista na matéria, a dança contemporânea se foi adaptando à própria contemporaneidade lusitana.

De repente, os coreógrafos deixaram de conceber produtos extraordinariamente eruditos e sofisticados, apenas para cabecinhas ultra pensadoras, começaram a ir recuperar as raízes e tradições portuguesas, a misturá-las com os sons e movimentos da atualidade, e o resultado parece estar a agradar bastante ao público português. A mim, pelo menos, proporcionou-me recentemente duas excelentes noites a assistir a dança contemporânea, algo que seria impensável há meia dúzia de anos.

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A primeira aconteceu em outubro, no Auditório Municipal de Olhão, com a «Terra Chã» da Companhia de Dança Contemporânea de Évora, onde Nélia Pinheiro combinou o cante alentejano com os sonetos de Florbela Espanca e a dança contemporânea, e que bela noite foi. A força das palavras de Florbela Espanca transmitida pelos movimentos e expressões faciais dos bailarinos da companhia, um cenário a transportar-nos para os campos agrícolas alentejanos, a música moderna mixada com o cante alentejano. Uma noite, sem dúvida, muito bem passada.

Embalado pela boa experiência, não hesitei em rumar, na noite de 18 de novembro, a Loulé para assistir a «Fica no Singelo», da Companhia Clara Andermatt. Desta vez, o desafio era trazer as danças e músicas tradicionais portuguesas, as tais que estamos habituados a ver em ranchos folclóricos, para a dança contemporânea. Mais uma vez, cenário envolvente, com tudo à vista, os instrumentos, as cadeiras, as roupas espalhadas pelo chão, ninguém saia e entrava de cena para trocar de figurino. A música ambiente dava lugar à música interpretada e cantada ao vivo, pelos músicos e pelos próprios bailarinos.

Os ritmos começavam lentos, subiam de tom, tornavam-se frenéticos, colocando em palco todas as nossas raízes. E eu dava por mim de máquina em punho, no fundo da plateia, a dançar ao ritmo da música enquanto tirava fotografias. E o público, não duvido, também ia mexendo as pernas nas suas cadeiras, com os fandangos, os corridinhos, as valsas mandadas, numa roupagem século XXI irresistível. No fim, largos minutos com casa cheia, toda de pé, a bater palmas de forma entusiástica, sem querer deixar os bailarinos sair de cena. Afinal, a dança contemporânea até é boa, sai eu do Cine-Teatro Louletano a pensar.

Daniel Pina

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