Um centenário impensável…

Pois aqui estamos, número 100, é obra. Podia embelezar os factos, armar-me em vedeta e dizer que chegar à centésima edição da revista semanal do Algarve Informativo faz parte de um plano de negócios criteriosamente traçado, com objetivos perfeitamente definidos, assente numa estratégia de marketing e num estudo de mercado elaborados com todo o rigor. Podia fazer isso, mas tal não corresponderia à verdade e, quem me conhece pessoalmente, sabe que nunca fui muito adepto de inverdades e gabarolices.

Na génese de tudo esteve o desemprego e garanto-vos que ser um jornalista à beira dos 40 e sem trabalho é realmente lixado. Aliás, não é por acaso que muitos ex-colegas se viram nessa situação e, de repente, foram parar a consultores imobiliários, vendedores de seguros ou delegados comerciais disto ou daquilo, sem desprimor para tais profissões. Eu mesmo cheguei a equacionar esse caminho porque, como bem sabemos, os «tachos» na função pública ou em grandes empresas são para quem vem de «boas» famílias, para quem tem costas quentes ou para quem está filiado no partido que naquele momento estiver no poder.

Costas quentes nunca tive, à política nunca liguei e também não tive muita sorte com os pais que me trouxeram ao mundo. Fui criado por uma avó 60 anos mais velha do que eu, analfabeta, que fez o melhor que sabia, pela simples razão de que os meus progenitores preferiram continuar a gozar a boa-vida de bons solteiros, cada um para seu lado, num país que, de repente, respirava liberdade e democracia, e o filho que se desenrascasse. Mas isso também não vem ao caso, são águas passadas.

Depois de mais de 15 anos dedicados a um projeto jornalístico de referência no Algarve, vejo-me no desemprego, com uma mão atrás e outra à frente, casa e carro para pagar, duas filhas para educar. Podia ter feito como o tal fulano holandês diz, ficar em casa a lamentar-me e a gastar o subsídio de desemprego em bebidas e mulheres. Mas, como estou muito satisfeito com a mulher que tenho e também não sou grande adepto de álcool, tive que escolher outro caminho e lá fui eu bater a todas as portas que conhecia. O problema é que a crise ainda não tinha passado – nem sei se realmente já passou – pelo que os potenciais empregadores, os proprietários dos poucos jornais e revistas que ainda existiam no Algarve, foram rápidos a aproveitar-se da situação, oferecendo condições ridículas em que praticamente tínhamos nós que pagar para trabalhar.

Pouco a pouco fui chegando à conclusão que seria mais fácil tentar arriscar por conta própria e assim nasceu o blogue do algarve informativo, com a primeira notícia a ser publicada a 11 de março de 2014. A única decisão estratégica, se assim se pode dizer, que tomei na altura foi que não iria divulgar situações negativas, fossem acidentes ou mortes, apreensões de droga ou de armas ilegais, burlas ou casos de corrupção. Não me agrada o jornalismo sensacionalista que abusa de expressões como «braço decepado», «cabeça degolada», «tripas esventradas», «corpo esmagado» e que, infelizmente, deixou de ser um exclusivo do Correio da Manhã, já que praticamente todos os jornais nacionais decidiram seguir esse rumo.

O meu caminho, felizmente, agradou a uma legião de seguidores que foi crescendo, devagar no início, como é natural, depois cada vez mais depressa, até ter superado as minhas mais loucas expetativas. Em 2016, o blog do algarve informativo teve mais de um milhão de visualizações, tudo notícias positivas para o Algarve. E foi imbuído desse espírito que nasceu a revista semanal do Algarve Informativo, com o primeiro número a ser publicado no dia 29 de março de 2015. Mais uma vez sem qualquer estratégia de marketing definida, tanto que a capa até foi um desenho feito pela minha filha mais velha. Praticamente dois anos volvidos, aqui estou a lançar o número 100, sempre a divulgar o que de melhor acontece no Algarve e com uma forte aposta na vertente cultural.

A possibilitar a concretização deste sonho tenho a meu lado uma vasta equipa de cronistas, uns quase desde o início, outros mais recentes, uns mais regulares do que outros, mas todos importantes. Assim como importantes são todos os anunciantes, aqueles que, na hora da verdade, me pagam as contas da casa, o combustível do carro, as portagens da Via do Infante e todas as despesas inerentes à edição de uma revista semanal. Por isso, a todos vós, o meu muito obrigado. E até para a semana…

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “Um centenário impensável…

  1. Está de parabéns 👍um jornal sem que as notícias não sejam as desgraças do país e arredores é de dar valor..Estamos (estou)farta de desgraças é jornais é TV é RADIO não dá mais para ouvir tanta desgraça..Gostei de saber que ainda à gente a ver as coisas boas da vida ..Vou comprar👍👍👍

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