Ainda as viagens de finalistas… este ano até correu bem…


A expulsão de mil estudantes portugueses de um hotel em Torremolinos, onde estavam a desfrutar, em grande estilo, da sua viagem de finalistas do ensino secundário, continua na berra. De um lado os coitadinhos dos jovens defendem-se, não fizeram nada, são uns anjinhos, claro. Do outro lado, os hoteleiros espanhóis queixam-se de um cenário de destruição nunca antes visto. Deste lado, ninguém quer meter a culpa nos coitados dos moços e das moças, preferem apontar o dedo aos professores, aos pais, a seja lá quem for, tudo menos aos endiabrados dos jovens. Até o sistema se culpa, a geringonça.

Enfim. Colocando um pouco de lado a minha tradicional rabugice, este ano até faço um balanço extremamente positivo do tema «viagem de finalistas». Isto porque, para os mais esquecidos, todos os anos há problemas com estas romarias dos nossos adolescentes para terras de nuestros hermanos. A diferença é que, das outras vezes, as consequências são bem piores. É um jovem que se atira da varanda do hotel a pensar que sabe voar, depois de ter ingerido demasiado álcool ou tomado drogas que nem sequer devia saber que existiam. É uma jovem que se queixa de ter sido violada numa discoteca. São jovens que são assaltados violentamente e regressam a casa de mãos a abanar. Posto isto, extintores vazios, televisões nas banheiras, colchões nas piscinas e afins parece-me bem menos preocupante, porque são bens materiais facilmente substituíveis.

Sem querer ser demasiado moralista, a meu ver, nesta história não há inocentes nem anjinhos. Os jovens, para as televisões, aquando da partida dos autocarros para Espanha, deixam logo o aviso: “Vai ser para rebentar”, “É para partir tudo”, “Vai ser a p*** da loucura”. As raparigas garantem que se vão portar todas bem e, na mesma reportagem, poucos segundos depois, vemos multidões de estudantes a dançar numa piscina gigante, ao som dum DJ qualquer, eles de calções, elas de biquínis reduzidos, todos aos apalpões, às esfregadelas e lambidelas, com parceiros que acabaram de conhecer na viagem, nos corredores do hotel ou ali mesmo na piscina. Asseguram que se vão comportar mas as autoridades descobrem logo drogas leves nas suas bagagens, ainda deste lado da fronteira. Quem pensam eles que enganam?

Os hoteleiros lamentam-se dos estragos, mas a verdade é que não poupam esforços para captar estes milhares de clientes durante a época baixa, com preços baratíssimos por quarto, onde depois se enfiam três ou quatro jovens, prometendo pensão completa, tudo e mais alguma coisa, muitas vezes sem intenção, ou capacidade, para cumprir o que está incluído no pacote. Depois, ficam com a caução e os jovens, muito bem comportados, claro, pensam para os seus botões: “se ficamos sem o dinheiro, então, vamos mesmo partir coisas”.

Os pais, entretanto, alimentam a ilusão de que é saudável, ou recomendável, deixar o filho ou a filha, de 17 ou 18 anos, muitos deles com pouquíssimo juízo na cabeça, irem sozinhos para o estrangeiro, a centenas de quilómetros de distância, durante uma semana, para um local onde toda a gente sabe o que vai acontecer. Curiosamente, alguns pais, ao longo do ano, nem sequer deixam os filhos ou filhas irem à discoteca ou passar o fim-de-semana em casa dum colega. Mas ir para um hotel durante uma semana, com milhares de outros jovens, sem qualquer supervisão parental, parece que já é aceitável.

Finalmente, embora nunca tenha ido a nenhuma viagem de finalistas, nem no secundário, nem na universidade, sei bem que aquilo é um excelente negócio para alguns «iluminados» que querem ganhar dinheiro sem grande esforço. Na faculdade, mal começa o primeiro ano letivo, monta-se logo uma comissão de viagem de finalistas para cobrar uma mensalidade aos alunos. Depois, organizam-se festas aos fins-de-semana para amealhar mais fundos para a viagem. Ao fim de três, quatro ou cinco anos, conforme a duração do curso, dizem que, afinal, é preciso dar mais algum dinheiro e a malta, para não perder tudo o que já pagou, lá abre outra vez a carteira.

No secundário, como a malta é mais jovem e, supostamente, menos desenrascada nestes assuntos, o processo é diferente, recorre-se a empresas que nasceram precisamente para organizar viagens de finalistas. E essas andam o ano inteiro em contatos com hotéis de Espanha para descobrir a que cobra menos dinheiro pelos quartos, o importante é terem uma piscina grande ou a praia a poucos metros. Durante uns anos, vinham todos para a Praia da Rocha. Seguiu-se Torremolinos, Lloret de Mar, agora parece que está na moda Marina d’Or. A grande diferença é que, este ano, houve estragos materiais mas ninguém morreu, foi violado ou assaltado violentamente.

Daniel Pina

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Uma opinião sobre “Ainda as viagens de finalistas… este ano até correu bem…

  1. as empresas organizadoras, os pais e os hoteis deveriam todos de pagar uma parte igual dos estragos. Quantos aos meninos e meninas deveriam de fazer todos 6 meses de trabalhos de limpeza na escola na comunidade onde estão inseridos ou no local onde provocaram os estragos.

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