Prego a fundo… pela encosta abaixo !!!

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No passado domingo andei morro acima… morro abaixo… morro acima… morro abaixo. Sapatos cheios de lama, calças a caminho disso, casaco todo empoeirado, cabelo desgrenhado, boné na cabeça para servir de proteção (pouca), para os chuviscos que se faziam sentir, pernas cansadas porque a idade não perdoa (lá estou eu a fazer-me de velho), costas doridas com o peso da mochila, das máquinas, das objetivas, do gravador digital e do portátil.

No meio disto tudo, sorriso nos lábios e a trautear melodias da Rita Redshoes – eu bem disse que o concerto de Loulé ia deixar marcas. O cenário era a Serra do Caldeirão, mais concretamente a Pista do Arimbo, em São Brás de Alportel, onde se disputava a primeira etapa da Taça de Portugal de Downhill, numa prova que pontuava também para a Taça do Mundo. Por isso, os melhores craques nacionais e europeus marcaram presença em grande número e o espetáculo foi… espetacular.

Quem assiste do lado de fora à velocidade estonteante com que estes atletas – dos quais apenas uma pequena percentagem são 100 por cento profissionais – descem as encostas íngremes, repletas de obstáculos, uns naturais, outros desenhados pela organização, umas vezes no meio do mato, outras vezes com ribanceiras vertiginosas mesmo ao lado, realmente fica com a ideia de que são uns maluquinhos que para ali andam em cima daquelas bicicletas. O público, normalmente praticantes, familiares, amigos, fanáticos por este desporto radical, fica contagiado, grita, aplaude, debaixo de chuva, também no meio da lama, a apanhar com o pó. Um espanhol, de megafone na mão, não estava um minuto calado e, sempre que passava um conterrâneo, mandava-lhe logo um berro para largar o travão, para acelerar.

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Eles caem, espatifam-se todos, mas levantam-se num instante, metem-se em cima da bicicleta e continuam morro abaixo. Às vezes chegam à meta com pneus furados, sem correntes, com rodas quadradas… mas chegam. Alguns partem pés ou mãos, braços ou pernas, ossos da bacia ou da clavícula, mas não desistem da modalidade que amam. E, convém realçar, alguns destes praticantes têm 30, 40, 50 ou 60 anos, com as suas profissões no dia-a-dia, não são os típicos adolescentes em busca da adrenalina. Mas não se consideram «maluquinhos» e conhecem bem os seus limites e até onde podem arriscar.

Isso mesmo me garantiu o jovem Silas Grandy uns dias antes da prova, durante uma entrevista e sessão fotográfica no Cerro de São Miguel, em Moncarapacho. Uma sessão em que, numa descida a pique com uma rampa à beira da estrada, acabou por saltar por cima de uma viatura com um casal de turistas idosos que, de repente, virou a curva. Concluída a inesperada peripécia, voltou para junto de mim a sorrir e perguntou, simplesmente, se a foto tinha ficado boa.

Podem-me dizer que o downhill funciona como um género de tubo de escape para os tais praticantes que, durante a semana, andam de fato e gravata na sua atividade laboral, na rua ou enfiados num escritório, empresários ou a trabalhar para alguém. Um modo de aliviar o stress dos dias modernos hipercompetitivos e onde ninguém é amigo de ninguém na busca pelo sucesso. Eu desconfio que, se calhar, funciona ao contrário, que o downhill, ou outros desportos radicais desta intensidade, preparam estes homens, e mulheres também, para fazer face às adversidades que lhes aparecem pela frente no dia-a-dia.

Quem cai àquela velocidade, se esfarrapa todo, e de imediato se levanta, monta a bicicleta e continua a pedalar, certamente que não desata a chorar, ou cai em depressão, se perder um cliente, ou um negócio, se o dia de trabalho correr menos bem do que o esperado, se as contas ficarem mais difíceis de pagar no fim do mês. Desconfio que abraçam essas dificuldades da mesma maneira com que saltam por cima de carros em movimento ou ziguezagueiam por entre árvores, ou se inclinam todos nas curvas lamacentas para ganhar uns segundos. E sempre com um sorriso nos lábios.

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “Prego a fundo… pela encosta abaixo !!!

  1. Acho que sim Daniel, acho que acertou em cheio o Down Hill prepara todos nós para a vida ,se passas por um fim de semana a partir pedra o que são as dificuldades do dia a dia… e obrigado por dizes que há praticantes com 60 anos no meu caso quase com 63 e em nome de todos ficamos gratos e agradecidos pelo seu texto, forte abraço.

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