A menina dos sapatos vermelhos…

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Confesso que cada vez gosto mais da música portuguesa, não porque ela antigamente não tivesse qualidade, mas provavelmente porque não lhe andava a prestar a devida atenção. Um mea culpa cuja responsabilidade, digo em minha defesa, partilho com os meios de comunicação social, sobretudo a televisão. Essa televisão generalista que nos entope os canais com anúncios a produtos de saúde e bem-estar do género do «cogumelo do tempo» – não faço a mínima ideia o que será, mas que tem um nome fantástico, lá isso tem – e com promessas de dinheiro fácil a quem ligar para os tais números mágicos. Lá pelo meio aparece alguém a contar a sua triste história, ou surgem uns especialistas – agentes de autoridade, psicólogos e sociólogos – a comentar as tristes histórias dos outros. E, pelo meio disto tudo, lá acontece um ou outro momento musical, com artistas não de música pimba, que eles levam a mal o rótulo, mas de música popular.

Os músicos a sério, melhor dizendo, os músicos que fazem música a sério, raramente compactuam com estes esquemas e, por isso, não têm honras televisivas. Os canais da televisão por cabo vocacionados para a música escasseiam ou limitam-se a passar videoclips das vedetas internacionais. Quanto às rádios, fazem o seu trabalho mas, na hora da verdade, só as ouvimos no carro quando vamos para o trabalho ou de regresso a casa e, nessas alturas, convém estar com mais atenção ao que se vai passando na estrada, e não tanto ao nome dos artistas e bandas que vamos escutando. E depois há os outros, como eu, confesso, que já nem sequer ouvem rádio, mas sim as playlists do Spotify.

Isto tudo para tentar explicar a minha desatenção ao que se vai fazendo no panorama musical nacional, mas ser jornalista ainda tem algumas vantagens nos tempos modernos e fazer reportagens de concertos e entrevistar os respetivos artistas, é uma das mais aliciantes para mim. Para mim e para aqueles que não estão apenas preocupados com os acidentes nas estradas, com as apreensões de droga, com os velhotes que assassinaram as suas companheiras de uma vida inteira e por aí adiante.

Ora, foi em trabalho que, há algumas semanas, assisti ao concerto do João Pedro Pais em Vila do Bispo. Uma fantástica surpresa e saltei e cantei como o restante público.

Lá está… Um dos tais artistas que não tem paciência para os programas da manhã ou da tarde dos canais generalistas, ou cujo som não agrada aos espetadores de idade avançada que consomem esses programas. Por isso, conhecia os temas dele que todos conhecemos, não porque fossem os melhores, mas porque foram os escolhidos pelas rádios para promover. Mas, ao vivo, a poucos metros do palco, envolvido pela energia do João Pedro Pais, percebi que ele é realmente um espetáculo.

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Nas semanas seguintes, não me cansei de ouvir os discos todos dele no Spotify e o mesmo promete acontecer agora com a Rita Redshoes, que tive o prazer de ver ao vivo, a noite passada, no Cine-Teatro Louletano. Uma Rita que conheci, há uma carrada de anos, ainda ela não era Redshoes, tocava piano no grupo do David Fonseca. Mas aquela rapariga tímida de outros tempos cresceu e tornou-se uma artista de mão cheia.

Que concerto estrondoso, com um quarteto de cordas a acompanhar o piano e as várias guitarras da Rita, temas profundos, que nos fazem pensar, de olhos fechados, outros mais simples, com batidas mais mexidas. O público esgotou a sala, não se cansou de bater palmas. No palco, via-se uma Rita encantada da vida, a fazer o que mais gosta, de sorriso nos lábios, até teve que se levantar uma vez do piano com o calor que lhe aquecia a alma. Não estava ali a picar o ponto, a pensar no cachet, mas a vibrar com a sua música, a falar da cataplana mista que tinha comido, minutos antes, no Restaurante Avenida, do famoso Carnaval de Loulé, de tudo um pouco.

Voltando ao princípio… cada vez gosto mais da música portuguesa, mas não daquela que ouvimos todos os dias na televisão… e de preferência ao vivo. Desconfio que alguns espetadores deviam olhar com uma certa estranheza para um jornalista/fotógrafo que estava a cantar e a bater o pé enquanto dava uns cliques na máquina, mas quero lá saber. Naquele momento, quem mandava era a Rita Redshoes.

Daniel Pina

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