Não nos odeiem pelo que escrevemos…

haters
Ontem, como de costume, fui levar a Margarida à escola e, enquanto esperava pelo toque de entrada, a professora abeirou-se de mim e perguntou-me se a funcionária com quem ela estivera a falar tinha alguma coisa contra mim. Eu olhei para a pessoa em questão e respondi que não sabia, que nunca tinha sequer falado com ela. “É estranho, ela faz cá uma cara cada vez que o vê”, explicou a docente. “Olhe, se calhar não gostou de alguma das minhas crónicas ou de alguma notícia que publiquei”, avancei eu, sem fazer a mínima ideia a que se deveria tal aversão à minha pessoa.

O jornalismo é assim. É daquelas profissões que pode gerar grandes simpatias ou antipatias sem que nós o saibamos. Porque os jornalistas deixaram de ser figuras anónimas cujo nome aparecia no início ou no fim de um texto publicado num jornal ou revista. Hoje, em virtude do boom da imprensa online e das redes sociais, nomeadamente do Facebook e do Twitter, perdemos o anonimato de outros tempos e se, pelo meio, também escrevermos algumas crónicas, com a nossa fotografia ali pespegada ao texto, então aumentam as probabilidades de sermos reconhecidos pelos leitores mais atentos.

Nada disto constituiria um problema se os portugueses não tivessem a mania de misturar as águas, de meter a vida profissional e pessoal no mesmo pacote, de elaborar um perfil psicológico de alguém simplesmente por causa de algo que ele ou ela escreveram ou publicaram. No caso das crónicas, isso até poderia ter alguma razão de ser, já que estamos a colocar naquelas palavras os nossos pensamentos e opiniões, mas concordarmos com um texto não implica que passemos a adorar o seu autor, do mesmo modo que discordarmos de uma opinião não requer que passemos a odiar essa pessoa.

Mas pronto, como, durante o mês de agosto, deixei-me embalar pela silly season e escrevi algumas crónicas um tanto ou quanto parvas, ou desmioladas, é possível que tenha ganho alguns «ódios de estimação», mesmo que, na hora da verdade, esses haters não me conheçam pessoalmente. Mais difícil é para mim compreender quando essas azias nascem de notícias publicadas nos nossos órgãos de comunicação, quando estamos simplesmente a transmitir informações de interesse geral para a sociedade.

Dou o exemplo concreto do novo IKEA que está a nascer entre Faro e Loulé e do qual, como jornalista que sou de profissão há quase duas décadas, já publiquei meia-dúzia de notícias no último ano e meio. A reação é sempre a mesma, nomeadamente de pequenos empresários do comércio local, que me perguntam logo quanto dinheiro me estão a pagar os suecos para fazer publicidade à sua marca, e por que razão não publico também notícias da loja de sofás do Ti Joaquim ou da loja de cortinados da Avó Maria.

Bem sei que, em certos órgãos de comunicação social, a linha que separa o departamento comercial da redação é bastante ténue e que, às vezes, nem sequer existe, mas eu nunca misturei esses assuntos. Mas vá-se lá meter na cabeça de algumas pessoas que jornalismo é uma coisa e publicidade é outra. Assim como, na política, quando não damos destaque às notas de imprensa da oposição a enxovalhar os presidentes de câmara, nos acusam logo de sermos uns vendidos, que só publicamos o que interessa aos poderes instalados porque eles fazem publicidade.

Felizmente que, nos últimos tempos, tenho sentido mais a reação inversa e é rara a semana em que não me telefona algum entrevistado a agradecer o trabalho que foi publicado, a dizer que o texto ficou bastante profissional, sem deturpações, sem invenções ou tomadas de posição da parte do jornalista. Mas, claro, há-de haver sempre alguém que não concorda com alguma crónica ou notícia, mas isso faz parte do jornalismo moderno…

Daniel Pina

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