Quando os tugas brincam ao antiterrorismo

Cenário:

5 de maio, 2017. Sala de estar numa casa de classe média, nos subúrbios de uma qualquer capital europeia. Final da tarde. Televisão ligada num canal de life-style. Uma mulher trata apressadamente do jantar, o marido sentado no sofá a beber uma mini, dois putos reguilas no chão a brincarem com figuras dos Power Rangers. No pequeno ecrã, passa um documentário sobre mais um prémio de turismo atribuído ao Algarve.

Ação:

Homem baixa a mini e larga um berro para a cozinha: “Ó Maria, escuta lá, não é neste fim-de-semana que o Papa vai a Portugal, àquela coisa da Santa?”; “Acho que sim, porquê Manuel?”, questiona Maria, de colher de pau na mão a tratar do refugado. “Queres ir com os putos lá passar o fim-de-semana? Comemos qualquer coisa no shopping, vais ver um filme com os miúdos e eu vou lá fazer aquilo que tinha pensado fazer ao Francisco? O tempo está bom, ainda damos um pulinho à praia”. “Ó Manuel, então pensas nessas coisas assim de repente? Não tenho roupa nenhuma preparada para o calor, aqui está sempre nublado”. “Não faz mal mulher, é da maneira que se poupa na bagagem. Já sabes que na Ryanair não se consegue levar quase nada connosco”. E a conversa prossegue…

Cenário:

Enquanto isso, do outro lado do Mediterrâneo, um homem trabalhava afincadamente sobre uma mesa carregada de coisas estranhas, muitos fios, canivetes, relógios a piscar, barras finas arredondadas de sei lá o quê. A televisão estava ligada na RTP Internacional.

Ação:

Um jovem adolescente levanta-se de repente do sofá e grita para o irmão mais velho: “Abdul, Portugal vai fechar as fronteiras!”. “Que é que estás para aí a dizer Ahmed? Não sejas parvo. Essa malta vive do turismo, como é que vão fechar as fronteiras?”. “É por causa do Papa, está a dar na televisão. De 10 a 14 de maio vão controlar toda a gente que entra”. “Raios e coriscos. Temos que adiantar os planos. Liga lá o computador e arranja-me já um bilhete de avião para dia 8 ou 9. Não interessa o preço”, dispara Abdul, enquanto se apressava a terminar os seus afazeres.

Cenário:

De volta à realidade, 1 de abril, por acaso até é dia das mentiras, parece de propósito. As histórias são absurdas, eu sei, mas desconfio que as altas instâncias não devem pensar da mesma maneira. Isto porque Portugal vai voltar a controlar as fronteiras nacionais de 10 a 14 de maio, devido à visita do Papa Francisco, nos dias 12 e 13, por ocasião das celebrações do centenário das aparições de Fátima. Ou seja, para evitar qualquer possível ataque terrorista ou atentado contra Sua Santidade, fecham-se as fronteiras durante uma semana e avisa-se com mais de um mês de antecedência.

Não sou nenhum especialista em antiterrorismo, longe disso, mas desde miúdo que leio livros e vejo filmes de espionagem, os tais thrillers com muitas correrias e explosões, das tais células terroristas adormecidas, que estão instaladas nos países há anos, até serem «acordadas» para atuarem numa data e acontecimento específicos e, nessa altura, fazem o que têm a fazer para surpresa dos amigos e vizinhos, que dizem sempre que eram pessoas pacatas, perfeitamente inseridas na comunidade local. Histórias que, infelizmente, saltaram para a realidade na última década, com sucessivos ataques a causarem inúmeras mortes nas principais cidades europeias. As forças de segurança e unidades antiterrorismo fazem o que podem, evitam alguns ataques, mas não conseguem pará-los a todos, porque os terroristas no século XXI não andam de turbante na cabeça e um cartaz a dizer «morte aos infiéis». Muitos deles vivem nesses países há anos ou décadas, alguns desde a nascença, têm as suas profissões, rotinas diárias, são cidadãos normais, até receberem uma mensagem, um e-mail, uma videochamada, vinda sabe-se lá de onde, a mandá-los fazer o que têm feito, como bem sabemos.

Portugal, felizmente, tem escapado ileso a esses atentados, somos um país «paz-de-alma», tudo boa gente, não pisamos os calos a ninguém. Mas se alguém quiser cometer um atentado em terras lusitanas, de certeza que não apanha um avião ou atravessa a fronteira espanhola de carro, na véspera, digo eu, que não sou especialista. Mas vamos lá controlar as fronteiras, para os nossos parceiros europeus pensarem que até sabemos o que andamos para aqui a fazer…

Daniel Pina

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